Ivânia Vieira

Tarcila Prado de Negreiros Mendes, falecida há uma semana, é uma dessas mulheres geradoras de curiosidades. A história dela faz parte de tantos livros de mulheres à espera da escrita em versão ampliada. Nessa existência de 74 anos, a ex-primeira dama do Amazonas encarnou capítulos singulares da própria história política amazonense e  amazônida.

Dos políticos mais velhos ouvi repetidas vezes, em meio a realização das tarefas jornalísticas, muitos relatos a respeito da “mulher do governador Amazonino Mendes“. Todas eles tinham em comum um dado: a garota nascida no Município de Maués que muito jovem estava à frente das lutas estudantis como presidente da União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas (Uesa). O tempo da juventude dela era o da longa ditadura imposta no Brasil e de uma luta silenciada das mulheres. Dizem esses políticos mais velhos que coube a Tarcila envolver Amazonino Mendes, um ano mais velho que ela, nas atividades político-cultural.

Desses relatos, entrecortados por manifestações diversas, fica a indicação de uma garota-líder reconhecida pela combatividade e dedicação no fazer política que, enamorada, decidiu gradativamente atuar  em outro plano. Tornou-se companheira por quatro décadas de um dos homens que viria a se constituir em referência de poder regional. Amazonino Mendes, três vezes governador do Estado, três vezes prefeito de Manaus e senador. Mãe de três filhos, duas mulheres e um homem, avó e espectadora privilegiada  por longa duração da arte de fazer política no Amazonas.

A morte de Tarcila Mendes, no dia 9 de setembro, em São Paulo, foi anunciada seguindo a tradição jornalística no País e no mundo: “morre a ex-primeira dama do Amazonas” ou “morre mulher do ex-governador Amazonino Mendes” e outros tantos arranjos de uma escrita dominadora por onde escoa a invisibilidade da outra pessoa. Tarcila, nesses construídos, virou notícia por esses “atributos”.

Uma pergunta permanece: quem foi essa mulher amazonense chamada Tarcila Prado de Negreiros Mendes? Fazedora de política quer nas inflamadas e históricas reuniões da Uesa, quer nos bastidores da resistência, nas articulações onde paixão duplicada se imbricava, no olhar atento às reuniões dos homens da política que decidiam os destinos do Amazonas, sobre a morte ou a vida de partidos políticos, no lidar por vezes solitário e violento com as tramas do poder, na tentativa elástica de preservar os filhos, a família. Quais foram os sonhos sonhados de Dona Tarcila? Quais foram as lições aprendidas, as tristezas e alegrias guardadas?

A mulher Tarcila não é um apêndice. Uma nota de rodapé. Ambos recursos são importantes. Podem, para o olhar mais atento, reunir dados às descobertas singulares. No caso da história das mulheres têm sido um jeito de secundarizar as existências e as lutas por elas travadas. A escrita pelo viés masculinizado é farta nessas negações, o que é um exercício cruel, violento e lamentável das inteligências porque ao se expressar nessa limitação prevalente deixa de contar histórias incríveis de mulheres (e de homens). Como essas histórias não são “coisas a parte” e “relatos insignificantes”, cada vez que o ato se repete também são deixadas encobertas ou nas sombras outras faces das famílias, dos municípios, dos Estados, do País, do mundo. Tarcila carrega perguntas para além do prefixo ex.