Archive for janeiro, 2015

Travessia

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Cotidiano em Movimento

Marcus Stoyanovith

Assim como um rio correndo para o mar, viajei do Amazonas à Paraíba num breve regresso. Revi amizades, lugares e as praias com águas verdinhas, aguardando os ventos nordeste para ficarem um verdinho em folha. Como peixe de arribação, me surpreendi com um ato meio fora de moda nos tempos modernos: com as lembranças. Como um surfista num tubo veloz, me lancei na leitura do livro “Caminhos de Mim – Andanças pelos tempos descalços”, de Luiz Augusto Crispim. Ele já não está mais entre nós, mas sua obra o mantém vivo e atual em nossa memória. Mais ainda: deixa-nos ligados a coisas, aos espaços e aos lugares da nossa cidade.

Nas crônicas de Caminhos de Mim, Luiz Augusto Crispim nos envolve e ensina a valorizar nossas lembranças e isso é importante nessa vida de produto/preço, quando consumir, cada vez mais, é tudo que interessa. O passado e tudo que nele mora não têm valor e o quem somos vai depender muito do que temos, e o que temos são as visões dos cartazes coloridos com preços promocionais nas vitrines das lojas comerciais.

Crispim nos ensina que as lembranças nos ajudam a sermos felizes duplamente e que elas nos ajudam na construção de horizontes. Elas se completam quando valorizamos os espaços e lugares onde tudo aconteceu, mesmo que a arquitetura nos apresente outro cenário. Na base do “aqui onde era isso ou aquilo…”, a memória nos coloca no túnel do tempo e lá estamos numa época quarenta, cinquenta anos atrás, só para citar um exemplo.

O título, profundo e musical, revela a intenção do jornalista, cronista e escritor Luiz Augusto Crispim. É que, ao decidir refazer os caminhos, ele diz: “Pois bem, quero partir de um caminho diferente. Agora fica mais fácil, partindo de mim”. E começa aí uma das mais belas vivências e convivências do Eu/Homem com o seu lugar, suas casas, suas ruas, praças, colégios etc. Para cada caminho, uma lembrança e com ela veio o perfume, o sabor e as cores das épocas que via e mexe revivem naqueles que sabem viver sem desperdiçar uma gota de tempo.

Ao ler o livro, parte dele ainda em trânsito por João Pessoa, a bela capital da Paraíba, um sublime torrão, acabei por fazer outra viajem e com a mesma intenção de não perder tempo. E na aparente contradição de ganhar tempo voltando ao passado, mergulhei no tempo em que andava de Marinete (ônibus antigo), pulava o muro do clube Astreia com amigos de infância, ia correndo para aulas no Pio XII, e também lembrei as intensas paixões platônicas. Fui em todos os lugares que  despertaram  tais lembranças. Foi uma boa viagem.

De repente, pensei em como o cotidiano se movimenta (se é que é possível?). Pensei que podemos ir em qualquer direção além das tridimensionais que nos impõe o corpo físico de tal maneira que na viagem  através da memória fazemos uma ligação com o futuro, no presente. Caminhos de Mim, levou-me às lembranças de uma infância e adolescência já arquivadas. Essa é a maior importância desse livro: valorizar nossa memória por inteiro, ou seja: o Eu em harmonia com o lugar, o espaço, as coisas.

Para por em seu último livro suas andanças de pés descalços, Luiz Augusto Crispim contou a magia plástica de Flavio Tavares – uma inspiração para ele; Milton Nóbrega , na bela programação visual , testemunho de Sitônio Pinto na Orelha, projeto editorial Juca Pontes, Martinho Sampaio na editoração eletrônica e Ângela Bezerra de Castro, na contra capa. Em 92 páginas, Crispim caminha por 29 estações, cada uma com uma história, numa “poesia” de textos que mostram que paixão completa só aquela que vence o tempo do esquecimento e celebra o tempo da memória viva com as pessoas, os lugares, os espaços e todas as coisas do cenário chamado convivência.

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