Ivânia Vieira

Há uma resistência necessária e vital no movimento de paralisação dos técnico-administrativos e dos professores da Universidade Federal do Amazonas. Mais: entre o desânimo, os conchavos, ataques e estado de letargia, a greve iniciada na segunda-feira, para os professores, tem um conteúdo promotor de descobertas de possibilidades de agir e acrescentar experiências na luta pela melhoria dos salários e no enfrentamento ao processo de precarização das atividades acadêmicas.

Faz-se democracia quando as faixas no campus da Ufam dividem posicionamentos – favoráveis e contrários à greve. Estas estão publicamente expostas e resultam da maior participação no modo assembleia da categoria na última década: 567 professores (dados da Associação dos Docentes da Ufam). No dia 9, desse universo, 292 professores votaram pela paralisação; 271 disseram não; e quatro se abstiveram.

Os próximos dias serão testes para o exercício do ser resistência e para vencer o marasmo que toma conta da vida da instituição. Como ocupar os espaços e animar professores para que cada corredor, sala e as áreas cobertas sejam a expressão criativa dessa presença. Nesse ato, os estudantes são a outra parte fundamental. Passa por eles ampliar o som, tornar o ritmo mais frenético e ousar nas práticas que envolvem outros ambientes de aprendizado para além da sala de aula.

A luta em defesa da universidade pública, gratuita e socialmente referenciada (slogan que embala a paralisação) ganhou dimensões mais complexas porque remete à exigência de compreender as opções e os acordos que o Brasil faz internacionalmente e os planos propostos nacionalmente envolvendo eixos como economia/educação/cultura). Na configuração construída, a universidade pública está asfixiada, a gratuidade ameaçada e a referência social brecada sob vários aspectos. A compreensão não é contemplativa, é ação.

Alterar o quadro que tornou-se real no desmantelamento da instituição universidade  com igual característica implica ter a coragem cotidiana de denunciar a situação, desenvolver articulações que resultem em um posicionamento mais coletivo das partes envolvidas nessa engrenagem. Estamos, a passos largos, perdendo as referências históricas que nos fizeram chegar até aqui. E sem esse conteúdo ressignificando outras dimensões ganham  espaço e sinalizam com a naturalização daquilo que  historicamente se constitui em risco à existência da universidade pública, gratuita e de qualidade. Esses são alguns dos temas que estão cada vez mais ausentes nas salas de aula e quando colocados, por vezes, é pelo viés da retaliação, da rejeição e da ignorância das lutas travadas.

Nesse sentido, a experiência da greve é outra chance de posicionamento dos professores, dos técnico-administrativos e dos estudantes em defesa da educação autônoma e crítica e contra os engessamentos que tentam viabilizar a entrega desses espaços a modelos de uso para poucos. Que os caminhos agora percorridos sejam marcados pelos saberes da alegria, da solidariedade, do respeito a nossa cultura, politicamente firme e coerente. É tempo de lutar e de realizar sonhos.

Arte em Tese – O jornalista, sociólogo e escritor Wilson Nogueira é o convidado de sábado (20), às 10h, da Academia Amazonense de Letras, na rua Ramos Ferreira, 1009, Centro, do projeto “Sábado na Academia”. O professor-doutor Wilson Nogueira conversará sobre Recriação do imaginário amazônico no boi-bumbá de Parintins, tema resultante da tese doutoral  do cientista.