Alice no cordel da resistência

“A falsa tartaruga soluçava

Mas foi parando de chorar

E falou da quadrilha da lagosta,

O que Alice iria admirar,

Uma dança bem divertida

Que acontecia no fundo do mar”

(Alice Cordel, Jorge Bandeira, 2015)

Ivânia Vieira

Era o último dia de julho. Parecia ser aqueles dias das festas juninas quando o céu combina com as Estrelas e a Lua para encantar a Terra. Em troca, a gente da Terra dança tantas danças no Nordeste e no Norte, faz oferendas de iguarias e mergulha em rios de simpatias. Mas era julho reservando o seu 31 para brincar de alegria. Ah, não só brincar. Aprender brincando, cantarolando o riso, abraçando a curiosidade como se dela não quisesse mais largar.

Na Escola Estadual Ruy Araújo, no bairro Cachoeirinha, Zona Centro-Sul, um clima de kizomba com lascas de dabacuri tomava conta de uma turma de professores e de estudantes. Noite de festa. Jorge Bandeira, um dos professores de História, carregava “Alice Cordel” para lançar. Com 76 páginas, no formato bolso, a publicação é uma teimosia espetacular de Bandeira. Teimar é realizar sonhos.

A edição junta-se a tantas outras iniciativas pelo mundo na comemoração dos 150 anos (1865-2015) da publicação de “Alice no país das maravilhas“, de Lewis Carroll. Nessa empreitada de danação, Jorge Bandeira recebeu o sim solidário do escritor, poeta, professor e realizador de sonhos Tenório Telles (responsável pela preparação e montagem da edição), do colega de escola, Jorge Alencar (ilustrações, aliás muito bacanas), e do colega de outras fases de escola, o professor da Ufam, Sérgio Freire (apresentação). O “fim” da escrita de Bandeira termina com a indicação de um endereço e uma data: “Manaus, casa do cachorro, 1º de maio de 2015″. É um gatinho o carregador da dedicatória dessa obra à filha de Bandeira, Carolina.

Reproduzo trechos da apresentação – conversa gostosa – feita por Sérgio Freire sobre a adaptação produzida por Jorge Bandeira: “(…) O livro de Carroll celebra a rebelião e a desobediência. Figuras despóticas são ridicularizadas em sua ineficácia e incompetência. Metaforizar os sentidos convoca a resgates (…) Obras fundadoras circulam. Não só circulam. Circulam de várias formas, nas mais diversas linguagens. Essa é a sua vocação”. O livro recém-lançado por Jorge Bandeira é “fruto da inesgotável gravidez de Alice”.

Diz Sérgio Freire,”desta vez, a menina cai no buraco do coelho e tem a sua história contada por meio do cordel. Antropofagicamente, a história é engolida por um gênero de  tradição oral que, herdado da tradição portuguesa do século XVI, ganhou identidade na terra brasilis, mais especificamente no Nordeste. Sua textualização, nas mãos hábeis de Jorge Bandeira, dá sabor local à narrativa de Carroll (…). É como se no jogo da rima batêssemos o remo da canoa de forma ritmada e singrássemos o rio de uma identidade toda própria, idiossincrática, indo ao encontro do imponderável sentido das coisas do mundo. Do nosso mundo”.

Bandeira nos carrega nessa leitura atualizando a Alice em diálogo aberto e promissor com o teatro. Nos dias de festa da cultura, muitos jovens trouxeram Alice para o palco.