Archive for março, 2014

A condição humana

Ivânia Vieira*

Segunda-feira. As notícias se espalham em tamanhos e cores diferentes nas múltiplas plataformas: 529 pessoas foram condenadas à morte no Egito. São apresentadas como dissidentes dos atuais donos do poder naquele país, simpatizantes da Irmandade Mulçumana e do ex-presidente Mohammed Mursi. Em seguida, mais um dado: outras 700 pessoas deverão ser condenadas à morte nas próximas horas.

Da primavera árabe à volta da opressão de longa duração, em pouco tempo, o Egito é agora uma das interrogações da humanidade. O confronto de lá tem um pé na maioria dos países/regiões do mundo. O dado comum é a banalização da vida. Um espetáculo macabro produzido pelas inteligências e pelos poderes de um mundo orgulhoso demais das invenções de uns poucos humanos.

Hannan Arendt, em A Condição Humana (tradução de Roberto Raposo para a 10ª edição feita pela Forense Universitária, em 2007), escreveu há pouco mais de 50 anos não haver dúvida da nossa atual capacidade de destruir toda a vida orgânica da Terra. E alertou: “Esta é uma questão política de primeira grandeza, não deve ser decidida por cientistas profissionais nem por políticos profissionais”.

Outras notícias do Egito apontam para 16 mil dissidentes políticos presos. A maioria deles é de jovens. Nas outras partes do mundo, os indicadores dos últimos anos apontam 5,8 mil pessoas condenadas à morte (muitas já mortas) como processo “legítimo e legal” do ato de Justiça. Matar em número diluído, fragmentar as mortes tem sido um recurso hábil para frear condenações e protestos internacionais contra determinados governos.

“(…) Se realmente for comprovado esse divórcio definitivo entre o conhecimento (no sentido moderno de know-how) e o pensamento, então passaremos à condição de escravos”, disse Arendt ao fazer, em 1958, uma proposta de reflexão – O que estamos fazendo? A pergunta continua valendo hoje. A atividade de pensar ainda é possível e não pode ser entendida como tarefa de um punhado de iluminados “isolados” da miséria do mundo. É difícil pensar. Nas tiranias é muito mais fácil agir. Arendt conclama a outro protagonismo humano, a outra aliança dos povos em sinal de compreensão das dores da humanidade e de posição para que estas não sejam mercantilizadas. Nos negócios feitos com as dores da humanidades, algumas custarão mais alto e exigirão Justiça; outras serão ignoradas na contabilidade da bolsa que precifica o mundo.

*A autora é jornalista e professora no Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Coisas da mesa

Ivânia Vieira*

As conversas são alegremente desencontradas. Todos falam ao mesmo tempo. A música de sucesso grita sem melodia. A letra diz tudo, arranca delírios da multidão, para traduzir o nada. Sim, traduz algo em três, quatro letras que a maioria canta-gritando ou quem sabe grita-cantando em movimentos frenéticos. Está pronto o sucesso, contabilizado os acessos e formatada a audiência. Está pronto um dos estilos de maior êxito da vida hoje. É volátil mesmo.

Da mesa, alguém grita cortando por segundos a conversa desconversada. Doenças, remédios, fofocas, impressões do certo e do errado são espalhadas entre goles de bebidas variadas, sem combinação, e petiscos igualmente misturados. Anúncio de vida nova chegando e prenúncio da morte se espreitando. “vamos brindar”, pede alguém para, em seguida, filosofar: “ninguém sabe o dia de amanhã”. O brinde é brindado, risadas, e as conversas reiniciam.

Uma mesa farta de intenções e de atitudes. O Brasil passa sobre ela, reinterpretado. A maioria condena o “Bolsa Família”. Está convicta que o programa do Governo Federal criou uma multidão de pobres preguiçosos que não quer mais lavar loucas nas casas e nos bares, não aceita mais trabalhar em casa de família, nem fazer faxina porque agora têm o dinheiro da bolsa. Nessa mesa, esse Brasil traçado por eles e elas não tem jeito, é só corrupção. O retrovisor por onde olham é o do dos Estados Unidos. Ali, sim, as coisas funcionam, afirmam.

Alguém grita de novo: “Pera lá! Essa história não está bem contada. O que você está fazendo para as coisas funcionarem por aqui? Quem foi que disse que nos EUA tudo é certo, funciona? Vai ficar contemplando de longe?” Uma nova rodada de opiniões ásperas e simultâneas é inaugurada, mais bebida, mais petisco. E entre as avaliações do Brasil e dos Estados Unidos, os conversadores da mesa revelam como foram espertos em burlar o trânsito, a fila do banco. Um mediador tenta se colocar: “Se é assim que tentamos melhorar o País, tá difícil, não é gente?” Já não é ouvido porque o som da conversa desafia o som da música e os dedos teclam a telinha do celular buscando novas postagens de vídeos engraçados, preconceituosos, irônicos, satíricos para mostrar à turma da mesa. É o nosso cotidiano enunciando nossa cidadania, nosso jeito de fazer política e nossas formas de participação.

*A autora é jornalista e professora no Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Outras memórias

Ivânia Vieira


Olhando um pouco mais afastada reúno pedaços do que deveria permanecer ligado e o ensino ensinou a separar. Separou tanto até impor a crença da desligação como sinônimo de competência e lucidez científica. A força da crença se revelou tamanha ao ponto de trucidar aqueles e aquelas consideradas uma ameaça à obra erguida. Os protetores do templo são ferozes, dispostos a qualquer ato para impedir o afastamento de uma pedra sequer.

Pretensiosos senhores. Diante da armadura inculcada nas falas dos autorizados, nos livros com permissão de circulação, nos programas empacotados da televisão aberta e fechada e da Internet, os sábios rebeldes caminham. Deixam escapar folhas soltas e elas voam longe, as frases perigosas porque mostram brechas na obra fechada por onde é possível ver que além da pedra tem poeira, tem água, tem vida vivendo mesmo com o peso do fardo sobre as costas obrigando as gentes sem títulos olhar baixo. É um garrote determinando movimentos.

De tanto olhar na horizontal por causa da lei imposta essas gentes fazem descobertas, abrem outros questionamentos para o desespero dos que apostavam no desvio sem volta na coluna vertebral. A perspectiva do olhar horizontal parece harmonizar e exige tecimentos diferentes: tem a rua que não é rua e nela buraco esquecido, sinal de trânsito ignorado, água espalhada, construções avançando nas calçadas, classe média jogando lixo no espaço público, falta árvore,  humanos encapam palmeiras com fios de nylon e o canto dos pássaros se dissipa…. quem precisa deles? Tem no computador.

Uma dessas folhas soltas bateu no meu peito nesses dias mais longe. Era Geraldine Brooks traduzida por Marco Malvezzi Leal, em “Memórias do Livro” (2008). Os fragmentos são da conversa de Hanna, a desvendadora do âmago dos livros, e Ozren, o salvador do livro. Ou simplesmente “um homem que ficava sufocado por causa de livros perdidos”. Ela descobriu que há borboletas que dependem das formigas para proteger suas crisálidas; que as borboletas são criaturas do ar livre. Nós, precisamos dos livros, das borboletas e das formigas para nos completarmos como gente sem garrote.

*A autora é jornalista de A Crítica e professora de Comunicação Social da Ufam.

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Por que lutamos?

Ivânia Vieira*


Poderia recorrer aos dados mais recentes da ONU sobre gravidez indesejada e maternidade precoce. Refletir o porquê de 140 milhões de mulheres casadas ou em união estável com um homem desejarem evitar a gravidez e não utilizarem nenhum método anticonceptivo; ou as razões de 46 milhões de bebês terem nascido sem nenhuma assistência básica e 15 milhões deles serem filhos de mães na faixa etária entre 15 e 19 anos. São os fragmentos da realidade de 130 países (o Brasil é um deles) e essa realidade de privações tem rosto feminino.

Recorro, pela propriedade do documento, à “Carta da Marcha Mundial de Mulheres” deste ano reproduzindo trechos dela: “Denunciamos a máfia milionária da prostituição e da pornografia que se apresentam com a maquiagem da indústria do lazer e do entretenimento.

Denunciamos as grandes obras e mega eventos como Copa do Mundo e Fórmula 1 como espaços para naturalizar a prostituição, facilitar o tráfico de mulheres e de meninas e como uma forma de aprofundar a pobreza e desorganizar a vida da população pobre, via remoções de favelas e terrenos ocupados. Denunciamos a Fifa como uma máfia cada vez mais autoritária e corrupta e reivindicamos o esporte como um direito das mulheres como atividade de lazer, integração e amizade entre os povos.

Neste dia de luta – 8 de março – nos solidarizamos com as mulheres e meninas do Brasil e de todo mundo que sobrevivem e lutam contra a violência que sofrem em casa, nas ruas, no trabalho e as mulheres vítimas de conflitos produzidos e estimulados pelo imperialismo.

Exigimos que o Estado Brasileiro não aceite mais nenhuma morte de mulheres e meninas vítimas da violência sexista e que implemente a Lei Maria da Penha em sua totalidade. Para isso, os Estados e os Municípios devem aplicar recursos em políticas de enfrentamento à violência e o Judiciário precisa enfrentar o machismo dos juízes e outros profissionais do setor.  Queremos outro modelo de segurança que garanta o efetivo combate à violência contra a mulher e que não sirva para criminalizar os movimentos sociais e a pobreza.

Estamos em luta para transformar o modelo de produção e consumo. Por isso, denunciamos a imposição dos agrotóxicos e das sementes transgênicas que geram dependência das agricultoras e agricultores. Somamo-nos à luta dos movimentos do campo para que as prioridades do governo hoje voltadas ao agronegócio se revertam para a reforma agrária, demarcação das terras indígenas e quilombolas como único caminho para garantia de soberania alimentar livre de transgenia, de veneno no ar, na água e na terra e nos alimentos que chegam a nossa mesa.” Que a resistência a todas as formas de sujeição das mulheres seja mantida, apreendida e exercitada.

*A autora é jornalista de A Crítica e professora de Comunicação Social da Ufam.

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