Archive for janeiro, 2014

Quantas vezes mais?

Ivânia Vieira*

Santa Maria, no Rio Grande do Sul, luta para não deixar a tragédia ser esquecida, acomodada entre outras tantas e, dessa forma, aceitar a repetição dela lá ou em qualquer outro lugar do País.  A boate Kiss segue um roteiro comum no cotidiano nacional: um lugar bacana, onde adolescentes e jovens reúnem-se para curtir a vida, com suas modas, seus barulhos, seus silêncios, suas danças, suas conversas. Um lugar para  azaração  e celebração da alegria.

O 27 de janeiro de 2013 deveria ser um domingo de amores novos, alguns desfeitos, alguns engatilhados, sono pesado, almoço com a família e com amigos. Não foi. A bela cidade gaúcha acordou na madrugada assustada e logo em pouco tempo estava diante um pesadelo real. Corpos espalhados, famílias e amigos desesperados procurando sinais de vida em um incêndio com 242 pessoas mortas.

Um ano depois, é a dor de cada um, pai, mãe, irmão, amigo, namorado, avó, professores, unida numa rede de resistência para continuar vivendo e de luta para impedir a impunidade, que  chega ao Brasil e ao mundo. “Justiça!” Pede a rede-movimento. O mesmo pedido feito um mês após a tragédia, dois meses, cinco meses, 12 meses.

No rádio, a mãe de uma das jovens mortas, falou do não dado pelas empresas de outdoors do lugar quando tentaram usar esse meio de comunicação. O medo de sofrer retaliações e perder o negócio tornou-se aliado de uma estratégia de promover o silêncio e/ou isolar em Santa Maria a dor de uma parcela da cidade. A CPI, pelas notícias dadas, caminha para se perder em uma gaveta qualquer.

A tragédia na Kiss provocou reações de dia seguinte em várias capitais brasileiras. Manaus foi uma delas. E hoje, como estão esses locais? Seguem as normas de segurança? As saídas de emergência estão construídas e aptas a serem acionadas quando necessário for?

Em Santa Maria, o Brasil viu acontecer uma das maiores catástrofes nacionais. Ela não está encerrada, ao contrário, se decisões firmes não se realizarem, se repetirá. Nossa homenagem aos  jovens mortos se traduz  em impedir que a chave do esquecimento seja acionada.

*A autora é jornalista e professora no Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Fio de água

Ivânia Vieira*

Na primeira noite, eles chegaram mansamente, elogiaram as notícias e deram tampinhas de congratulações pelo jornalismo bem-feito; na segunda noite, eles chegaram apressadamente e não olharam mais nos olhos dessa gente jornalista nem deram tapinhas festivos nem disseram boa noite. Pareciam raivosos. Ah não disseram nada. A decisão já estava tomada.

Na terceira noite, não houve embate de repórter e assessor pelo Facebook nem recadinhos ameaçadores do tipo “sabe quem paga teu salário?”, “sabe de quem sou amigo?” Um silêncio gritante se estendeu por algumas horas e, por essas horas, também havia festa tímida pelas sementes de palavras espalhadas em forma de notícia.  Então, os fantasmas do silêncio se soltaram, ganharam corpo e freneticamente arrancaram da terra as sementes, amordaçaram as bocas que teimosamente insistiam em se pronunciar. Congelaram os textos.

Os fantasmas se multiplicaram nesta terra. E gritavam: “é preciso não falar”, “não ouvir”, “não ver”, “não sentir”, “não perguntar sobre o porquê das coisas!” O terreno movediço, encharcado de desilusões não revelava à primeira vista qualquer possibilidade de nele nascer algo novo e bom. A praga dos fantasmas estava estendida, com braços longos e prontos para dar o bote mortal.

O terreno contaminado escondia um fio de água que insistia em abrir fenda, seguir adiante, enfrentar fantasmas e ousadamente perguntar por que? O fio é tênue. Por vezes parece quebrar, aceitar aqueles tapinhas como trunfo de vida e se acomodar na poltrona palaciana de uma ordem que não advoga o justo, recolhendo a palavra para viver a morte em berço esplêndido.

Os olhos mais atentos poderão ver que mesmo com muitas sementes destruídas e a contaminação em alto grau, o fio de água vai em frente. Abre trilha a semeadores e tempera a terra em doses divinas para, reabastecida, enfrentar os fantasmas da noite. Amanhã tem sol, tem estrelas e tem lua para os que exercitam a liberdade. O universo não é para fantasmas.

*A autora é jornalista de A CRÍTICA e professora no Curso de Comunicação da Ufam.

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O lugar daqui

O lugar daqui
Ivânia Vieira*
Ao tratar de espaço e lugar, Katia Canton nos faz caminhar por muitos lugares, por nossas lembranças. Encontramos nossas ruas, nossos monumentos, nossas vidas e histórias. Ou, nos confrontamos com a falta de cada uma dessas paisagens.

O que sobra para colorir nossa existência? Significar o acordar e seguir em frente. As ruas do lugar onde moro há muito são outra coisa, por onde a água estragada escorre e o lixo das casas bonitas ficam espalhados do lado de fora como banquete de cachorros, ratos, gatos e urubus. Os portões da cidade têm passagem larga para o alheiamento do destino dela e estreita à cidadania ativa.

“Na contemporaneidade, espaço público e privado estão interceptados o tempo todo”, diz Canton ao trabalhar o esgotamento da ideia de privacidade em um mundo em permanente espionagem consentida. É essa agonia presente, onde público e privado aparecem com outra feiç ão, que autoriza os “mais espertos” a engolirem a calçada por onde tento andar; a impor estacionamento de veículos nos locais destinados a outras vivências; à usurpação das áreas verdes para abrigar os empreendimentos da ávida “modernidade” para a qual logo dizemos sim, aceitamos o saque em nome dela! Afinal, somos modernos. Temos igarapés poluídos.

Canton faz a viagem acompanhada de ricos pensadores, conversa com intervencionistas das cidades a partir de uma experimentação paulistana para dizer que “no decorrer do século 20, emque a cidade de São Paulo emerge como amrco da era moderna, assistiu-se, ao mesmo temp, à dissipação da crença de que a arte e a criação são transcendentais, libertadoras, sintéticas, algo maior que a vida (…) estabeleceu-se em um não lugar, testemunhando condições de existência que na verdade são não vidas. Intoxicou-se”.

E Manaus sabe do tamanho da intoxicação a que é submetida? Tem uma caminhada a ser feita para além da praia revitalizada.

*jornalista e professora da Ufam

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O LIVRO

Ivânia Vieira*

Com alguma frequência esse livro se esconde de mim. Ora por empréstimos demorados, ora porque insiste em se misturar a outros e eu, desorientada, não o identifico nas pequenas coisas  amontoadas na minha vida. Então, o livro reaparece e parece sempre ganhar mais páginas. Já não são 300. Cada página abre trilhas audaciosas, desafia-me a fazer o percurso desconhecido e a aprender a ver, a ouvir, a sentir e a conversar com os fazedores de histórias.

São conversas que dão trabalho. Muitas delas exigem folhear e fichar em um ritmo particular onde  encantamento, raiva, ilusão, desencantamento, sonho, desejo vão se confrontando. Uma aventura e tanto tecida entre mim e o livro multiplicado em tantas vozes autorais embora ainda sejam poucas no rio por onde tenho nadado.

Nesses dias, os companheiros trazidos pelo livro que me prega peças perguntam “para que serve o jornalismo?”, afirmam “os jornalistas têm a responsabilidade de ser conscientes” e indicam o “jornalismo como um fórum público”. Bill Kovach e Tom Rosenstiel foram metidos nesse enredo. Estão atuais nos questionamentos feitos em2003; a “espiral do silêncio” é moda nos tempos modernos onde os meios de expor a opinião se expandem a cada minuto. Sim Clóvis de Barros Filho tem razão quando trata da espiral como parte da aculturação da violência; Entre os pedaços possíveis dessa conversa, Porfírio de Carvalho traz à cena o “Waimiri Atroari – a história que ainda não foi contada”, de 1982, que me remete a Paulo Monte e Egydio Schwade,  acervos generosos da nossa história e ignorados pelo conhecimento ignorante outorgador de títulos.

O que sabemos dos Tenharim? Dos conflitos e confrontos no interior do Amazonas?  Como escrever notícias daquilo que não conhecemos, não compreendemos e não nos interessamos em conhecer?  E o livro escondido volta com suas provocações: “Vozes da Amazônia” (2007), de Élide Rugai Bastos e Renan Freitas Pinto; “A Igreja arma sua tenda na Amazônia (1999), de José Aldemir de Oliveira e Pe. Humberto Guiidotti;  “A rebelião de 1924 em Manaus”, de Eloína Monteiro dos Santos; “Metamorfoses da Amazônia”, de Marilene Corrêa da Silva Freitas; “Mitologia Tariana”, de Ismael Tariano; “O ethos das mulheres da floresta”, de Iraildes Caldas Torres (org.);  “Palavra, Poder e Ensino da Língua”, de Odenildo Sena… São uma trilha deliciosamente perigosa nas páginas em multiplicação desse livro em permanente inconclusão  que dança a agonia dos passos da luta de conquista da  emancipação e da autonomia.

*A autora é jornalista, professora no Curso de Comunicação Social da Ufam.

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