Ivânia Vieira

O que faz um professor em nossas vidas? Se por alguns minutos refletirmos a respeito, um mundo de revelações marcantes será desnudado. Na minha experiência, desde o grupo-escolar Murilo Braga até à Ufam, professor@s me ensinaram a vencer o não e cravar o sim do eu posso fazer, foram e são esteios que me ajudam a tecer caminhos e seguir em frente e, numa opção de cumplicidade, na feição mais solidária, sem ignorar os atropelos desse caminhar.

Me apresentaram, lá trás, o papel almaço – nossos cadernos – livros ou pedaços deles feitos em cópias (foi assim na graduação) para descobrir entre prazer e dor o exercício de vencer cada página e testar a compreensão. Me ensinaram sobre disciplina e respeito e, a cada período vivido como estudante, me apontaram o espaço criativo no qual posso voar para realizar.

Nesse caminhar professor@s estiveram comigo sempre. Juntos por afinidades várias ou por circunstâncias nos descobrimos burilando o A – aquela primeira letrinha desenhada em tantas formas nos esforços iniciais de aprendizagem. A partilha dessa caminhada é feita de tensões (trabalhos entregues em cima da hora, depois do prazo, notas justas, injustas, enfrentamentos no posicionamento político, gestos generosos, celebrações por vitórias mais pessoais, advertências e um posicionamento espetacular – a capacidade de desnudar nossos escritos e neles passear, nos levando junto, em novas construções do conhecimento).

Nessa greve das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) que não é fato novo porque é fruto da desatenção prolongada dos governos com o setor, professor@s têm sido desqualificad@s. Um série de adjetivos é lançada nas diferentes plataformas de comunicação na tentativa de forjar o perfil de quem aderiu ao movimento. Por vezes, com profunda tristeza, constata-se professores desqualificando seus pares e estimulando estudantes a seguirem esse caminho. A história mostra como é fácil erguer abismos e multiplicar as cercas que construir pontes como dado novo.

Não são vagabundos nem arruaceiros os que no sol e na chuva, no calor ou na sala refrigerada estão em luta hoje por garantias nesse trabalho-missão de ser professor; Burilar o A é também compreender o fardo da responsabilidade repassado à categoria para que dê conta dele diante da sistemática precarização; É dizer não ao pacto que  arrasta os problemas transformando-os em questão/sofrimento de cada um o lidar com eles; Burilar aquele A do começo das nossas vidas de estudantes é aprender a reafirmar a esperança em luta para realizar novas conquistas e manter a dignidade.

Arte em TeseAs mostras feitas pelo professor-mestre João Gustavo Kinen, da Universidade Federal do Amazonas são expressão de um roteiro envolvente. Vale conferir. No sábado (27), Gustavo irá à Academia Amazonense de Letras, na rua Ramos Ferreira, 1009, Centro, a convite do projeto Sábado na Academia, série Arte Em Tese para falar, a partir das 10h, das Passagens sonoras amazônicas na obra de Arnaldo Rebelo. Sob essas paisagens, a série encerra a primeira temporada de 2015. Coordenado pelo incansável prof. Zemaria Pinto, o projeto revela fôlego e vem se tornando um dos espaços de circulação do conhecimento produzido pelas instituições de ensino e pesquisa do Amazonas, de confrontação de ideias e de aprendizados.