Neuton Corrêa*

A enorme serpente estava furiosa. À beira do lago, um a um, a cobra grande devorava o que via em seu caminho: o pescador, o agricultor, a lavadeira, o curumim pulando n’água e até o fotógrafo Panela de Ferro, que registrava tudo naquela noite de disputa do Festival Folclórico de Parintins de 1981.

Naquele ano, a festa ainda ocorria no estádio Tupi Cantanhede, num palco suspenso de madeira de lei sobre a grama. O tabladão aguçava ainda mais a imaginação do artista Jair Mendes, que nos anos anteriores já havia inventado o boi biônico, as alegorias e a cada festival criava uma cobra diferente e cada vez maior.

A linha frente do Caprichoso, como eram conhecidos os dirigentes do bumbá azul e branco, descobriu na tarde daquele dia que a equipe do Jair tinha preparado um alçapão ao centro do tablado, de onde a cobra do Jair surgiria do nada para ganhar mais um festival.

Diante da informação, o Caprichoso não hesitou em frustrar a criatividade do contrário. Aproveitando-se da ordem de apresentação, o bumbá da Cordovil resolveu pregar o buraco feito pelo Garantido.

Para não perder pontos nem levantar suspeitas, a pregação do alçapão ocorreu durante a apresentação do Caprichoso. O martelo e um quilo de prego de três polegadas foram levados escondidos pela então secretária do boi Socorro Lopes e a operação, feita sob a saia de Dona Aurora, figura que lembra os bonecos de Olinda, ocorreu enquanto ela se apresentava no centro do palco.

Só agora entendi porque a cobra do Jair engoliu tanta gente naquele festival.

*Editor da coluna Sim&Não do jornal A CRÍTICA, filósofo, metre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.