Archive for agosto, 2015

Soltei a pomba: um sonho de liberdade

Neuton Corrêa

Enquanto ficou em casa, pomba foi chamada de Pimba. Era pequena, cabia na palma da mão e suas plumas não lhe cobriam todo o corpo.

Ela veio parar aqui por acidente, num sábado. Aquele dia foi trágico para ela. Eu havia saído cedo, no começo da manhã. E foi aí que tudo aconteceu.

Soube disso quando retornei no fim da tarde ainda no portão de casa, quando minha sogra pediu, já ordenando, que eu fosse à cozinha tirar o rato que estava preso, segundo ela, a uma armadilha pra rato. Minha sogra não suporta roedores.

Ainda demorei um pouco jogando com conversa com os vizinhos até decidir ver o tal ratão, como ela dizia. Mas fui.

De longe, debaixo de um armário, estava lá o ser se debatendo. Era parecido com rato. Mas para minha surpresa, ao me aproximar, deu pra notar que era um passarinho e não um roedor.

Grudado a uma cola, o passarinho estava muito machucado. Com cuidado cirúrgico retirei o bichinho de lá. As penas grandes de suas asas, da calda e as plumas do pleito estavam arrancadas, imensa a força que ela fez para se desprender dali.

Uma de suas patinhas estava quebrada.

Compadecido daquele sofrimento, decidi que cuidaria da Pimba, assim a batizei naquele instante, e que a devolveria à natureza tão logo estivesse recuperada.

Na hora, já era começo da noite, peguei minha Pimba e procurei um veterinário por perto de casa. A clínica mais próxima estava fechada, mas encontrei um consultório já baixando as portas e ainda consegui uma consulta pra ela.

Expliquei a ele começando com uma convicção: eu quero salvar essa pomba, doutor. Ele riu e já me deu o diagnóstico. “Esse é um animal silvestre e dificilmente vai se permitir viver sem liberdade”.

Insisti que queria tentar. Então, ele me vendeu uma gaiola, um pacote de comida pra pardais e uma seringa pra eu dar água do bico da bichinha. “Se você conseguir fazer com que ela beba água, talvez ela aguente”.

Peguei a dica do doutor, fui pra casa e lá conversei com minha pomba. “Tome isso”. Ela recusou a água no primeiro momento, mas aceitou depois. E assim, com comida e água na boca, a Pimba resistiu as últimas quatro semanas.

Nos últimos dias, porém, notei que a verdade do veterinário estava se confirmando. Minha Pimba não iria se permitia viver sem liberdade.

Ela já recusava a água e a comida e passou, na gaiola, andar agitada de um lado para o outro olhando por entre as grades que lhe abrigaram encarcerada.

Em mim, soava como um grito de liberdade e combinei com ela que a devolveria à vida que antes vivia até cair naquela cola.

Hoje foi o dia. Convidei colegas de redação. Lúcio Pinheiro e Aruana Brianezi vieram. O Segundinho fez o registro em vídeo. Antes de devolvê-la à natureza, como um pai que tenta deixar um sinal no filho para não perdê-lo na multidão, amarrei nela uma fitinha vermelha e cumpri minha a promessa de devolver-lhe uma vida sem cadeia.

E assim aconteceu!

A soltura da Pimba ocorreu no dia 21 de agosto de 2015 e no mesmo dia postei essa crônica em meu Facebook. Seis dias depois, fiz outro post sobre ela registrando: “Uma felicidade que nem sei como descrever. É única! Saber que ajudou a salvar uma vida. Lembram da Pimba? Taí é ela (foto). Livre! Está petengando, mas está em seu ambiente. Hoje ela veio me visitar. Feliz e emocionado estou!”.

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Alice no cordel da resistência

Alice no cordel da resistência

“A falsa tartaruga soluçava

Mas foi parando de chorar

E falou da quadrilha da lagosta,

O que Alice iria admirar,

Uma dança bem divertida

Que acontecia no fundo do mar”

(Alice Cordel, Jorge Bandeira, 2015)

Ivânia Vieira

Era o último dia de julho. Parecia ser aqueles dias das festas juninas quando o céu combina com as Estrelas e a Lua para encantar a Terra. Em troca, a gente da Terra dança tantas danças no Nordeste e no Norte, faz oferendas de iguarias e mergulha em rios de simpatias. Mas era julho reservando o seu 31 para brincar de alegria. Ah, não só brincar. Aprender brincando, cantarolando o riso, abraçando a curiosidade como se dela não quisesse mais largar.

Na Escola Estadual Ruy Araújo, no bairro Cachoeirinha, Zona Centro-Sul, um clima de kizomba com lascas de dabacuri tomava conta de uma turma de professores e de estudantes. Noite de festa. Jorge Bandeira, um dos professores de História, carregava “Alice Cordel” para lançar. Com 76 páginas, no formato bolso, a publicação é uma teimosia espetacular de Bandeira. Teimar é realizar sonhos.

A edição junta-se a tantas outras iniciativas pelo mundo na comemoração dos 150 anos (1865-2015) da publicação de “Alice no país das maravilhas“, de Lewis Carroll. Nessa empreitada de danação, Jorge Bandeira recebeu o sim solidário do escritor, poeta, professor e realizador de sonhos Tenório Telles (responsável pela preparação e montagem da edição), do colega de escola, Jorge Alencar (ilustrações, aliás muito bacanas), e do colega de outras fases de escola, o professor da Ufam, Sérgio Freire (apresentação). O “fim” da escrita de Bandeira termina com a indicação de um endereço e uma data: “Manaus, casa do cachorro, 1º de maio de 2015″. É um gatinho o carregador da dedicatória dessa obra à filha de Bandeira, Carolina.

Reproduzo trechos da apresentação – conversa gostosa – feita por Sérgio Freire sobre a adaptação produzida por Jorge Bandeira: “(…) O livro de Carroll celebra a rebelião e a desobediência. Figuras despóticas são ridicularizadas em sua ineficácia e incompetência. Metaforizar os sentidos convoca a resgates (…) Obras fundadoras circulam. Não só circulam. Circulam de várias formas, nas mais diversas linguagens. Essa é a sua vocação”. O livro recém-lançado por Jorge Bandeira é “fruto da inesgotável gravidez de Alice”.

Diz Sérgio Freire,”desta vez, a menina cai no buraco do coelho e tem a sua história contada por meio do cordel. Antropofagicamente, a história é engolida por um gênero de  tradição oral que, herdado da tradição portuguesa do século XVI, ganhou identidade na terra brasilis, mais especificamente no Nordeste. Sua textualização, nas mãos hábeis de Jorge Bandeira, dá sabor local à narrativa de Carroll (…). É como se no jogo da rima batêssemos o remo da canoa de forma ritmada e singrássemos o rio de uma identidade toda própria, idiossincrática, indo ao encontro do imponderável sentido das coisas do mundo. Do nosso mundo”.

Bandeira nos carrega nessa leitura atualizando a Alice em diálogo aberto e promissor com o teatro. Nos dias de festa da cultura, muitos jovens trouxeram Alice para o palco.

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Segurança Pública

Ivânia Vieira

Sérgio Fontes, o delegado da Polícia Federal escolhido pelo Governo José Melo para comandar a Secretaria de Segurança Pública no Amazonas, enfrenta nessa condição o desafio de acertar. Um acertar em várias direções. Literalmente os tiroteios e massacres estão acontecendo para além das balas e dos corpos apresentados na mídia na versão número. São condutas articuladas e determinadas a desestruturar ainda mais uma estrutura que já é falha, viciada e com braços abraçados àquilo que deveria ser combatido.

Zeloso e determinado na condução da sua formação profissional, o jovem secretário de Segurança reúne os indicadores de competência que o credenciam para o posto. E, ao aceitar assumi-lo, carregou a esperança de milhares de famílias quanto ao bom enfrentamento ao sistema de violência do qual o Amazonas e Manaus, na expressão mais visível, foram feitos reféns.

A série de assassinatos – o primeiro grande confronto dessa gestão – expôs muitas questões até agora a maioria delas sem respostas. Uma ficou evidente no périplo na mídia: a solidão solitária do secretário de Segurança Pública. Um sinal ruim. Os discursos feitos à época das posses dos que assumiram a tarefa de tornar o setor de segurança no âmbito público eficiente, eficaz e justo tiveram como palavras-chave “todos pela vida”, “redução da violência na Estado”, “qualificação dos recursos humanos”, “diálogo” e “ação”. Sete meses depois esses marcadores parecem ter evaporado diante do tamanho dos conflitos internos para demarcar poder no aparato oficial e das conexões fortemente construídas com outros setores. Era um secretário sozinho quem falava e teve a coragem de assumir, publicamente, que houve falhas. E, por vezes, um comandante da Polícia Militar tentando explicar o que, por esse viés, não era e não é explicável. O Governo Estadual, na sua expressão mais ampla e coletiva, demorou muito a tomar posição diante de uma sociedade em estado de pavor.

Pelas redes sociais, o esquema do terror e da promoção do medo já estava espalhado obrigando escolas a reduzirem horários de aula, professores a buscar alternativas entre eles para tentar manter as aulas e orientar sem rumo estudantes e familiares desesperados. Massacrados pela onda virtual do terror, jovens, adolescentes e as famílias tateavam no escuro, forjavam outros caminhos, outras estratégias que pudessem livrá-los da próxima bala, da próxima facada, da próxima ocupação dos espaços onde essas pessoas moram, transitam, vivem. Um posicionamento firme e claro do governo (e dos outros Poderes interdependentes) não veio. Os aflitos continuaram e continuam em aflição temendo ser as próximas vítimas enquanto os promotores desse sentimento avançavam, avançam?.

Quanto tempo Sérgio Fontes irá resistir? Não no enfrentamento do que vem de fora e sim nos poderes obscuros do que está dentro do sistema dessa segurança pública. Nessa resistência teria que contar com a disposição e a determinação política do Governo Estadual de fazer valer as palavras-chave dos discursos de posse, de se colocar e de insistir em gestos concretos na decisão anunciada lá atrás de que segurança pública tem que ser compreendida e realizada na feição mais coletiva e sinérgica das várias instâncias governamentais, do Legislativo e do Judiciário. Que Sérgio Fontes vença a solidão e consiga estabelecer trilhas seguras e solidárias para levar adiante o plano de segurança pública estadual/regional.
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