Neuton Corrêa*

Na verdade, acho que a personagem desta crônica também é surda. Há doze anos falo com ela, em troca, porém, nunca recebi nenhum piscar de olho, nenhum movimento de corpo, nenhuma expressão. Nada! Nada! Nada! Antes de saber que não ouvia, passava por ela e dava-lhe alô, e, como não respondia, usei o polegar para lhe perguntar se estava tudo bem, mas não consegui resposta até hoje.

Nessa dúzia de anos passados, ela permanece ali na mesma posição: braços retorcidos, mãos e dedos enrijecidos; pernas grudadas da coxa ao joelho e abertas do joelho aos pés, apoiados em dois suportes fixados ao lado das rodas de sua cadeira. Assim a vejo de manhã, quando saio para o trabalho, e, às vezes, à noite, ao retornar para casa.

Sua imobilidade, indiferença e silêncio há muito me inquietavam. Tinha convicção de que o cenário de sua história não se resumiria a seu corpo entrevado na cadeira posta à frente de sua casa. Ela deveria ter algo a mais. Ninguém é nada, até porque o nada é tudo, ensina o estudo da filosofia do ser. Pensava essas coisas todas as vezes que estava na parada de ônibus, de onde a observo.

E, de fato, ela comunica. E muito. Ajudou, por exemplo, a polícia a desvendar o mistério de um crime que ocorreu às suas costas. Quando não sei, mas, num tempo qualquer, sua irmã foi assassinada. Os detalhes do crime fizeram a imprensa passar semanas publicando manchetes sobre o caso e cobrando a polícia. A vítima era uma criança, e a testemunha, a única pessoa que estava na casa.

Ela, que havia nascido com múltiplas deficiências, após a violência contra a irmã, aprofundou ainda mais o silêncio. Tentaram de tudo, mas seu olhar sequer embaçava. As suspeitas recaíam sobre duas pessoas com o mesmo nome. Entretanto, pesavam mais contra a mais jovem, presa porque foi a última a entrar na casa, momentos antes do crime.

A prisão da suspeita não resolveu a situação. Com trinta dias de prisão, ela insistia na sua inocência, como todos criminosos fazem. Conseguiu até um álibi que o livrava das suspeitas, mas a implicava em outro crime. Ela revelara que, naquele dia, naquela hora, estava com mais dois vizinhos participando de um assalto a uma agência bancária.

Os outros irmãos da menina também não se davam por convencidos com a solução apresentada pelas investigações. Intrigava-os o fato de que o acusado, apesar do histórico, era conhecido na vizinhança por praticar roubos em outros lugares, menos na redondeza.

O tempo fazia as coisas esfriarem, até que o suspeito 2, voltou a andar pela rua. Toda vez que passava por ali, a deficiente se agitava e, à noite, não conseguia dormir. A família percebeu o detalhe e resolveu chamá-lo. Ele não se fez de rogado e atendeu o chamado.

Foi nesse momento que o caso teve reviravolta. A moça da cadeira de rodas passou a se debater e, pela primeira vez, já adulta, produziu os primeiros ruídos de sua vida e derrubou a represa que impedia seus olhos lagrimarem.

Até esta semana eu não sabia disso. Tomei conhecimento na parada de ônibus, quando dois vizinhos começaram a contar histórias da vida dela.

PS: Em outubro de 2008, dois homens estacionaram uma motocicleta a dois metros de onde a testemunha muda sentava e eliminaram um rapaz de 24 anos de idade. Um mês depois, a cena se repetia e, pela terceira vez, ela se tornava testemunha de outro crime.

*Jornalista, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.