Archive for julho, 2015

Negros do Amazonas reivindicam espaço de Poder

Ivânia Vieira *

A tecnologia e a inovação devem ser braços reais no desenvolvimento das políticas públicas na Amazônia e no Brasil de forma mais geral. Somente assim será possível avançar e superar obstáculos tanto no contingente de pessoas a serem alcançadas quanto na efetividade dessas políticas em tempo menor, afirma a pesquisadora e professora Heloísa Helena Corrêa da Silva, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Uma das cinco expositoras no 4º Encontro de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas, realizado no sábado (25), de 9h às 18h, no Centro Universitário Nilton Lins, Zona Norte, Parque das Laranjeiras, Zona Norte, a pós-doutoranda Heloísa Helena abordou o tema Mulheres da Pan-Amazônica: avanços e desafios apresentando alguns dados da pesquisa que ora realiza. O tema do encontro deste ano foi Mulheres Negras nos Espaços de Poder.

Heloísa Helena questiona a ausência da tecnologia e da ciência na implementação das políticas públicas e considera que esse distanciamento se reflete diretamente na manutenção das desigualdades e da falta de qualificação regionais. “Temos que desenvolver tecnologias que nos possibilitem inovar e alterar o atual quadro amazônico e pan-amazônico”, defende. “Se queremos lutar por desenvolvimento nessa região, precisamos buscar qualificação nos recursos naturais. Precisamos saber sobre como daremos conta de políticas públicas que contemplem os insumos regionais”. O protagonismo das mulheres pan-amazônicas na manutenção de valores e de vigor de uma economia informal é um dado que sobressai de acordo com a pesquisadora. “A figura da mulher é majoritária. No Brasil, é olhar com atenção os registros oficiais do Programa do Governo Federal Bolsa Família”.

ÍNDIAS E NEGRAS

Para a professora Otacila Barreto, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, pela Ufam, a resistência indígena se realiza cotidianamente em várias frentes. “Falo para vocês que estamos resistindo fisicamente, enquanto expressão da cultura e como uma proposta de sustentabilidade”. Para a educadora indígena, da etnia tucano, a luta dos indígenas tem caráter permanente e, hoje, “está diante de várias ameaças”, em função dos projetos propostos e em andamento que asfixiam as terras indígenas e impactam duramente o modo de vida dos povos tradicionais.  Otacila fez a saudação dela na língua tucano e perguntou quem poderia traduzir o que ela disse. Ali, fora a mãe dela, presente na plateia, ninguém sabia.

Amazonas, o mais racista dos Estados

Estudiosa da história da escravidão africana na Amazônia, a pós-doutora Patrícia de Melo Sampaio, da Ufam, classifica o Amazonas como um dos Estados mais racistas do Brasil porque “nega e silencia sobre a presença negra nessa região”. Na exposição onde trata do “ser escravo em Manaus no século 19″, Patrícia mostra que ao contrário do que ocorreu em Belém e no Maranhão, onde a maioria dos escravizados eram homens, em Manaus as mulheres compunham o maior número.

De acordo com a pesquisadora, para 353 escravizados, mais de 500 negros viveram em Manaus e nunca foram escravos. Para a ela, o silenciamento sobre os pretos do Amazonas mostra uma posição que está vinculada à escravidão como uma marca de pensar o Brasil. Pensamento que ainda é forte e determina um imaginário para reforçar a negação dos negros no Estado e uma política de branqueamento.

“Queremos ação para além do papel”

“Queremos saber o que existe hoje, realmente, de política afirmativa no Estado do Amazonas. No papel tem muita coisa, e sem ser no papel, como ação efetiva, o que tem?”, questiona a ativista ex-metalúrgica Luzarina Varela. Uma das referências da luta pelos direitos da mulher no Estado, Luzarina se diz cansada e impaciente com as “políticas de papel”, onde tudo é certinho, até bonito enquanto a realidade revela um outro cenário perverso.

A presidente da Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Amazonas (OAB-AM), Maria Gláucia Barbosa Soares, afirma que o Estado do Amazonas, na esfera do Poder, está longe de uma política afirmativa real. “Precisamos avançar muito e  sensibilizar os que estão no Poder, sejam homens sejam mulheres, e o Poder Público deve fazer a sua parte”.

“Não temos uma política específica para mulheres negras”

A secretária de Estado, Justiça e Cidadania do Amazonas (Sejusc), Graça Prola, mediadora de uma das duas mesas no 4º Encontro de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas, disse que o Estado não tem política específica para as mulheres negras. O que está sendo construído é um plano de ação para as mulheres. Citou algumas atividades que estão sendo elaboradas em conjunto com representações dos movimentos sociais, tais como a criação do Conselho Estadual de Igualdade Racial (em fase de aprovação); o estatuto de igualdade racial: agendamento de uma série de reuniões com outras secretarias governamentais, como a de Educação, para tratar da aplicação da Lei nº 10.639/2003 (torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira), e com líderes religiosos, enfocando a intolerância religiosa; e a campanha “Juventude Viva”. A secretaria lembrou que o Amazonas aparece em 8º lugar entre os Estados brasileiros onde mais se mata jovens.

SAIBA MAIS

O 4º Encontro de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas contou com a participação de 149 pessoas (que assinaram a ficha de frequência). É uma realização do Fórum de Mulheres Afro-Amerindias e Caribenhas, criado em 2012, numa parceria dos movimentos feministas do Amazonas, da Secretaria de Mulheres do Partido dos Trabalhadores (PT-AM), da Ufam, de organizações do movimento negro com o Consulado da Venezuela.

DESTAQUE

A ativista e educadora Surbis Surami Landinez, do Movimento Cumbe da Venezuela (que corresponde ao quilombo no Brasil), foi uma das participantes do 4º encontro. Ela falou sobre a importância da educação na perspectiva crítica para as mulheres. Renata Pequeno, da Fundação Palmares, de Brasília, apresentou a agenda de atuação da fundação que quer regionalizar a sua pauta.      “Saio daqui com um enorme aprendizado e muitas tarefas a fazer para ampliar nossa presença além de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Bahia”, disse.

* a autora é jornalista profissional e membro do Fórum de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas

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Ecos do Jorginho

Neuton Corrêa

A noite seria melhor do que a anterior. Havia promessa de que seria. Mais que isso: havia garantia, equipamentos e remédios que asseguravam a certeza do cumprimento da promessa. Porém, madrugada a dentro, Bruno acorda Jorginho no melhor do sono. Deve ter hesitado o que pôde, pensado milhões de vezes, afinal, era um recém-contratado servidor tendo que importunar o chefe.

Bruno mediu prós e contra e assentiu com sua íntima consciência que a decisão correta era acordar o chefe. Estava na primeira viagem, tinha que mostrar serviço. O dia seguinte seria a oportunidade que teria para expor suas competências, que não puderam ser plenamente expostas como queria, porque o Jorginho não permitiu no primeiro dia.

O Jorginho é diretor de uma importante autarquia do governo federal em Manaus. Bruno acabara de ser contratado e já se destacava em sua área tão logo chegou à repartição, tanto que foi escolhido entre outros mais experientes a viajar com o Jorginho, que antes do embarque o advertiu:

- Bruno, você é bom de sono?

- Sim, seu Jorge, eu durmo bem.

- Estou te perguntando isso porque a gente vai ter que dividir o mesmo quarto no hotel e meu ronco só não atrapalha quem dorme antes.

Sem noção do que viveria na viagem, Bruno tranquilizou o chefe:

- Não se preocupe, seu Jorge. Isso não vai me atrapalhar, não.

A primeira noite dos dois, no entanto, não foi apenas a estreia. Foi o teste que o Bruno precisava para ter certeza de que palavra de chefe é um decreto irrevogável. O cansaço da viagem fez o Jorginho querer ainda mais a cama para descansar ao estilo macaco-guariba.

Bem, o Jorginho não roncava tanto assim. O estrondo noturno foi aumentando à medida que seu atlético um metro e noventa e poucos centímetros iam ganhando massa, até não mais ser notado pela envergadura, mas pela largura.

A gordura começou a fazer parte de sua vida quando interrompeu sua rotina de atleta e passou a se dedicar ao emprego, onde goza de destaque após escalar degraus que sua perspicácia lhe permitiram galgar.

Voltando à primeira noite no hotel, o Jorginho nem fez a transição da vigília para o sono. Já caiu na cama roncando. O coitado do Bruno nem teve tempo de tapar os ouvidos e não conseguiu pregar os olhos.

No dia seguinte, com a vontade de explodir com o chefe, Bruno observou o Jorginho acordar, tomar banho e se preparar para o café, mas não teve coragem. Apenas falou com todo cuidado:

- Seu Jorge, nesse intervalo que o senhor vai pro café, o senhor pode me dá uma hora?

O diretor achou aquilo estranho e perguntou:

- Aconteceu alguma coisa, Bruno?

- Não, não, seu Jorge. É que eu não consegui dormir. O senhor roncou muito e muito alto.

No ato, Bruno foi liberado das atividades da manhã e com a promessa de que a noite seguinte seria diferente:

- O que é isso, Bruno, não precisa ir agora, não, descansa aí. E, olha, eu vou providenciar umas coisas que vão resolver essa situação. Sempre dá certo.

E assim aconteceu. Com a consciência pesada, Jorginho foi à drogaria, comprou Vick Vaporub pra passar no nariz e no peito antes de dormir, foi atrás de um dilatador nasal, daqueles usados por atletas, e antes de deitar asseverou:

- Pronto, Bruno, hoje você vai dormir como um bebê. Com isso aqui, com a ventilação passando livre pelas vias nasais, não tem como eu te perturbar.

Jorginho falou isso e foi logo apagando. O Bruno outra vez dormiria depois, mas não conseguiu. Tentou pôr fim ao importuno no ato, mas adiou a decisão de acordar o chefe até se encorajar e, finalmente, bateu no Jorginho, dizendo:

- Seu Jorge, seu Jorge! Acorde! Não deu certo. Lave esse Vick do seu peito, tire esse troço do seu nariz. Era melhor como estava antes. O negócio piorou. Agora, além de roncar, o seu ronco tá fazendo eco. Tá tudo ecoando e vai acordar o hotel inteiro.

Ah, pra fechar: o Jorginho perdeu 63 quilos e garante que não ronca mais, não como antes.

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O mundo está cheio de Grécia

Ivânia Vieira

A terça-feira grega arrastou o tempo para além do  um segundo a mais desse ano. Em alguma medida, todos nós, conectados, fomos levados  a ser parte desse drama. Isolado, o país de um pouco mais de 11 milhões de habitantes mergulha numa crise econômica cujas repercussões são impossíveis de serem medidas pelos números fartos lançados entre pacotes e negociações fracassadas envolvendo os Governos da Zona do Euro.

O problema grego não diz respeito unicamente aos gregos ou aos países do bloco. É um problema do mundo. Um modelo econômico escancarando as suas marcas e espalhando o fel da receita. A região compreendida como União Europeia concentra 26,5 milhões de desempregados. Estão no topo da lista do desemprego, a Grécia, com uma taxa de 27%; Espanha – 26,8%; e Portugal- 17,8%. Na outra ponta, com as menores taxas de desemprego, a Aústria – 4,9%; Alemanha – 5,4%; e Luxemburgo – 5,6%.

Em artigo no diário digital “Nova Tribuna”, o professor de economia e políticas públicas Vicenç Navarro, afirma que as políticas de austeridade, com cortes da despesa e do emprego público, a desregulamentação do mercado orientada para reduzir os salários, e a ajuda das instituições ao capital financeiro, que quer dizer predominantemente à banca, têm cumprido um papel-chave na redução do nível de vida das classes populares na União Europeia e de forma direta nos países dessa região onde o desemprego explode, como a Grécia. Navarro aponta à aguda limitação da sua capacidade aquisitiva, diminuição da procura, redução da atividade econômica e da produção de emprego, além de aumentar a pobreza e a miséria. O desemprego aumenta e a criação de mais vagas está completamente estagnada.

Quando criado o bloco europeu em 1992, estava embrulhado por uma proposta de promoção da unidade política e econômica da Europa; Melhorar as condições de vida e de trabalho dos cidadãos europeus; e as condições de livre comércio entre os países membros;  Reduzir as desigualdades sociais e econômicas entre as regiões; Fomentar o desenvolvimento econômico dos países em fase de crescimento; Proporcionar um ambiente de paz, harmonia e equilíbrio na Europa. O fator Grécia mostra que há uma distância gigantesca entre o que foi acordado e as práticas dos que detém o poder econômico na feitura da UE ou no recorte menor da Zona do Euro.

“É concebível que o restante da Europa e a Alemanha acordem e se deem conta de que suas exigências à Grécia são absolutamente revoltantes”, reagiu ontem em entrevista à BBC o prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz. “Para mim, é óbvio que a austeridade fracassou. O povo grego foi o primeiro a dizer: ‘Nos negamos a renunciar à nossa democracia e aceitar essa tortura da Alemanha’. Mas, com sorte, outros países como Espanha e Portugal, vão dizer o mesmo”. Quando questionado se o governo grego não é culpado pelo presente caos. Stiglitz observa: “Ainda que a Grécia tenha sua parcela de culpa na situação (que levou aos problemas fiscais descobertos em 2010), a desastrosa situação em que o país se encontra desde então é de responsabilidade da Troika”. (como é conhecido o conjunto formado pelo FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu).

O prêmio Nobel de economia deixa um alerta aos governos e às sociedades: “Espero que essa crise ajude a mudar a maneira pela qual o mundo enfrenta as crises das dívidas soberanas dos países.”. Esse modelo só tem êxito para uns poucos mediante a exclusão e os sofrimentos de milhares de pessoas.

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