Archive for junho, 2015

O primeiro A de nossas vidas

Ivânia Vieira

O que faz um professor em nossas vidas? Se por alguns minutos refletirmos a respeito, um mundo de revelações marcantes será desnudado. Na minha experiência, desde o grupo-escolar Murilo Braga até à Ufam, professor@s me ensinaram a vencer o não e cravar o sim do eu posso fazer, foram e são esteios que me ajudam a tecer caminhos e seguir em frente e, numa opção de cumplicidade, na feição mais solidária, sem ignorar os atropelos desse caminhar.

Me apresentaram, lá trás, o papel almaço – nossos cadernos – livros ou pedaços deles feitos em cópias (foi assim na graduação) para descobrir entre prazer e dor o exercício de vencer cada página e testar a compreensão. Me ensinaram sobre disciplina e respeito e, a cada período vivido como estudante, me apontaram o espaço criativo no qual posso voar para realizar.

Nesse caminhar professor@s estiveram comigo sempre. Juntos por afinidades várias ou por circunstâncias nos descobrimos burilando o A – aquela primeira letrinha desenhada em tantas formas nos esforços iniciais de aprendizagem. A partilha dessa caminhada é feita de tensões (trabalhos entregues em cima da hora, depois do prazo, notas justas, injustas, enfrentamentos no posicionamento político, gestos generosos, celebrações por vitórias mais pessoais, advertências e um posicionamento espetacular – a capacidade de desnudar nossos escritos e neles passear, nos levando junto, em novas construções do conhecimento).

Nessa greve das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) que não é fato novo porque é fruto da desatenção prolongada dos governos com o setor, professor@s têm sido desqualificad@s. Um série de adjetivos é lançada nas diferentes plataformas de comunicação na tentativa de forjar o perfil de quem aderiu ao movimento. Por vezes, com profunda tristeza, constata-se professores desqualificando seus pares e estimulando estudantes a seguirem esse caminho. A história mostra como é fácil erguer abismos e multiplicar as cercas que construir pontes como dado novo.

Não são vagabundos nem arruaceiros os que no sol e na chuva, no calor ou na sala refrigerada estão em luta hoje por garantias nesse trabalho-missão de ser professor; Burilar o A é também compreender o fardo da responsabilidade repassado à categoria para que dê conta dele diante da sistemática precarização; É dizer não ao pacto que  arrasta os problemas transformando-os em questão/sofrimento de cada um o lidar com eles; Burilar aquele A do começo das nossas vidas de estudantes é aprender a reafirmar a esperança em luta para realizar novas conquistas e manter a dignidade.

Arte em TeseAs mostras feitas pelo professor-mestre João Gustavo Kinen, da Universidade Federal do Amazonas são expressão de um roteiro envolvente. Vale conferir. No sábado (27), Gustavo irá à Academia Amazonense de Letras, na rua Ramos Ferreira, 1009, Centro, a convite do projeto Sábado na Academia, série Arte Em Tese para falar, a partir das 10h, das Passagens sonoras amazônicas na obra de Arnaldo Rebelo. Sob essas paisagens, a série encerra a primeira temporada de 2015. Coordenado pelo incansável prof. Zemaria Pinto, o projeto revela fôlego e vem se tornando um dos espaços de circulação do conhecimento produzido pelas instituições de ensino e pesquisa do Amazonas, de confrontação de ideias e de aprendizados.

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A greve é uma chance nova

Ivânia Vieira

Há uma resistência necessária e vital no movimento de paralisação dos técnico-administrativos e dos professores da Universidade Federal do Amazonas. Mais: entre o desânimo, os conchavos, ataques e estado de letargia, a greve iniciada na segunda-feira, para os professores, tem um conteúdo promotor de descobertas de possibilidades de agir e acrescentar experiências na luta pela melhoria dos salários e no enfrentamento ao processo de precarização das atividades acadêmicas.

Faz-se democracia quando as faixas no campus da Ufam dividem posicionamentos – favoráveis e contrários à greve. Estas estão publicamente expostas e resultam da maior participação no modo assembleia da categoria na última década: 567 professores (dados da Associação dos Docentes da Ufam). No dia 9, desse universo, 292 professores votaram pela paralisação; 271 disseram não; e quatro se abstiveram.

Os próximos dias serão testes para o exercício do ser resistência e para vencer o marasmo que toma conta da vida da instituição. Como ocupar os espaços e animar professores para que cada corredor, sala e as áreas cobertas sejam a expressão criativa dessa presença. Nesse ato, os estudantes são a outra parte fundamental. Passa por eles ampliar o som, tornar o ritmo mais frenético e ousar nas práticas que envolvem outros ambientes de aprendizado para além da sala de aula.

A luta em defesa da universidade pública, gratuita e socialmente referenciada (slogan que embala a paralisação) ganhou dimensões mais complexas porque remete à exigência de compreender as opções e os acordos que o Brasil faz internacionalmente e os planos propostos nacionalmente envolvendo eixos como economia/educação/cultura). Na configuração construída, a universidade pública está asfixiada, a gratuidade ameaçada e a referência social brecada sob vários aspectos. A compreensão não é contemplativa, é ação.

Alterar o quadro que tornou-se real no desmantelamento da instituição universidade  com igual característica implica ter a coragem cotidiana de denunciar a situação, desenvolver articulações que resultem em um posicionamento mais coletivo das partes envolvidas nessa engrenagem. Estamos, a passos largos, perdendo as referências históricas que nos fizeram chegar até aqui. E sem esse conteúdo ressignificando outras dimensões ganham  espaço e sinalizam com a naturalização daquilo que  historicamente se constitui em risco à existência da universidade pública, gratuita e de qualidade. Esses são alguns dos temas que estão cada vez mais ausentes nas salas de aula e quando colocados, por vezes, é pelo viés da retaliação, da rejeição e da ignorância das lutas travadas.

Nesse sentido, a experiência da greve é outra chance de posicionamento dos professores, dos técnico-administrativos e dos estudantes em defesa da educação autônoma e crítica e contra os engessamentos que tentam viabilizar a entrega desses espaços a modelos de uso para poucos. Que os caminhos agora percorridos sejam marcados pelos saberes da alegria, da solidariedade, do respeito a nossa cultura, politicamente firme e coerente. É tempo de lutar e de realizar sonhos.

Arte em Tese – O jornalista, sociólogo e escritor Wilson Nogueira é o convidado de sábado (20), às 10h, da Academia Amazonense de Letras, na rua Ramos Ferreira, 1009, Centro, do projeto “Sábado na Academia”. O professor-doutor Wilson Nogueira conversará sobre Recriação do imaginário amazônico no boi-bumbá de Parintins, tema resultante da tese doutoral  do cientista.

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Jovens sob a égide do encarceramento

Ivânia Vieira

O encarceramento brasileiro incide sobre homens, negros, jovens, autores de crimes patrimoniais e que, em sua maioria, não chegaram a completar o ensino médio. É essa uma das conclusões do grupo de pesquisadores responsável pelo estudo Mapa do Encarceramento – os jovens do Brasil lançado há oito dias pela Secretaria-Geral da Presidência da República e Secretaria Nacional da Juventude.

O documento, de 116 páginas, apresenta a série histórica 2005-2012 dos encarceramentos cruzando variáveis que produzem um quadro crítico sobre os jovens pobres do País. É reforçada a posição de que uma das principais dificuldades do sistema prisional brasileiro está na ausência de assistência jurídica à população encarcerada. Dados do InfoPen (o sistema integrado de informações penitenciárias) indicam que aproximadamente 40% dos presos são provisórios; entre os condenados, cerca de 70% cumprem pena em regime fechado. A maior parte dos presos (29%) cumpre pena de mais de quatro a oito anos de reclusão e parcela significativa (18%) cumpre pena de até quatro anos, que, de acordo com a legislação, poderiam ser substituídas por penas alternativas.

Os homicídios aparecem como principal causa de morte de jovens de 15 a 29 anos. Os mais atingidos são jovens negros do sexo masculino, moradores das periferias e áreas metropolitanas dos centros urbanos. Com base nos dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM/Datasus), do Ministério da Saúde, foi montado o seguinte quadro: mais da metade dos 56.337 mortos por homicídios em 2012 no Brasil eram jovens (27.471, equivalente a 52,63%), dos quais 77% negros (pretos e pardos) e 93,30% do sexo masculino. E ressalta: “por essa razão, os homicídios de jovens representam uma questão nacional de saúde pública, além de grave violação aos direitos humanos, refletindo-se no sofrimento silencioso e insuperável de milhares de mães, pais, irmãos e comunidades.”

O mapa destaca o fato de a violência impedir que parte significativa dos jovens usufrua dos avanços sociais e econômicos e revela a perda de um inesgotável potencial de talentos para o desenvolvimento do País. “A exposição desse segmento a situações cotidianas de violência evidencia uma imbricação dinâmica entre aspectos estruturantes, relacionados às causas socioeconômicas, e processos ideológicos e culturais, oriundos de representações negativas acerca da população negra”. A violência contra os jovens não se limita aos homicídios. Dados do Infopen mostram que os jovens representam 54,8% da população carcerária brasileira. É mais uma forma de vitimização da população jovem.

Na Região Norte, o estudo constatou crescimento acentuado do número de presos nos Estados do Amazonas (126%) e Tocantins (125%). Pará e Rondônia tiveram o mesmo porcentual de crescimento (81%), sendo que nesse último há a retomada do crescimento entre 2011 e 2012, após queda significativa entre 2010 e 2011. Acre e Amapá tiveram os menores crescimentos da região: 39% e 30%, respectivamente.

Na Academia de Letras – No sábado (13), às 10h, na Academia Amazonense de Letras, na rua Ramos Ferreira, 1009, Centro, a professora-doutora Rita Barbosa de Oliveira, irá conversar sobre Literatura e Política na obra de Sophia Andresen. Profª Rita, da Ufam, é a convidada do projeto “Sábado na Academia”, série “Arte em Tese.”

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Mobilidade em Manaus

Mobilidade em Manaus
Ivânia Vieira*

Membros do grupo Mobilidade Urbana, de Manaus, alertam para o desastre de transformar o tema mobilidade em um item único: o transporte coletivo urbano. Tem sido esse o tom das falas da série inaugural das audiências públicas para discutir o assunto. Pior, os posicionamentos estão marcados pelo olhar empresarial do setor de transporte coletivo, com apoio de determinados parlamentares e  de gestores públicos.

O transporte coletivo é um aspecto importante no guarda-chuva da mobilidade. Só não pode ser o único ou se sobrepor sobe os demais como tende a ser em Manaus se não correrem mudanças de atitude já. O posicionamento empresarial é necessário, como o é o do cidadão e do conjunto de atores sociais. Um plano de mobilidade que tenha apenas esse foco já nascerá como data de morte marcada porque sequer chegará à condição de plano nessa área. Será um arremedo. A consequência tende a ser desastrosa para o conjunto da sociedade, com agravamento da crise urbana traduzida em mais violência, mais adoecimentos, redução da expectativa de construção de espaços mais harmoniosos e/ou aproveitamento criativo destes.

No ano de 2005, o Ministério das Cidades, por meio da Secretaria de Transporte e da Mobilidade Urbana, e o Instituto Pólis, de Estudos, Formação e Assessoria em Política Sociais, produziu uma cartilha sobre a Mobilidade Urbana (interessad@s podem acessar www.cidades.gov.br). Cito alguns norteadores da publicação:

“Ter uma política de mobilidade urbana é ter um conjunto de princípios e diretrizes que orientem as ações públicas de mobilidade urbana e as reivindicações da população. Trata-se, por exemplo, de pensar e propor como será o deslocamento de pessoas e bens na cidade. Quando não existe uma política de mobilidade urbana, ou quando ela não funciona bem, as pessoas deslocam-se como podem. Cada um busca a solução individual de seu problema, sem que exista um planejamento público eficiente. Isso não é bom porque acaba atendendo os interesses de poucos, normalmente, de quem tem mais recursos, e a maioria sofre com as dificuldades para se locomover na cidade.

Um outro quadro didático é o do cotidiano da maioria da população, ignorada por um modelo de política que atende a poucos. A tradução desse modelo é: o transporte de casa para o trabalho é caro e muitos não conseguem pagar; gasta-se muito tempo em engarrafamentos que produzem atrasos e estresse; cada vez mais moradores vivem muito longe de tudo e consomem muito tempo para ir de um lugar ao outro; o transporte coletivo não passa perto de onde milhares de pessoas moram e é preciso andar muito a pé; as cidades são poluídas e barulhentas; a falta de ciclovias obriga ciclistas a andarem de bicicleta entre os carros; as calçadas são tão ruins que, mesmo querendo ir a pé, é melhor não ir; as travessias de pedestres são distantes e perigosas.

Com mais de 2 milhões de habitantes, Manaus clama por um bom plano de mobilidade urbana (que não seja fruto de acordos fechados entre quatro paredes e a partir das noções defendidas por tecnocratas) levando a sério as exigências para compor a proposta de mobilidade numa cidade com tamanha população. Daí a importância das discussões abertas e transparentes. É o nosso futuro que está sendo decidido.

*A autora é jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da Ufam

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