Archive for abril, 2015

Para Dona Anita, aventureira do cotidiano

Ivânia Vieira*

Nas ruas da cidade já não posso andar. Quem sou? Gente ou qualquer coisa sem importância? Afinal, quando não se tem mais o direito de andar no lugar onde você vive é porque algo grave aconteceu e os direitos foram retirados.

É assim que uma multidão de nós, no Japiim, no Jorge Teixeira, na Colônia Oliveira Machado se sente.

Tente ir e vir nesses locais e veja qual é o resultado dessa experiência. Calçada ainda se constitui em conquista distante e, por isso, estrangeira para muitos. As que existem estão privatizadas pelos que se assenhoraram delas e determinaram os códigos de acesso. Uns podem usar esses espaços, a maioria não. São correntes, em preto ou em cores, peças de concreto ou de ferro atuando como muros de proteção do quê? Do espaço privado se sobrepondo ao público.

Esses pequenos muros, alguns bem cuidados outros descuidados, grosseiros, terríveis, continuam em expansão acelerada, colocados por moradores de casas e de apartamentos ou pelos donos de pequenos e grandes negócios (dos que vendem os ‘churrasquinhos de gato’, frango assado aos que vendem material de construção, água, gás…).

A normalidade dessa usurpação de um direito fundamental dos humanos é uma catástrofe em Manaus, onde o pedestre descobre-se impedido de andar. Só o faz se morador das áreas nobre da cidade. Nessas regiões, não falta energia elétrica e a iluminação é farta, bonita; as calçadas são largas e bem cuidadas; há jardins e  inexistem muros (porque o muro maior determinou quem pode e quem não pode usufruir desses espaços).

Uma minoria da população tem esse direito. Para esse grupo, os governos estão atentos, criam pistas de conforto, não descuidam do asfalto, da pintura dos espaços  nem do podamento adequado das árvores. São ilhas afrontando a todos nós.

Se a política dos governos repete-se na atenção aos privilegiados, do nosso lado, vítimas dessa política, a reprodução desse jeito de viver faz escola e demonstra a fragilidade da cidadania. O Japiim que o diga. Ande nesse bairro. Ao final, se não sofrer um acidente ao tentar transpor buracos nas margens da pista e os obstáculos nas calçadas, pode se considerar uma pessoa vitoriosa. Sobreviveu a uma guerra. São casas bonitas, com ruas sujas porque prevalece a noção do “cuido até aqui, o resto não é mais comigo… é resto”. Por fim, todos decretamos que nossos vizinhos, os moradores do lado, e os visitantes são pessoas-restos.

Orgulhosos dessa conduta, estamos todos os dias decretando e alimentando as impossibilidades de uma convivência mais saudável. Nos tornamos cúmplices das políticas segregacionistas dos governos, com o dedo em riste e a impáfia da ignorância em seu melhor estilo.

A cidade chora e pede clemência. Tenta avisar que mantido esse comportamento tanto ela – cidade – quanto nós – gente portadora da capacidade de construir, de promover mudanças – não teremos chance de viver com decência e dignidade. Nem o povo das ilhas nem o povo fora delas. Todos serão atormentados cotidianamente. Alguns em grau menor, com direito de escapulir e morar por temporada em Nova Iorque; a maioria se digladiando na violência urbana que nos iguala.

Dessa guerra não escapa ninguém, nem os que adoram a Deus e ostentam suas bíblias ou terços mas zerando um comportamento cidadão nem os que se orgulham de ser ateus: somos todos cúmplice de uma lógica da perversidade humana.

* A autora é jornalista, professora no Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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A cantora lírica Elaine Rowena ministrando aula ao levantador de toadas Sebastião Júnior e ao apresentador Israel Paulain, na Cidade Garantido, em Parintins (AM), em 2012.

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Detalhe de área externa do Mercado Adolpho Lisboa, no centro histórico de Manaus

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MEC garante concurso como forma de contratar docentes

O Ministério da Educação descarta mudanças na forma de contratação dos professores das universidades federais. Ou seja, será mantida a seleção por meio de concurso público. A estruturação do plano de carreiras e cargos de magistério federal é regulada pela Lei nº 12.863, de 24 de setembro de 2013. A partir dessa lei, a titulação de doutor passou a ser requisito para ingresso na carreira do magistério superior nas universidades federais.

O MEC considera equivocada a alegação de que decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) pela constitucionalidade do modelo das organizações sociais acaba com a necessidade de contratação de docentes e servidores nas instituições federais de ensino. A Lei nº 9.637, de 15 de maio de 1998, que instituiu o modelo das organizações sociais, foi julgada constitucional pelo STF em decisão da última quinta-feira, 16.

O modelo, em vigência há 17 anos, nunca foi usado para a contratação de docentes nas instituições federais de educação superior, já que uma organização social não pode substituir o papel constitucional das universidades.

(Assessoria de Comunicação Social / MEC)

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=21244

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Concorrência!

Área do Porto Manaus Moderna

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O vento Galeano permanece

Ivânia Vieira

Andei mexendo em livro velho com páginas quase desprendidas. Os textos marcados com  lapiseira azul estão desbotados. As ideias não. Ficaram guardadas dentro do livro e o livro ora dentro de caixas ora em instantes improvisadas. Assim encontrei o meu exemplar de “As Veias Abertas da América Latina“, a 12ª edição da Paz e Terra, de 1981 (o livro foi escrito no final de 1970). Busquei o clássico de Eduardo Galeano encharcada por vários sentimentos: saudade das conversas e discussões da época da faculdade de jornalismo, na Ufam; curiosidade em revisitar  as ideias de Galeano algumas décadas depois; triste porque o câncer se fez desculpa da morte para levar, no dia 13, esse escritor do mundo, nascido em Montevidéu.

De “As Veias Abertas…”   que continuam abertas na América Latina, retiro duas citações de Eduardo Galeano:  ”Já se sabe quem são os condenados que pagam as crises de reajuste do sistema“, e “as cidades vão inchando até explodirem“. Escritas há quase 30 anos, elas traduzem uma face da atualidade não de um continente e sim do mundo todo.

Instigada por Wellington Pereira, jornalista, escritor, poeta e professor e pesquisador na Universidade Federal da Paraíba, atravesso as veias para chegar ao “Livro dos Abraços”, escrito por Galeano em 1991. São abraços que afagam nossas angústias e espremem nossas alegrias. Eis alguns dos textos espalhados nas 139 páginas da publicação:

Os funcionários não funcionam.

Os políticos falam mas não dizem.

Os votantes votam mas não escolhem.

Os meios de informação desinformam.

Os centros de ensino ensinam a ignorar.

Os juízes condenam as vítimas.

Os militares estão em guerra contra seus compatriotas.

Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.

As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.

O dinheiro é mais livre que as pessoas.

As pessoas estão a serviço das coisas” (em “O Sistema/1″) .

Os índios são bobos, vagabundos, bêbados. Mas o sistema que os despreza, despreza o que ignora, porque ignora o que teme. Por trás da máscara do desprezo, aparece o pânico: estas vozes antigas, teimosamente vivas, o que dizem? O que dizem quando falam? O que dizem quando calam? (em “Os índios/2″).

Pela tela desfilam os eleitos e seus símbolos de poder. O sistema, que edifica a pirâmide social escolhendo pelo avesso, recompensa pouca gente. Eis aqui os premiados: são os usurários de boas unhas e os mercadores de dentes bons, os políticos de nariz crescente e os doutores de costas de borracha (em “A Televisão”).

Eduardo Galeano disse a Galeno de Freitas, tradutor de “As Veias Abertas...” que escrever um livro é como colocar uma mensagem dentro de uma garrafa e atirá-la ao mar. A possibilidade de que alguém a recolha e leia é sempre remota. “Qual é o mistério dessa mensagem de as veias abertas?”, pergunta Freitas sabedor das tantas águas por onde esse livro viajou. E ele mesmo responde – “a força deste livro reside na verdade, contada com veemência e provada com documentos irrefutáveis”.

Em “O Ar e o Vento” (no “Livro dos Abraços”), Galeano escreveu: “quando eu já não estiver, o vento estará, continuará estando“. Que os ventos lançados por Eduardo Galeano continuem atravessando as águas dos mundos pessoal e grupal nos animando a encher outras garrafas com os escritos que alcancem multidões amantes da liberdade e da autonomia.

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O mago está em paz criativa

O ex-coordenador da Comissão de Artes do boi-bumbá Garantido Fred Góes faz, em entrevista à revista Valer Cultura, um balanço da sua trajetória artística, desde os anos setenta, quando compôs grupo musical Raíces de América, até aos espetáculos do Festival Folclórico de Parintins. Góes afirma que, nesse período, aprendeu que a arte exige um aperfeiçoamento contínuo do artista, e é isso, segundo ele, que não deixa o espetáculo parar. Confira a entrevista na Revista Valer Cultural: https://www.magtab.com/revista-valer-cultural/

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Justiça Federal manda retirar indígenas de terreno da Prefeitura de Manaus

Elaíze Farias

Famílias indígenas de 12 etnias que ocupam há quatro anos um terreno do Município de Manaus no bairro Tarumã, na Zona Oeste da cidade, podem ser retiradas do local a qualquer momento por determinação do juiz Ricardo Salles, da 3ª Vara da Justiça Federal.

A decisão judicial, que saiu no dia 5 de fevereiro de 2015, atendeu um pedido do Ministério Público Estadual em favor da Prefeitura de Manaus. Em sua ação, o promotor Agnelo Balbi afirmou que o terreno é uma área verde pertencente ao Município. Mais em Amazônia Real:

http://amazoniareal.com.br/justica-federal-manda-retirar-indigenas-de-area-ocupada-ha-quatro-anos-da-prefeitura-de-manaus/

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