Wilson Nogueira*

O ano novo, como ritual de passagem, serve para pensarmos na vida vivida. O ano velho é o vestígio recente de uma etapa: às vezes como uma jornada na planície, às vezes como o transpor de uma montanha. O ano novo é o vislumbre do rio de águas límpidas e frescas, mais uma possibilidade para que o viajante renove suas energias e prossiga caminhando.

Do passado, devemos guardar as informações e as experiências boas e/ou más, porque elas nos orientarão nos momentos decisivos que vêm por aí. O porvir é sempre a meta inatingível, a incerteza que açula a imaginação até os limites de suas forças. Vivemos para buscar o desconhecido, o amanhã; para imaginar ou reavivar passagens que persistem em nossa memória.

Na infância, eu e meus irmãos, na companhia do pai e da mãe, mergulhávamos, logo ao amanhecer, nas águas do rio Uaicurapá, no município de Parintins (AM), para limpar o corpo e a alma  das imperfeições do ano velho. O mesmo se fazia no lago do Xibuí, também em Parintins, já na adolescência. Novos corpos, novas lamas, novas águas, novo sol, novo céu, novos ares.

O ritual se repete, mas a vida não: ela passa, avança, busca novos sentidos e novas esperanças. O mergulho no rio, o serviço religioso, o tilintar das taças de vinho, o estouro de espumante, a mesa modesta ou farta celebram o ano que chega com o fervor de que tudo pode melhorar. O vislumbre do melhor é o reconhecimento da falta, das ausências e das incoerências que perturbam a possibilidade de vida plena para todos.

Milhões de pessoas passam fome, sofrem com guerras, estão sem emprego, sem teto, sem escola… Elas, certamente, mesmo sufocadas pela injustiça, pela intolerância e pela ganância dos poderes e dos poderosos, lutam por mudanças; e também esperam que o mundo se sensibilize com suas causas, para que venham a morar bem, comer todos os dias, ter saúde, viajar, mergulhar nos rios, nos mares e comemorar o ano novo com dignidade.

Não devemos nos envergonhar de fazer esse apelo aos homens e mulheres que, por ventura, possam nos ouvir. Muitos ouvidos o entenderão como pieguice ou como retórica. Mas, certamente, não é e nunca será tão absurdo quanto às justificativas para a existência das guerras, da miséria, da intolerância religiosa e ideológica, das injustiças e da violência urbana. Sobram argumentos explícitos ou velados para legitimar os horrores e os terrores que subtraem a vida do planeta.

No geral, o fundamento do desamor se ampara no “ter” como verbo da acumulação, como a economia que, ao invés de administrar, corrompe os recursos da casa, tornando-a refém da ambição exacerbada. Assim, o tilintar das taças que celebram a vida não consegue superar o ra-tá-tá-tá das metralhadoras que produzem sangue para o deleite dos senhores das guerras e para a bem-sucedida indústria das armas.

O saudoso sociólogo Octavio Ianni, a quem tive a honra de entrevistar, compreendia que a sociedade, por meio das suas instituições representativas, alimenta o falso moralismo que empobrece o sentido do viver: “A sociedade que pede o fim da indústria das armas, é a mesma que faz as guerras”. A guerra não é somente mais uma das grandes mazelas da humanidade, mas a revelação da capacidade humana para invenção da maldade. Faz-se guerra em nome da economia, da soberania, da valentia…

O fim de ano nos faz pensar na bondade, na solidariedade e na fraternidade humana, mas essa reflexão não pode perder de vista a mesquinhez que infesta a vida ordinária. Afinal, o viver exige atitude, ação e realização, para que as mudanças desejadas venham a se tornar realidade. O abraço afetuoso, a troca de presentes, o roçar das taças e os mergulhos no rio ou no mar são atos simbólicos de uma nova jornada.

O ano que vem é um caminho por ser feito. E devemos fazê-lo e percorrê-lo com a determinação de quem almeja a derrota dos malfeitores, sejam eles senhores da guerra ou corruptos que desviam dinheiro público que poderia matar a sede e a fome de milhares de desamparados. O resto é passagem sem sentido.

*O autor é jornalista