Ilustração: Myrria

Neuton Corrêa*

O 017 passava pelo bairro São José, quando a moça embarcou na viagem. Antes mesmo de subir no busão, a presença dela já causava alvoroço. À minha frente, duas passageiras discutiam:

- É sim.

- É não!

- É sim filha dele. Eu conheço ela desde pequena.

Do outro lado, dois rapazes levantaram a cabeça, olharam-se, torceram a boca e atestaram: É ela.

A agitação chamou minha atenção. Até estiquei a cabeça para tentar ver de quem eles tanto falavam. Não puder ver, mas ouvi. Ouvi uma voz fininha dizendo: “Ai, que bom! Esse ônibus não está lotado”. E não estava lotado, mesmo! Ainda havia lugares para o dobro de gente que estava viagem.

Enquanto fazia a operação matemática para concordar com ela sobre a lotação do ônibus, a passageira apareceu cruzando a catraca. Foi aí que entendi o porquê do zum, zum, zum. Várias cabeças masculinhas viraram-se em sua direção. As mulheres também a olharam, mas eram os homens que a descreviam com os olhos.

Foi por um desses olhares que a visualizei antes de vê-la: ele olhou para baixo (supus que estivesse olhando para os pés da passageira) e passou segundos demorados fixados naquela direção, o que me fez imaginá-la com pés encantadores; depois, ergueu o pescoço na direção das pernas. E demorou ainda mais. E finalizou os movimentos do pescoço, erguendo a cabeça até o toco da nuca, não deixando dúvida de que se tratava de uma mulher alta. Muito alta.

De fato, era alta. Assim que passou por mim, medi-me ao seu lado (só na imaginação, é claro) e constatei que minha cabeça batia nos peitos dela. Mas não eram apenas a altura nem os pés, nem as pernas grossas e roliças, simetricamente, do calcanhar ao joelho, que chamavam atenção.

O vestido e a bolsa que trazia pendurada no ombro direito também a faziam diferente dos passageiros do dia-a-dia. Era um vestidinho com pintinhas marrons, parecendo um couro de onça pintada. A roupa deixava grande parte da costa exposta e a metade da coxa despida. Não dava para ver a parte da frente porque ela ficou de costas para mim e depois se sentou. Ah, a bolsa combinava com o vestido. Parecia que vestido e bolsa haviam sido feitos do mesmo tecido.

Bem, antes de sentar, a passageira cumprimentou algumas pessoas. Os que não eram alcançados por suas mãos eram tocados por seu sorriso e pelo adeus de sua mãozinha. Parecia conhecer todo o mundo. E isso ficou claro quando começou a falar com outra passageira que estava em pé:

- Amiga, arrasou!

A outra respondeu, perguntando:

- Cadê o carro?

- Arrasaram comigo. Papai me deixou sem o carro. Agora que a campanha começou não fica nenhum em casa.

Depois que falou isso, minha cabeça tentou comparar seus traços com algum agente público conhecido, mas eu não tinha visto seu rosto. Fiquei assim, curioso, até que a interlocutora perguntou:

- Pra onde você vai?

- Amiga, eu estou arrasada. Estou trabalhando.

- Lá?

- É, lá! Amiga, lá é pra quem tem QI (Quem Indica, explicou ela). O papai conseguiu na hora.

A outra respondeu:

- Arrasou!!

Acho que eu não era o único a prestar atenção no diálogo. Tanto que, assim que elas deram uma pausa na conversa, uma passageira explicou, em sussurro: “Ela é filha do deputado”.

*Jornalista, filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.