Archive for abril, 2014

Legado da Copa

Wilson Nogueira*

Os organizadores e patrocinadores da Copa do Mundo, entre tantos outros, o governo, a Fifa e os  conglomerados das grifes e das mídia  tradicional – eles se confundem  nas  funções,  deveres  e obrigações – deram  largada a uma corrida propagandística para  acalmar os  ânimos  anticorrupção  na Copa. Querem, por meio da persuasão repetida, convencer que os dribles e os gols dos jogadores e o delírio dos torcedores estão acima dos efeitos da sangria dos cofres públicos em favor da realização de um evento cujo legado que, pelo visto até agora, será mirrado se comparado ao que foi prometido há quatro anos.

Os “donos da Copa” orientam-se, a essa altura, pela perspectiva de que haverá, sim, manifestações de rua antes e durante os jogos, porque não há como frear a insatisfação generalizada com o desvio de recursos públicos das obras de infraestrutura e logística que, depois da competição, ficariam para a população. Setores como saúde, segurança, educação e transporte seriam amplamente beneficiados. Nada ou quase nada foi feito. Isso irritou a população.

A ideia “deles”, então, é criar um clima de que as possíveis manifestações serão contra o futebol, ou contra a atitude esportista, para justificar as táticas de repressão que virão por aí. A própria presidenta Dilma, compactuando com a estratégia e táticas da cartolagem e dos “conglomerados” globalizados, já emitiu mensagem intimidadora: o governo vai agir pesado contra as agitações anticopa.

A saber, é irrisória a parcela de brasileiros avessa ao futebol, mais irrisória ainda deve ser a parcela dos que detestam futebol; não dá para imaginar que essa gente tivesse capacidade, sozinha, para se mobilizar e tentar impedir a realização da Copa no Brasil. Por outro lado, não faltam provas de que, como se diz no jargão esportivo, “O brasileiro é apaixonado pelo futebol”. Senão todos brasileiros, mas a imensa maioria torce por algum time da rua, do bairro, da cidade, do estado, da região ou dos campeonatos nacionais e internacionais. Não seriam os brasileiros a não querer uma Copa no Brasil. Logo nós, que fizemos figas para ter a sorte de sediar esta Copa de 2014!?

Uma coisa deve ser esclarecida: os brasileiros não são contra a Copa nem contra o futebol; os brasileiros estão insatisfeitos com o derrame de dinheiro na construção de estádios de “padrão Fifa”, forjado pelas máfias econômicas e políticas, enquanto  as obras do legado urbano nas cidades sedes não ocorrem na proporção prometida antes, durante e depois da escolha do Brasil e das cidades  sedes.

Em Manaus, por exemplo, os quatro jogos da Copa deixarão para trás um estádio de vultosa manutenção e uma faixa azul para circulação exclusiva de ônibus em algumas ruas e avenidas da cidade. O transporte de massa em monotrilho, a internet de banda larga, o fun park do Encontro das Águas e o edifício garagem da arena da Amazônia foram palavras jogadas ao vento para obter o “aval” dos contribuintes às falcatruas da politicalha e dos oportunistas de plantão – esses travestidos de políticos e empreendedores.

Aliás, a Arena da Amazônia não possui estacionamento para carros  compatível com os seus 40 mil lugares e, por isso, já nos jogos-testes, os torcedores foram aconselhados, pela autoridade de trânsito, a deixar seus veículos  em casa e encarar os ônibus superlotados ou a se deslocar a pé. Trata-se de abuso, desrespeito e traição ao torcedor que acreditou que a Copa, como dizia a propaganda, poderia deixar uma bendita herança também aos amazonenses.

Problemas como os registrados em Manaus se repetiram, em maior ou menor proporção, em outras cidades sedes e, desta feita, fazem o caldo das agitações ferver. A propaganda oficial e a mídia tradicional não conseguem mais convencer a população na sua quase totalidade, como faziam antes do surgimento da internet e suas redes sociais. Por isso, dificilmente, conseguirão persuadir alguns leitores, ouvintes ou telespectadores a demonizar aqueles que irão às ruas contra a corrupção.

Assim, dificilmente calarão o grito de cidadania que ressoa desde junho do ano passado. Nessa ocasião, os brasileiros deram o seu recado: estão atentos aos jogos nos gramados e à movimentação dos cartolas e seus cúmplices na subtração da qualidade de vida da população. A mobilização por cidadania talvez seja o maior legado desta Copa. O resto é propaganda.

*O autor é escritor e jornalista

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Cuidado com a “tal de densidade”

Wilson Nogueira*

É preciso ter cuidado com o “fenômeno” da “tal densidade eleitoral”. Ele é muito perigoso, porque pode esconder, ardilosamente, “personas” do submundo do poder que, de repente, surgem como possibilidade de “opção de voto” para eleitores que, na realidade, clamam renovação na política. Essas “personas” são recorrentes em partidos que se fecham em si e não permitem que os eleitores construam, a partir da vivência e convivência das ideias, uma democracia que realmente se espraie em representação social digna desse nome.

Os partidos da velha política se valem das velhas estruturas que construíram para si, para se perpetuar no poder. Eles próprios inventores e inventados pelo poder dos poderosos de sempre. Assim, só entra para a política partidária aqueles que se submetem aos caprichos do círculo vicioso que rejeita a renovação de práticas e ideias. Forma-se, então, nos partidos, o ambiente propício à acomodação dos interesses mesquinhos que entortam a política como arte de bem proceder e bem governar. A velha política vem sendo adubada pelo oportunismo de toda ordem.

Os grupos e grupelhos que mandam e desmandam no país, por meio do controle da grande maioria dos partidos e da mídia tradicional, subtraem a democracia a interesses subterrâneos daqueles que se revezam no controle do dinheiro do contribuinte. E um dos ardis para que as suas vontades prevaleçam e permaneçam como o todo e sempre é exatamente inventar candidatos que causem sensação de novidade no eleitor, cuja aspiração é ter opções renovadoras.

Os candidatos da “densidade emergente” são, geralmente, aquelas figuras que se submetem a viver colados no poder a qualquer custo, com a única finalidade de tirar proveito para si ou para o grupo ao qual pertence. A esse tipo de gente não interessa a dignidade, porque o que lhe vale mais é a possibilidade de estar no e para o poder, praticando o oportunismo e a ganância. Dizem, sem cerimônia: “Há governo, estou dentro”, ou ainda: “Melhor puxar saco que puxar carroça”.

Se essa gente camuflada no poder ou sem a legitimidade das urnas, já é perigosa, imagine-as com as benções dos votos? Ah, aí sim, faz com maior desenvoltura aquilo que o apuí faz com a samaumeira, a maior e mais bela árvore da Amazônia: suga-a até matá-la, em favor do seu crescimento próprio. Na política, existem apuís e sementes de apuizeiros ao vento, esperando a melhor hora para se alojar e destruir árvores frondosas; e a melhor hora, para o parasita da política não é outra senão a da eleição.

A metáfora nos ajuda a não só pensar a política no mais amplo significado filosófico ou científico, mas também a alcançar, criticamente, o principal dos seus desdobramentos na vida cotidiana: o gesto de votar, comparável ao adubo de uma árvore, que poderá vir a ser um apuizeiro ou uma samaumeira. O eleitor, portanto, precisa se informar, avaliar e conhecer muito bem o processo eleitoral e suas leis. Pode, por exemplo, não votar e pagar multa; pode votar em branco ou anular o voto; em quaisquer dessas situações, estará se manifestando na eleição, que, aliás, para ser verdadeiramente democrática não deveria exigir voto obrigatório.

O que muda e o que mudará no Amazonas a se confirmar o registro eleitoral daqueles que se insinuam candidatos? Nada ou quase nada! A maioria do que vêm por aí, já está aí há mais de trinta anos. Os poucos que poderiam fazer alguma mudança nesse jogo de cartas e atitudes conhecidas não têm a tal “densidade eleitoral”, ou melhor, não aparelharam a estrutura do poder em benefício próprio nem têm dinheiro para pagar os laboratórios de marketing que fabricam “densidades”.

Por isso, muito cuidado, mas muito cuidado mesmo com os “formadores de opinião” e seus candidatos de “densidade eleitoral”. A saber, a eleição, no termo em que se encontra atualmente, é um jogo violentíssimo e suas consequências sempre desabam sobre a sociedade.

*O autor é jornalista e escritor

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Água para lavar o silêncio do Poder

Ivânia Vieira*

Eram recebidas com naturalidade pela maioria da comunidade de leitores de jornais locais (e de outras regiões) as manchetes principalmente as dos cadernos de Polícia que banalizavam a violência contra a mulher e desqualificavam as vítimas, responsabilizando-as por terem sido estupradas, espancadas, sequeladas, mortas. Editores desses cadernos tinham que ter um perfil para “trabalhar bem” tais notícias. E as notícias tinham audiência e se reproduziam em um sistema de violência por meio dos programas de rádios (onde essas matérias eram lidas e comentadas com efeitos de som). Esse modelo de jornalismo tripudiava sobre a dor da vítima e da família dela, ajudava a manter como lei o manual de comportamento das mulheres. Com uma noção muito forte: segui-lo ou candidatar-se a ser a próxima vitima.

Os casos de violência viravam piadas nas redações. Responsabilizavam a mulher violentada pelo crime, ora porque era feia, ora porque sua forma de se vestir provocava os homens ou porque era uma jovem de muitos relacionamentos sexuais. Enfim, a vítima não merecia respeito e teve o que merecia. Assim estava construída a sentença e a audiência da notícia.

O jornalismo e os jornais em todo o Brasil tomaram decisões importantes, embora ainda muito tenha para ser feito nessa forma de tratamento dos fatos. Essa mudança vem como resultado de uma série de ações, uma melhor formação profissional, a criação de fóruns de discussão, as novas exigências legais a partir da Constituição de 1988; o fortalecimento do movimento feminista; os direitos difusos provocando ranhuras numa concepção conservadora e machista da doutrina do direito e da Justiça; a caminhada de democracia brasileira e da cidadania.

A pesquisa apresentada no dia 27 de março, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por meio do Sistema de Indicadores de Percepção Social (Sips) sobre o tema “Tolerância à violência contra as mulheres” mostra que a nossa caminhada apenas começou e terá muitos obstáculos a vencer. Foram ouvidas 3.810 pessoas, nas faixas etárias de 16 a 29 anos, de 30 a 59; e a partir dos 60 anos, de 212 municípios brasileiros. As respostas cruzadas traduzem resultados que precisam ser analisados a partir de cada lugar considerando as forças progressistas e retrógradas. No Amazonas essa estrutura tem peso enorme.

Alguns resultados da pesquisa: Aproximadamente 64% dos entrevistados e das entrevistadas afirmaram concordar total ou parcialmente com a ideia de que “os homens devem ser a cabeça do lar”; Chega a 79% os que concordam com a frase “toda mulher sonha em se casar”; e somam 60% as respostas à indicação de que “uma mulher só se sente realizada quando tem filhos”; Recebe a concordância de 82% dos entrevistados e entrevistadas a frase “o que acontece com o casal em casa não interessa aos outros”; Na mesma linha de aprovação, com 78,7% está a velha máxima da violência que “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”; e para 89% desse universo “roupa suja se lava em casa”; A ideia de que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família” é aprovada por 63% das pessoas entrevistadas; e 65% delas concordam com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. A esse dado somam-se os 58,5% das pessoas que nesse estudo de percepção entendem que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

O jornalismo, os meios de comunicação tradicionais,as redes sociais podem contribuir muito para desconstruir essa noção perversa que vive em casa, na escola, no trabalho, enfim nas instituições. Nosso respeito e nossa homenagem às mulheres que ontem foram à Assembleia Legislativa do Amazonas, na carona, a pé, em o dinheiro do transporte, em meio a chuva, para denunciar o silêncio que alimenta a violência contra todas nós.

*A autora é jornalista e professora no Curso de Comunicação da Ufam.

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