Neuton Corrêa

Enquanto ficou em casa, pomba foi chamada de Pimba. Era pequena, cabia na palma da mão e suas plumas não lhe cobriam todo o corpo.

Ela veio parar aqui por acidente, num sábado. Aquele dia foi trágico para ela. Eu havia saído cedo, no começo da manhã. E foi aí que tudo aconteceu.

Soube disso quando retornei no fim da tarde ainda no portão de casa, quando minha sogra pediu, já ordenando, que eu fosse à cozinha tirar o rato que estava preso, segundo ela, a uma armadilha pra rato. Minha sogra não suporta roedores.

Ainda demorei um pouco jogando com conversa com os vizinhos até decidir ver o tal ratão, como ela dizia. Mas fui.

De longe, debaixo de um armário, estava lá o ser se debatendo. Era parecido com rato. Mas para minha surpresa, ao me aproximar, deu pra notar que era um passarinho e não um roedor.

Grudado a uma cola, o passarinho estava muito machucado. Com cuidado cirúrgico retirei o bichinho de lá. As penas grandes de suas asas, da calda e as plumas do pleito estavam arrancadas, imensa a força que ela fez para se desprender dali.

Uma de suas patinhas estava quebrada.

Compadecido daquele sofrimento, decidi que cuidaria da Pimba, assim a batizei naquele instante, e que a devolveria à natureza tão logo estivesse recuperada.

Na hora, já era começo da noite, peguei minha Pimba e procurei um veterinário por perto de casa. A clínica mais próxima estava fechada, mas encontrei um consultório já baixando as portas e ainda consegui uma consulta pra ela.

Expliquei a ele começando com uma convicção: eu quero salvar essa pomba, doutor. Ele riu e já me deu o diagnóstico. “Esse é um animal silvestre e dificilmente vai se permitir viver sem liberdade”.

Insisti que queria tentar. Então, ele me vendeu uma gaiola, um pacote de comida pra pardais e uma seringa pra eu dar água do bico da bichinha. “Se você conseguir fazer com que ela beba água, talvez ela aguente”.

Peguei a dica do doutor, fui pra casa e lá conversei com minha pomba. “Tome isso”. Ela recusou a água no primeiro momento, mas aceitou depois. E assim, com comida e água na boca, a Pimba resistiu as últimas quatro semanas.

Nos últimos dias, porém, notei que a verdade do veterinário estava se confirmando. Minha Pimba não iria se permitia viver sem liberdade.

Ela já recusava a água e a comida e passou, na gaiola, andar agitada de um lado para o outro olhando por entre as grades que lhe abrigaram encarcerada.

Em mim, soava como um grito de liberdade e combinei com ela que a devolveria à vida que antes vivia até cair naquela cola.

Hoje foi o dia. Convidei colegas de redação. Lúcio Pinheiro e Aruana Brianezi vieram. O Segundinho fez o registro em vídeo. Antes de devolvê-la à natureza, como um pai que tenta deixar um sinal no filho para não perdê-lo na multidão, amarrei nela uma fitinha vermelha e cumpri minha a promessa de devolver-lhe uma vida sem cadeia.

E assim aconteceu!

A soltura da Pimba ocorreu no dia 21 de agosto de 2015 e no mesmo dia postei essa crônica em meu Facebook. Seis dias depois, fiz outro post sobre ela registrando: “Uma felicidade que nem sei como descrever. É única! Saber que ajudou a salvar uma vida. Lembram da Pimba? Taí é ela (foto). Livre! Está petengando, mas está em seu ambiente. Hoje ela veio me visitar. Feliz e emocionado estou!”.