Marcus Stoyanovith

O placar de 7X1, mais parece conta de mentiroso contra um país que vê o futebol como uma espécie de quinto elemento (ar, terra, fogo, água e ele). Pura realidade – devastadora para quem só crê na televisão, inovadora para quem gosta de fatos nus e crus. E o fato é que o futebol mudou e só o Brasil não viu. A mudança veio com a entrada, antes mesmo de qualquer jogo, do “camisa zero”, ou seja: da lógica do planejamento.

Há muito que o futebol europeu, precisamente Espanha e Alemanha, mostrou ao mundo que é possível vencer a beleza da habilidade, a gravidade do drible, a criatividade do improviso individual, copiando tudo isso e inovando na sua própria característica que é o esquema tático, baseado na marcação forte e no pragmatismo dos contra-ataques.

Enquanto isso no País do futebol, tudo gira em torno do craque (excepcional) e de alguns jogadores satélites que passam boa parte de uma partida assistindo o próprio jogo, esperando a bola chegar aos seus pés- assim como ocorre nos campos de peladas dos campinhos de várzea ou urbanos do País. É isso o tempo inteiro, num campeonato nacional cheio de vícios de cartolagens e corrupção com muitos jogos e nenhuma inovação.

O espaço é o mesmo para todos, assim como o número de jogadores no campo e da reserva, sem falar no conjunto de regras que podem variar de um País para o outro, sem perder a essência da relação futebol/torcedor (há no Brasil uma lei para ele). O modo de fazer nesse espaço, carregando, tocando, passando a bola e marcando quando não se está com ela, é que vem se “matrimonializando”, cada vez mais, a previdência com o imprevisível, deixando este último apenas como um acaso e não como regra geral.

Os jogadores sempre estão próximos uns dos outros, numa triangulação perfeita e movimentada, onde catetes e hipotenusa mudam de lugar o tempo todo, sem contar com um ponto de fuga que sempre é convocando para um arremate, no mínimo perigoso, fazendo do Gol, não um grito emocional de alegria, pura e simples, mas uma confirmação. A Alemanha já não é apenas o país da filosofia é também do futebol arte.

Para um telespectador devastado com o placar de sete a zero para a Alemanha contra o Brasil, na casa do Brasil, o locutor global Galvão Bueno falava sobre um gol de honra, ainda lembrava ser este um sentimento dos velhos tempos. Mas como haver contentamento em fazer um gol de honra para o país do futebol. Por que relutamos em entender que o melhor jogador desse popular esporte na atualidade é a lógica – o planejamento, o camisa zero, o jogador que começa na prancheta e que, cada vez mais, vem se multiplicando nos campos do futebol arte que a Europa aprendeu a jogar?