Ivânia Vieira*

Eram recebidas com naturalidade pela maioria da comunidade de leitores de jornais locais (e de outras regiões) as manchetes principalmente as dos cadernos de Polícia que banalizavam a violência contra a mulher e desqualificavam as vítimas, responsabilizando-as por terem sido estupradas, espancadas, sequeladas, mortas. Editores desses cadernos tinham que ter um perfil para “trabalhar bem” tais notícias. E as notícias tinham audiência e se reproduziam em um sistema de violência por meio dos programas de rádios (onde essas matérias eram lidas e comentadas com efeitos de som). Esse modelo de jornalismo tripudiava sobre a dor da vítima e da família dela, ajudava a manter como lei o manual de comportamento das mulheres. Com uma noção muito forte: segui-lo ou candidatar-se a ser a próxima vitima.

Os casos de violência viravam piadas nas redações. Responsabilizavam a mulher violentada pelo crime, ora porque era feia, ora porque sua forma de se vestir provocava os homens ou porque era uma jovem de muitos relacionamentos sexuais. Enfim, a vítima não merecia respeito e teve o que merecia. Assim estava construída a sentença e a audiência da notícia.

O jornalismo e os jornais em todo o Brasil tomaram decisões importantes, embora ainda muito tenha para ser feito nessa forma de tratamento dos fatos. Essa mudança vem como resultado de uma série de ações, uma melhor formação profissional, a criação de fóruns de discussão, as novas exigências legais a partir da Constituição de 1988; o fortalecimento do movimento feminista; os direitos difusos provocando ranhuras numa concepção conservadora e machista da doutrina do direito e da Justiça; a caminhada de democracia brasileira e da cidadania.

A pesquisa apresentada no dia 27 de março, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por meio do Sistema de Indicadores de Percepção Social (Sips) sobre o tema “Tolerância à violência contra as mulheres” mostra que a nossa caminhada apenas começou e terá muitos obstáculos a vencer. Foram ouvidas 3.810 pessoas, nas faixas etárias de 16 a 29 anos, de 30 a 59; e a partir dos 60 anos, de 212 municípios brasileiros. As respostas cruzadas traduzem resultados que precisam ser analisados a partir de cada lugar considerando as forças progressistas e retrógradas. No Amazonas essa estrutura tem peso enorme.

Alguns resultados da pesquisa: Aproximadamente 64% dos entrevistados e das entrevistadas afirmaram concordar total ou parcialmente com a ideia de que “os homens devem ser a cabeça do lar”; Chega a 79% os que concordam com a frase “toda mulher sonha em se casar”; e somam 60% as respostas à indicação de que “uma mulher só se sente realizada quando tem filhos”; Recebe a concordância de 82% dos entrevistados e entrevistadas a frase “o que acontece com o casal em casa não interessa aos outros”; Na mesma linha de aprovação, com 78,7% está a velha máxima da violência que “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”; e para 89% desse universo “roupa suja se lava em casa”; A ideia de que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família” é aprovada por 63% das pessoas entrevistadas; e 65% delas concordam com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. A esse dado somam-se os 58,5% das pessoas que nesse estudo de percepção entendem que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

O jornalismo, os meios de comunicação tradicionais,as redes sociais podem contribuir muito para desconstruir essa noção perversa que vive em casa, na escola, no trabalho, enfim nas instituições. Nosso respeito e nossa homenagem às mulheres que ontem foram à Assembleia Legislativa do Amazonas, na carona, a pé, em o dinheiro do transporte, em meio a chuva, para denunciar o silêncio que alimenta a violência contra todas nós.

*A autora é jornalista e professora no Curso de Comunicação da Ufam.