Michelle Portela*

Lembro bem do dia em que ela partiu. Acordei cedinho, na famosa hora azul, entre 5h e 6h da matina, para matutinos, ou madrugada, para aqueles (as) que não lavam roupa ou enfrentam jornadas triplas. O casamento dos meus amigos não estava bem. A decisão pela separação diante da proposta de emprego nos Estados Unidos parecia uma boa opção para minha amiga engenheira da computação. Ela tomou uma sábia decisão; pensei à época.

No dia da viagem, no aeroporto, chorei dando beijinhos na Lucy. Amava aquela menina como a poucas pessoas em minha vida. Sonhava com minha filhinha a partir dela. Admirava meus amigos por ter uma filha de personalidade tão amorosa, tranqüila e sensível. E era verdade.

Foi impossível não lembrar quando ela nasceu, ganhou seu nome e passou a reconhecer Beatles. Mais ainda, quando fez o sinal comum aos metaleiros: o polegar e o indicador estendidos enquanto os outros estão dobrados. Clássico do metal! Lucy reconhecia o heavy metal do Iron Maiden aos três aninhos! Ótimo! Boa menina!

Ela se foi. Os anos se passaram. Num dia, Anderson não atendia ao celular. Há cinco anos Lucy estava nos states e eu andava curiosa para saber dela. Encontrei Guilherme, grande amigo nosso que, por acaso, pensava o mesmo. Ao chegar ao apartamento, o odor era dos piores. Há uma semana, meu amigo querido não tomava banho, retirava o lixo ou coisa qualquer. Mais ainda, havia disparado o gatilho duas vezes. Em nenhuma delas, a arma, que prefiro não saber a marca, disparou. No terceiro tiro, funcionou. Como foi na parede, disparou um desespero profundo em meu amigo, a ponto de sequer conseguir se movimentar.

Lucy havia morrido em um acidente de carro. A mãe dela dirigia a partir da Califórnia quando foi atingido por um caminhão que desviava de uma árvore caída. Ele só soube dias depois. Nem foi ao enterro porque a família dela pensava que não seria necessário. Minha menina morreu! Ele só soube por que foi buscar informações.

Ao falar com ele, disse pouco. Nosso gesto de carinho foi dar banho no amigo. Uma comidinha também foi bem-vinda. Dormiu! No dia seguinte, disse que borboletas haviam entrado no quarto pela janela. Amarela e preta. Amar ela e preta. Amar ela, minha filha.

De coração partido, parti! Não sabia o que fazer. Não sei o que fazer. Ando pensando em ter filhos. Um ato de amor!

*Jornalista, mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.