Ivânia Vieira

A terça-feira grega arrastou o tempo para além do  um segundo a mais desse ano. Em alguma medida, todos nós, conectados, fomos levados  a ser parte desse drama. Isolado, o país de um pouco mais de 11 milhões de habitantes mergulha numa crise econômica cujas repercussões são impossíveis de serem medidas pelos números fartos lançados entre pacotes e negociações fracassadas envolvendo os Governos da Zona do Euro.

O problema grego não diz respeito unicamente aos gregos ou aos países do bloco. É um problema do mundo. Um modelo econômico escancarando as suas marcas e espalhando o fel da receita. A região compreendida como União Europeia concentra 26,5 milhões de desempregados. Estão no topo da lista do desemprego, a Grécia, com uma taxa de 27%; Espanha – 26,8%; e Portugal- 17,8%. Na outra ponta, com as menores taxas de desemprego, a Aústria – 4,9%; Alemanha – 5,4%; e Luxemburgo – 5,6%.

Em artigo no diário digital “Nova Tribuna”, o professor de economia e políticas públicas Vicenç Navarro, afirma que as políticas de austeridade, com cortes da despesa e do emprego público, a desregulamentação do mercado orientada para reduzir os salários, e a ajuda das instituições ao capital financeiro, que quer dizer predominantemente à banca, têm cumprido um papel-chave na redução do nível de vida das classes populares na União Europeia e de forma direta nos países dessa região onde o desemprego explode, como a Grécia. Navarro aponta à aguda limitação da sua capacidade aquisitiva, diminuição da procura, redução da atividade econômica e da produção de emprego, além de aumentar a pobreza e a miséria. O desemprego aumenta e a criação de mais vagas está completamente estagnada.

Quando criado o bloco europeu em 1992, estava embrulhado por uma proposta de promoção da unidade política e econômica da Europa; Melhorar as condições de vida e de trabalho dos cidadãos europeus; e as condições de livre comércio entre os países membros;  Reduzir as desigualdades sociais e econômicas entre as regiões; Fomentar o desenvolvimento econômico dos países em fase de crescimento; Proporcionar um ambiente de paz, harmonia e equilíbrio na Europa. O fator Grécia mostra que há uma distância gigantesca entre o que foi acordado e as práticas dos que detém o poder econômico na feitura da UE ou no recorte menor da Zona do Euro.

“É concebível que o restante da Europa e a Alemanha acordem e se deem conta de que suas exigências à Grécia são absolutamente revoltantes”, reagiu ontem em entrevista à BBC o prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz. “Para mim, é óbvio que a austeridade fracassou. O povo grego foi o primeiro a dizer: ‘Nos negamos a renunciar à nossa democracia e aceitar essa tortura da Alemanha’. Mas, com sorte, outros países como Espanha e Portugal, vão dizer o mesmo”. Quando questionado se o governo grego não é culpado pelo presente caos. Stiglitz observa: “Ainda que a Grécia tenha sua parcela de culpa na situação (que levou aos problemas fiscais descobertos em 2010), a desastrosa situação em que o país se encontra desde então é de responsabilidade da Troika”. (como é conhecido o conjunto formado pelo FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu).

O prêmio Nobel de economia deixa um alerta aos governos e às sociedades: “Espero que essa crise ajude a mudar a maneira pela qual o mundo enfrenta as crises das dívidas soberanas dos países.”. Esse modelo só tem êxito para uns poucos mediante a exclusão e os sofrimentos de milhares de pessoas.