Wilson Nogueira*

Os organizadores e patrocinadores da Copa do Mundo, entre tantos outros, o governo, a Fifa e os  conglomerados das grifes e das mídia  tradicional – eles se confundem  nas  funções,  deveres  e obrigações – deram  largada a uma corrida propagandística para  acalmar os  ânimos  anticorrupção  na Copa. Querem, por meio da persuasão repetida, convencer que os dribles e os gols dos jogadores e o delírio dos torcedores estão acima dos efeitos da sangria dos cofres públicos em favor da realização de um evento cujo legado que, pelo visto até agora, será mirrado se comparado ao que foi prometido há quatro anos.

Os “donos da Copa” orientam-se, a essa altura, pela perspectiva de que haverá, sim, manifestações de rua antes e durante os jogos, porque não há como frear a insatisfação generalizada com o desvio de recursos públicos das obras de infraestrutura e logística que, depois da competição, ficariam para a população. Setores como saúde, segurança, educação e transporte seriam amplamente beneficiados. Nada ou quase nada foi feito. Isso irritou a população.

A ideia “deles”, então, é criar um clima de que as possíveis manifestações serão contra o futebol, ou contra a atitude esportista, para justificar as táticas de repressão que virão por aí. A própria presidenta Dilma, compactuando com a estratégia e táticas da cartolagem e dos “conglomerados” globalizados, já emitiu mensagem intimidadora: o governo vai agir pesado contra as agitações anticopa.

A saber, é irrisória a parcela de brasileiros avessa ao futebol, mais irrisória ainda deve ser a parcela dos que detestam futebol; não dá para imaginar que essa gente tivesse capacidade, sozinha, para se mobilizar e tentar impedir a realização da Copa no Brasil. Por outro lado, não faltam provas de que, como se diz no jargão esportivo, “O brasileiro é apaixonado pelo futebol”. Senão todos brasileiros, mas a imensa maioria torce por algum time da rua, do bairro, da cidade, do estado, da região ou dos campeonatos nacionais e internacionais. Não seriam os brasileiros a não querer uma Copa no Brasil. Logo nós, que fizemos figas para ter a sorte de sediar esta Copa de 2014!?

Uma coisa deve ser esclarecida: os brasileiros não são contra a Copa nem contra o futebol; os brasileiros estão insatisfeitos com o derrame de dinheiro na construção de estádios de “padrão Fifa”, forjado pelas máfias econômicas e políticas, enquanto  as obras do legado urbano nas cidades sedes não ocorrem na proporção prometida antes, durante e depois da escolha do Brasil e das cidades  sedes.

Em Manaus, por exemplo, os quatro jogos da Copa deixarão para trás um estádio de vultosa manutenção e uma faixa azul para circulação exclusiva de ônibus em algumas ruas e avenidas da cidade. O transporte de massa em monotrilho, a internet de banda larga, o fun park do Encontro das Águas e o edifício garagem da arena da Amazônia foram palavras jogadas ao vento para obter o “aval” dos contribuintes às falcatruas da politicalha e dos oportunistas de plantão – esses travestidos de políticos e empreendedores.

Aliás, a Arena da Amazônia não possui estacionamento para carros  compatível com os seus 40 mil lugares e, por isso, já nos jogos-testes, os torcedores foram aconselhados, pela autoridade de trânsito, a deixar seus veículos  em casa e encarar os ônibus superlotados ou a se deslocar a pé. Trata-se de abuso, desrespeito e traição ao torcedor que acreditou que a Copa, como dizia a propaganda, poderia deixar uma bendita herança também aos amazonenses.

Problemas como os registrados em Manaus se repetiram, em maior ou menor proporção, em outras cidades sedes e, desta feita, fazem o caldo das agitações ferver. A propaganda oficial e a mídia tradicional não conseguem mais convencer a população na sua quase totalidade, como faziam antes do surgimento da internet e suas redes sociais. Por isso, dificilmente, conseguirão persuadir alguns leitores, ouvintes ou telespectadores a demonizar aqueles que irão às ruas contra a corrupção.

Assim, dificilmente calarão o grito de cidadania que ressoa desde junho do ano passado. Nessa ocasião, os brasileiros deram o seu recado: estão atentos aos jogos nos gramados e à movimentação dos cartolas e seus cúmplices na subtração da qualidade de vida da população. A mobilização por cidadania talvez seja o maior legado desta Copa. O resto é propaganda.

*O autor é escritor e jornalista