Wilson Nogueira*

É preciso ter cuidado com o “fenômeno” da “tal densidade eleitoral”. Ele é muito perigoso, porque pode esconder, ardilosamente, “personas” do submundo do poder que, de repente, surgem como possibilidade de “opção de voto” para eleitores que, na realidade, clamam renovação na política. Essas “personas” são recorrentes em partidos que se fecham em si e não permitem que os eleitores construam, a partir da vivência e convivência das ideias, uma democracia que realmente se espraie em representação social digna desse nome.

Os partidos da velha política se valem das velhas estruturas que construíram para si, para se perpetuar no poder. Eles próprios inventores e inventados pelo poder dos poderosos de sempre. Assim, só entra para a política partidária aqueles que se submetem aos caprichos do círculo vicioso que rejeita a renovação de práticas e ideias. Forma-se, então, nos partidos, o ambiente propício à acomodação dos interesses mesquinhos que entortam a política como arte de bem proceder e bem governar. A velha política vem sendo adubada pelo oportunismo de toda ordem.

Os grupos e grupelhos que mandam e desmandam no país, por meio do controle da grande maioria dos partidos e da mídia tradicional, subtraem a democracia a interesses subterrâneos daqueles que se revezam no controle do dinheiro do contribuinte. E um dos ardis para que as suas vontades prevaleçam e permaneçam como o todo e sempre é exatamente inventar candidatos que causem sensação de novidade no eleitor, cuja aspiração é ter opções renovadoras.

Os candidatos da “densidade emergente” são, geralmente, aquelas figuras que se submetem a viver colados no poder a qualquer custo, com a única finalidade de tirar proveito para si ou para o grupo ao qual pertence. A esse tipo de gente não interessa a dignidade, porque o que lhe vale mais é a possibilidade de estar no e para o poder, praticando o oportunismo e a ganância. Dizem, sem cerimônia: “Há governo, estou dentro”, ou ainda: “Melhor puxar saco que puxar carroça”.

Se essa gente camuflada no poder ou sem a legitimidade das urnas, já é perigosa, imagine-as com as benções dos votos? Ah, aí sim, faz com maior desenvoltura aquilo que o apuí faz com a samaumeira, a maior e mais bela árvore da Amazônia: suga-a até matá-la, em favor do seu crescimento próprio. Na política, existem apuís e sementes de apuizeiros ao vento, esperando a melhor hora para se alojar e destruir árvores frondosas; e a melhor hora, para o parasita da política não é outra senão a da eleição.

A metáfora nos ajuda a não só pensar a política no mais amplo significado filosófico ou científico, mas também a alcançar, criticamente, o principal dos seus desdobramentos na vida cotidiana: o gesto de votar, comparável ao adubo de uma árvore, que poderá vir a ser um apuizeiro ou uma samaumeira. O eleitor, portanto, precisa se informar, avaliar e conhecer muito bem o processo eleitoral e suas leis. Pode, por exemplo, não votar e pagar multa; pode votar em branco ou anular o voto; em quaisquer dessas situações, estará se manifestando na eleição, que, aliás, para ser verdadeiramente democrática não deveria exigir voto obrigatório.

O que muda e o que mudará no Amazonas a se confirmar o registro eleitoral daqueles que se insinuam candidatos? Nada ou quase nada! A maioria do que vêm por aí, já está aí há mais de trinta anos. Os poucos que poderiam fazer alguma mudança nesse jogo de cartas e atitudes conhecidas não têm a tal “densidade eleitoral”, ou melhor, não aparelharam a estrutura do poder em benefício próprio nem têm dinheiro para pagar os laboratórios de marketing que fabricam “densidades”.

Por isso, muito cuidado, mas muito cuidado mesmo com os “formadores de opinião” e seus candidatos de “densidade eleitoral”. A saber, a eleição, no termo em que se encontra atualmente, é um jogo violentíssimo e suas consequências sempre desabam sobre a sociedade.

*O autor é jornalista e escritor