Ivânia Vieira*


São pedaços de textos vigorosos, enormes pelo efeito que produzem em nós, seres cada vez mais vulneráveis e amedrontados. Yves Pedrazzini uniu esses retalhos em forma de livro e apresentou ao mundo, em 2006 (quando saiu pela Vozes a edição brasileira, traduzida por Giselle Unti), ideias e experiências em torno da violência das cidades.

Um tema atual quando as cidades espalham violência. Por que as grandes cidades são tão cruéis com os habitantes que a transformaram a partir de seus sonhos? pergunta Pedrazzini advertindo em seguida que devemos suspeitar das análises  que distinguem a violência política, cujo fundamento seria legítimo, da violência social, com freqüência associada a uma pequena criminalidade, essa sim seria ilegítima. Nem precisa esforço maior, basta uma rápida olhada para articular os laços da violência política nesse momento.

A violência urbana, afirma Pedrazzini, não é fenômeno isolado: a urbanização caótica, a densificação ou a privatização dos espaços públicos, a segregação social e racial levam a considerar as atividades informais e ilegais, violentas ou não, como indicadores de uma transformação mundial da civilização urbana. Para o autor, a informalização da urbanização é uma resposta das populações carentes à globalização e às políticas de segurança, na medida dos meios que têm.

Nessa dimensão, os shoppings centers são apresentados como última chance da condição  humana. Pedrazzini faz um apelo: “precisamos falar da violência urbana para combater a mercantilização  daqueles que a condenam, integrando-a em seu real contexto”.

A construção da cidade, política e fisicamente tanto quanto a sua forma inclusiva ou exclusiva é definida politicamente pelas classes dirigentes e que utilizam o plano diretor como estratégia para dissimular seus interesses. Pedrazzini parece falar com Manaus. Diz que a questão das favelas é abandonada ao acaso infeliz ou às estratégias defensivas que incentivam o confinamento dos bairros pobres em setores insalubres e arriscados. E de novo escreve em tom de apelo: “é importante lutar contra esse projeto ideológico de caráter segregacionista.”

A cidade é “sistematicamente privada de seus aspectos públicos em benefício de espaços especulativos, concentrados em áreas centrais – centros e galerias comerciais de luxo, onde as ruas perdem suas perspectivas”.  Somos reféns de um urbanismo do medo.

*A autora é jornalista de A Crítica e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.