Ivânia Vieira*

Vale a pena ter um jardim? Perguntava-nos José Lutzenberger na segunda metade do século XX, ao apontar a nossa falta de mentalidade para ver a beleza do mundo e nossa cegueira diante da Natureza. Lutzenberger vê o jardim como uma das compensações frente a corrida grotesca que nos torna a cada dia mais neuróticos e desequilibrados.

O jardim de Lutzenberger contribui substancialmente para a saúde do corpo e da alma e pode ser entregue a terceiros pois “só saberá fazer um jardim que lhe proporcione  realmente satisfação e serenidade aquele que aprende a amar de fato a Natureza porque este se dedica pessoalmente às suas plantas”.

Faltam jardins no mundo e para o mundo. A corrida está mais neurótica neste século XXI.  Reflexões produzidas por 1.350 cientistas para compor o documento Avaliação Ecossistêmica do Milênio, no período 2001-2005 apontam para o agravamento dos problemas humanos na relação com o Planeta Terra. Eis alguns indicadores:

1) A população do planeta é totalmente dependente dos seus ecossistemas e dos serviços que estes oferecem, incluindo alimentos, água, gestão de doenças, regulação climática, satisfação espiritual e apreciação estética. Nos últimos 50 anos, o homem modificou esses ecossistemas mais rápida e extensivamente que em qualquer intervalo de tempo equivalente na história da humanidade, para suprir a demanda crescente por alimentos, água pura, madeira, fibras e combustível. Essa transformação do planeta contribuiu com ganhos finais substanciais para o bem-estar humano e o desenvolvimento econômico;

2) Três grandes problemas associados a nossa gestão dos ecossistemas terrestres vêm causando danos significativos a algumas populações, especialmente as mais pobres, e a menos que sejam tratados, reduzirão substancialmente os benefícios a longo prazo que obtemos dos ecossistemas. São eles: cerca de 60% (15 entre 24) dos serviços dos ecossistemas examinados durante a Avaliação Ecossistêmica do Milênio têm sido degradados ou utilizados de forma não sustentável, incluindo água pura, pesca de captura, purificação do ar e da água, regulação climática local e regional, ameaças naturais e epidemias.

3) Há evidência definida, porém incompleta, de que as mudanças em curso nos  ecossistemas têm feito crescer a probabilidade de mudanças não lineares nos ecossistemas (incluindo mudanças aceleradas, abruptas, e potencialmente  irreversíveis) que acarretam importantes consequências para o bem-estar humano.

4) A partir de 1945, mais terras foram convertidas em lavouras do que nos séculos XVIII  e XIX juntos. Os sistemas cultivados (áreas onde pelo menos 30% da paisagem  consiste de lavouras, cultivo alternado, criação de gado confinado ou aquicultura de  água doce) cobrem um quarto da superfície terrestre do planeta;  Aproximadamente 20% dos recifes de corais do mundo foram perdidos e outros 20%  foram degradados nas últimas décadas do século XX; aproximadamente 35% das 12 áreas de manguezais foram perdidas nesse período (nos países onde se têm dados suficientes, que englobam cerca de metade das áreas de manguezais); o volume de água confinada em diques quadruplicou desde 1960, e o volume de água retida em reservatórios é de três a seis vezes maior que em rios naturais; a extração de água dos rios e lagos duplicou desde 1960; boa parte da água utilizada (70% do uso mundial) vai para a agricultura.

Cuidar da Terra, nossa Casa comum, pede ação já. O teólogo Leonardo Boff propõe uma conversão ecológica global capaz de traduzir o cuidado da Terra como o cuidar da beleza que a terra nos proporciona, das suas paisagens, da diversidade que abriga, dos sonhos que a Terra nos proporciona, do sagrado que a Terra contém.

* Jornalista e professora da Ufam