Ivânia Vieira

Sérgio Fontes, o delegado da Polícia Federal escolhido pelo Governo José Melo para comandar a Secretaria de Segurança Pública no Amazonas, enfrenta nessa condição o desafio de acertar. Um acertar em várias direções. Literalmente os tiroteios e massacres estão acontecendo para além das balas e dos corpos apresentados na mídia na versão número. São condutas articuladas e determinadas a desestruturar ainda mais uma estrutura que já é falha, viciada e com braços abraçados àquilo que deveria ser combatido.

Zeloso e determinado na condução da sua formação profissional, o jovem secretário de Segurança reúne os indicadores de competência que o credenciam para o posto. E, ao aceitar assumi-lo, carregou a esperança de milhares de famílias quanto ao bom enfrentamento ao sistema de violência do qual o Amazonas e Manaus, na expressão mais visível, foram feitos reféns.

A série de assassinatos – o primeiro grande confronto dessa gestão – expôs muitas questões até agora a maioria delas sem respostas. Uma ficou evidente no périplo na mídia: a solidão solitária do secretário de Segurança Pública. Um sinal ruim. Os discursos feitos à época das posses dos que assumiram a tarefa de tornar o setor de segurança no âmbito público eficiente, eficaz e justo tiveram como palavras-chave “todos pela vida”, “redução da violência na Estado”, “qualificação dos recursos humanos”, “diálogo” e “ação”. Sete meses depois esses marcadores parecem ter evaporado diante do tamanho dos conflitos internos para demarcar poder no aparato oficial e das conexões fortemente construídas com outros setores. Era um secretário sozinho quem falava e teve a coragem de assumir, publicamente, que houve falhas. E, por vezes, um comandante da Polícia Militar tentando explicar o que, por esse viés, não era e não é explicável. O Governo Estadual, na sua expressão mais ampla e coletiva, demorou muito a tomar posição diante de uma sociedade em estado de pavor.

Pelas redes sociais, o esquema do terror e da promoção do medo já estava espalhado obrigando escolas a reduzirem horários de aula, professores a buscar alternativas entre eles para tentar manter as aulas e orientar sem rumo estudantes e familiares desesperados. Massacrados pela onda virtual do terror, jovens, adolescentes e as famílias tateavam no escuro, forjavam outros caminhos, outras estratégias que pudessem livrá-los da próxima bala, da próxima facada, da próxima ocupação dos espaços onde essas pessoas moram, transitam, vivem. Um posicionamento firme e claro do governo (e dos outros Poderes interdependentes) não veio. Os aflitos continuaram e continuam em aflição temendo ser as próximas vítimas enquanto os promotores desse sentimento avançavam, avançam?.

Quanto tempo Sérgio Fontes irá resistir? Não no enfrentamento do que vem de fora e sim nos poderes obscuros do que está dentro do sistema dessa segurança pública. Nessa resistência teria que contar com a disposição e a determinação política do Governo Estadual de fazer valer as palavras-chave dos discursos de posse, de se colocar e de insistir em gestos concretos na decisão anunciada lá atrás de que segurança pública tem que ser compreendida e realizada na feição mais coletiva e sinérgica das várias instâncias governamentais, do Legislativo e do Judiciário. Que Sérgio Fontes vença a solidão e consiga estabelecer trilhas seguras e solidárias para levar adiante o plano de segurança pública estadual/regional.