Michelle Portela*

Poucos dias antes de morrer, o líder seringueiro mais famoso do mundo escreveu uma carta. Endereçada aos “jovens do futuro”, pedia esperança e fé, pois em cem anos, o socialismo teria triunfado e os homens viveriam em harmonia. Utopia típica de um sonhador como Chico Mendes. Porém, na mesma carta, encerrava dizendo: “Desculpem, eu estava sonhando”.

No dia 22 de dezembro de 1989, após meses sob proteção policial, Chico levantava-se da mesa da cozinha, na qual jogava dominó com dois policiais militares que faziam sua escolta, para tomar banho. O banheiro, como é de costume nas casas interioranas, ficava do lado de fora da casa. Ao abrir a porta ‘de trás’ para sair, foi atingido por um tiro de espingarda bem no peito e anunciou: “Me acertaram!”.

Os policiais fugiram pela janela, presumindo uma matança. Chico se arrastou até a porta de um dos dois quartos de sua humilde morada, encontrou sua filha Elenira, deitou-se em seu colo e deu seus últimos suspiros. Seus filhos e esposa sobreviveram e batalham por um legado.

As marcas do tiro e do sangue de Chico ainda estão naquela porta, na casa tombada pela Fundação Chico Mendes, com sede em Xapuri, cidade natal do seringueiro, onde viveu e lutou por toda a vida. As mesmas marcas ainda não cicatrizaram no movimento social do Acre e no ambientalista, categoria pela qual é mais lembrado.

Em 2008, são 20 anos da morte do seringueiro, quando proliferam as camisetas emblemáticas “Chico Mendes vive!”. Assim como Che, Fidel, bandas de rock e outros produtos midiatizados, a mercantilização da imagem de Chico talvez seja mais contraditória do que coerente com o ‘movimento’. Contradição, aliás, esta que nos traz o benefício da dúvida!

Antes de tudo, porém, é importante reconhecer que Chico assumiu um papel fundamental na luta pelo direito de estar vivo no Acre dos anos 1970, com o aparelho burocrático funcionando para extorquir, reprimir, violentar e matar, típico aos regimes ditatoriais.

“Chico vive” porque sua trajetória ratifica o laconismo. Ainda jovem trabalhador dos seringais, entendeu que os seringueiros precisavam monetarizar o debate e apresentar modelos de sobrevivência com base no extrativismo lucrativo frente à expansão da pecuária e exploração madeireira. Pensou que poderia fazer isso nos modelos tradicionais. Com apoio dos seus, candidatou-se a vereador pelo MDB e assumiu uma cadeira na Câmara Municipal de Xapuri.

Durante sua pesquisa de doutorado, a antropóloga Mary Allegretti, amiga de Chico e peça-chave na articulação do movimento seringueiro, conseguiu copiar todas as atas das sessões realizadas na Câmara, menos a da sessão secreta que decidia pela cassação do mandato do “vereador seringueiro” caso não renunciasse à presidência da Casa. As demais atas, no entanto, relatam os fatos:

“No dia 17 de setembro de 1979 Chico Mendes, já presidente da Câmara dos Vereadores, organizou, no plenário da Câmara, uma reunião de seringueiros ligados ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais para discutir os problemas que estavam enfrentando em relação aos conflitos fundiários.

No dia 23 de novembro, o vereador João Simão dos Santos, vice-líder do MDB, apresentou ao presidente da Comissão de Justiça, uma denúncia formal contra o Presidente da Câmara Municipal de Xapuri, sob a alegação de que a reunião realizada com os seringueiros no plenário da Casa contrariava os estatutos e convocou, em seguida, os membros da comissão para uma reunião na qual deveriam resolver os devidos processos. A posição foi endossada pela maioria dos demais vereadores, que acrescentaram críticas à atuação do STR de Xapuri.

Na última sessão ordinária do ano, realizada em 30 de novembro, Chico Mendes já havia renunciado ao cargo de Presidente da Câmara dos Vereadores de Xapuri. A sessão esteve sob a presidência em exercício do vereador Amadeu Dantas e foi secretariada em exercício pelo vereador Eurico Gomes Fonseca Filho. Foi registrada a entrega, para a Mesa Diretora, de um envelope lacrado com documentos e uma fita de uma SESSÃO SECRETA realizada dia 29/11/79 na Casa do Povo, que foi verificada pelo Presidente da Comissão de Justiça na qual teria sido decidida a cassação de Chico Mendes. Para não perder o mandato, ele renunciou da presidência.”

Diante de tamanha violência, aquilo que se tentou esconder tornou-se mais evidente. A partir daí, Chico organizou a Aliança dos Povos da Floresta e os sindicatos de trabalhadores se tornaram forças, reuniu em torno de si um grupo de intelectuais e artistas que faziam frente o governo militar vigente e ampliou o debate além das fronteiras. Ganhou prêmios na ONU e se tornou um dos militantes mais reconhecidos em sua causa. Caso inédito, em se tratando de um homem que vivia em ‘lugar isolado’, como insistem em nos posicionar. O conflito por terras e poder na Amazônia estava novamente no mapa mundi!

As reservas extrativistas foram criadas como modelo de desenvolvimento, terras indígenas foram reconhecidas, o movimento se organizou politicamente e construiu um “Governo da Floresta” – bom ou ruim, é um marco na história política do País -, ocupando as principais prefeituras, o Governo do Estado e cargos na Câmara Federal e no Senado, inclusive nos ministérios. A eleição de Lula à Presidência foi o ápice!

São estes mesmo elementos que levam à nova pontuação na expressão título deste artigo: “Chico Mendes vive?”. As reservas extrativistas viraram grandes pastos e nesse momento, posseiros estão sendo expulsos dessas áreas. O ‘meio ambiente’ padece e as licenças ambientais são aparelhos de negociação política. ‘Sempre saco uma licença na hora da negociação’, disse o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, à Veja desta semana. Ele substituiu a senadora pelo Acre, Marina Silva, a “inegociável”.

Fato novo, só a anistia post-mortem do “do líder sindical e ecologista Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes”, pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, no último dia 10 de dezembro. A viúva Ilzamar Mendes protocolizou o pedido de anistia há três anos e, a partir de agora, a família do seringueiro terá direito a receber indenização retroativa no valor de R$ 337 mil, mais R$ 3 mil mensalmente, pelo fato de ele ter sido perseguido pela ditadura militar.

Chico Mendes foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional (LSN), em 1980, juntamente com os sindicalistas Lula, Jacó Bittar, João Maia e José Francisco, por incitação à desordem e ao crime. Foram acusados de envolvimento na morte do capataz Nilo Sérgio. “Nilão”, como era conhecido, foi emboscado por trabalhadores e assassinado a tiros de espingarda, após o assassinato de Wilson Pinheiro, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, dentro da sede da entidade.

Chico Mendes e seus companheiros participaram, em Brasiléia, de um ato de protesto contra o assassinato de Wilson Pinheiro. Na ocasião, diante de centenas de trabalhadores rurais, Lula usou durante o discurso a expressão “está na hora da onça beber água”, o que teria, na avaliação da ditadura, sido o sinal para que os seringueiros assassinassem “Nilão” como vingança.

Não sei. Na verdade, quem sabe. A vida de Chico Mendes talvez tenha sido uma crônica da realidade!

*Jornalista, mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.