Quais são as implicações do pensamento o complexo?
Em primeiro lugar, há um abalo nessa ideia antropocêntrica de supremacia do homem. É preciso repensar essa supremacia porque ela em si vai criando uma ideia de superioridade que deve ser colocada entre parêntese. Essa questão não é adstrita ao pensamento de Morin. Lévi-Strauss já fala isso em 1962. Anos antes de Morin publicar o primeiro volume do Método, ele [Lévis-Strauss] dizia que é preciso dissolver o homem na natureza, e é preciso dissolver a natureza nas condições fisicoquímicas. Essa implicação é, para a sociedade, do ponto de vista da cultura e do ponto de vista da ética. Se nós pensamos por territórios separados, a ética tende a ser relativizada demais. Se nós pensarmos por meio de territórios religados, a ciência, a política, a ética e a democracia serão vistas de outro prisma.

Então, penso que o pensamento complexo tem implicações políticas bastante sérias; por isso, não muito aquilatadas, por isso, não muito explicitadas. Mas acho que há uma esperança que esse tipo de pensamento represente uma forma de democracia representativa que não é a que temos agora. Do ponto de vista da biopolítica, teremos um avanço. Agora, como todo avanço, exige que as pessoas pensem de outra maneira. Pensar de outra maneira é a questão. Se se pensa de outra maneira [...] em primeiro lugar, refletindo um pouco sobre aquilo que você faz durante a sua atividade. Morin chama isso de autoética. A ética de si, que tem, talvez na definição do [Immanuel] Kant, na Crítica, a sua definição mais fundamental. Lá, na Crítica, Kant diz o seguinte… Pergunta-se para ele: o que é a ética? Diz ele: a ética pode ser resumida numa simples frase: não faça ao outro aquilo que você não quer que seja feito par si mesmo. Se essa ética fosse aplicada na cultura, na política e na universidade, nós teríamos uma cultura, uma política e uma universidade diferentes.