Sobre árvores e mulheres

quinta-feira, 4 de março de 2010


Ivânia Vieira*

Tenho tentado ver as samaumeiras dos arredores de Manaus, mas elas estão cada vez mais escondidas, difíceis e distantes de nós. O bailado de galhos e folhas quando nos envolviam na dança das sementes desapareceu da cidade e nem as sementes voadeiras, aqueles flocos pequeninos e macios ora caindo sobre nós ora éramos nós correndo para alcançá-los, têm aparecido por aqui.

Talvez as samaumeiras não gostem dos edifícios e, entristecidas, enviaram suas sementes para dançar em outro lugar. Pior para nós! A cidade, escassa de árvores, está mais triste ainda e, sem as sementes, faz uma dança melancólica, quase fúnebre, já não sabe como recepcionar as sementes dançantes e elas deixaram de correr em nossa direção. Depois de tantas histórias vividas juntas, somos hoje estrangeiros arredios e nossa companheira mais fiel é a fumaça da morte.

Olho para o céu e para a terra. A fumaça está lá, entre as casas, os ônibus, os carros, ocupa a rua, se espalha velozmente, impede minha respiração e turva meu olhar. As lágrimas descem sem controle.

Sementes de samaumeiras não aceitam viver assim, precisam ser vistas, compreendidas e protegidas não porque são frágeis, não! Afinal são filhas e mães da samaumeira, mas sabem que a cidade, do jeito que está, é ameaça de morte, maltrata, produz seqüelas, asfixia até apagar completamente a luz da vida e tornar lei a proibição da dança da liberdade, essa feita pelas sementes voadeiras. Viver assim é aceitar morrer a cada dia, é deixar os outros morrerem também.

As samamumeiras, guerreiras gigantes, choram diante das irmãs perdidas na cidade e no interior, e choram pela humanidade escapulindo. Trazem nesse choro as sementes voadeiras, grávidas da esperança, elas insistem, por nós. Preparam nesse momento um grande vôo para enfrentar quilômetros de violência e vão cantando, gritando palavras de ordem, reunindo ao longo da marcha outras sementes. Vão dançando, multiplicadas e coloridas, fazendo da estrada um imenso canteiro.

Desta vez, nenhuma fumaça vai impedir de serem vistas. Retomam nesse gesto o ritual da dança pela vida de mulheres, árvores e sementes em todo o lugar. É uma declaração de amor a cada um de nós, para amanhã repousarmos na samaumeira salva. Ela, generosa, redistribuirá as sementes voadeiras para Manaus voltar a vê-las e, re-unidas, sejam árvore de resistência.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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O poder do embuste

Wilson Nogueira*

O prefeito de Manaus, Amazonino Armando Mendes, disse, sem pestanejar, que o reajusta do preço da passagem de ônibus de R$ 2,00 para R$ 2,25, no ano passado, feito por ordem judicial, foi uma espécie de socorro às concessionárias em dificuldade financeira em razão da fraude na meia passagem, da falta de controle na circulação dos carros executivos e da precariedade das ruas. Anteontem, por determinação da Prefeitura, esse preço caiu para R$ 2,10, porque tais problemas estariam resolvidos. Essa justificativa só evidencia que os usuários foram obrigados tirar as empresas de uma suposta inadimplência.

A queda da tarifa de ônibus foi anunciada como se esse fato não possuísse causa passada nem efeito futuro. Algo para ser engolido goela abaixo e ser digerido imediatamente. Pronto! Reapareceu o prefeito que protege os pobres! Mas não é bem assim não. Para conquistar esse reconhecimento, o prefeito precisaria ter, no mínimo, recorrido da decisão da Justiça favorável ao reajuste reivindicado pelos empresários. Não o fez. Preferiu fazer caridade – agora confessada – com o dinheiro dos usuários de um serviço público caro e de péssima qualidade. As bravatas do prefeito, ditas na ocasião da tão publicizada medida, servem para denunciá-lo como omisso no desempenho da função que lhe obriga a proteger o cidadão de gatunos e gatunagens.

Os fatos anteriores e posteriores indicam que empresas e Prefeitura pactuaram um reajuste, com aparência legal e legitima, para subtrair as parcas economias dos que necessitam de ônibus para chegar ao trabalho. Não é justo que o usuário pague pela conta da fraude, nem pela bagunça no sistema de transporte coletivo, e muito menos pela falta de manutenção das ruas. A sociedade já paga as instituições da República – e paga um preço muito alto - para que elas evitem ou resolvam esses problemas. O prefeito tinha autoridade e orçamento para agir em favor dos cidadãos e cidadãs. Em vez disso, se fez de morto e deixou a população nas mãos de uma decisão judicial passiva de recurso.

Além de deixar os munícipes ao deus-dará, o prefeito ainda exigiu que os jornalistas não recorressem à memória do episódio. “Esquece tudo isso. Não confunda a cabeça das pessoas. Estou falando português, não estou falando alemão, nem grego. O que interessa é o preço da tarifa”, resmungou Mendes. Não se tem notícia de que o prefeito fale alemão ou grego. Porém, sabe-se da sua habilidade em mimetizar acontecimentos em português rococó, com a intenção de confundir a memória da população. O que lhe interessa é o aqui-agora, como se ele não tivesse nada a ver com o descontrole do setor, que não é de hoje. Logo ele, useiro e vezeiro no manejo dos cofres do município e do Estado .

De qualquer modo, o prefeito comunicou à população a versão que lhe interessava, graças, também, ao comportamento assertivo da imprensa e à condição contemplativa da maioria dos vereadores. Mais uma vez, prevaleceu o embuste sobre a realidade nua e crua de uma cidade que clama por cidadania plena.

*Escritor, sociólogo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Efeito das aspas

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ivânia Vieira*

Leio em A CRÍTICA a formação de um terceiro bloco dentro da Câmara Municipal de Manaus, o dos independentes. A matéria, assinada pela jornalista Audrey Bezerra, reúne alguns detalhes pitorescos. Um deles são as aspas na expressão independente. As aspas falam, insinuam-se e fazem provocações. Afinal, qual a razão para vereadores constituírem uma ala independente dentro da Casa? Descobriram, durante o Carnaval, a dependência da CMM? Essa poderia ser uma das respostas, mas ela exige complemento, o de identificar à qual senhor servem/serviam os parlamentares.

Na lista dos independentes publicada pelo jornal estão 15 vereadores, número igual ao do bloco da situação do qual muitos dos agora independentes participavam até o término do exercício legislativo de 2009. Oito aparecem na oposição.

Independente, de acordo com o dicionário, é uma pessoa livre, não depende de ninguém e de nada, governa-se por leis próprias e se posiciona contra a tirania. A palavra, sem aspas, carrega encantos e embala a esperança. Na política e, em especial no parlamento, a história é rica em exemplos de que a marca independente expõe uma dependência maior, servil, por isso, perigosa a eleitores e à cidadania, pois reduz o Parlamento, torna-o quintal do Executivo.

Os independentes da Câmara Municipal de Manaus não falaram da liberdade nem se recorreram à independência para reagir a algum ato de tirania. Mais direto, o presidente da CMM, vereador Luiz Alberto Carijó (PTB), nominou os donos dos blocos: O ex-prefeito Serafim Corrêa (PSB), o prefeito Amazonino Mendes (PTB) e o governador Eduardo Braga (PMDB). Botou água na dança do bloco independente.

Áderson Dutra
Sim, Tenório Telles tem razão, o professor Áderson Dutra, morto na semana passada, vai fazer falta. Aprendi um pouco sobre ele com um outro professor, o jornalista Frânio Lima, na busca do olhar criterioso e da fala firme, responsável sobre os acontecimentos. Uma fonte altamente qualificada, uma aula em cada resposta dada, assim desenho a figura do prof. Áderson. Ele descansa, com todas as honras. Nós tentamos mergulhar mais fundo nos seus ensinamentos repassados dia após dia numa sabedoria mansa.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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Tom Jobim e Chico Buarque no III FIC – 1968

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010


Lucynier Omena*

Se Tom Jobim fosse vivo, teria completado no dia vinte e cinco de janeiro deste ano, 83 anos de idade. Foi em 1927, no Rio de Janeiro que nasceu Antonio Carlos Brasileiro Jobim e faleceu em oito de dezembro de 1994, em Nova York. Em homenagem a esse grande poeta, pensei em recordar um fato ocorrido durante os negros anos em que o Brasil esteve sobre a ditadura militar, que envolveu diretamente o compositor.

Tom foi um dos criadores e principal divulgador, fora do Brasil, da Bossa Nova. Foi dele e de João Gilberto, Chega de Saudade, a música marco deste ritmo, lançada em 1958.

Tom Jobim teve ainda como parceiros Vinicius de Moraes e Chico Buarque. Junto com este último, Tom passou pelo constrangimento de ver uma de suas obras tirar o primeiro lugar no III Festival Internacional da Canção, e o resultado ter sido recebido pela platéia com uma ruidosa vaia. A música, Sabiá, não era a preferida do público.

Mil novecentos e sessenta e oito foi um ano de grandes agitações políticas e de mudanças institucionais em várias capitais do mundo. No Brasil, o grito era pela liberdade e pela volta dos direitos que pouco a pouco ia sendo tirado pelos militares. Neste clima, a canção Para não dizer que não falei das flores, interpretada por Geraldo Vandré, foi diretamente de encontro aos anseios do público. Vandré traduziu na interpretação e nas palavras o sentimento comum à grande parte das pessoas que se opunham ao regime. Em razão disso, Sabiá, a música de Tom e Chico, fora taxada de alienada e os jurados do Festival acusados de acatar as ordens do governo, impedindo que Geraldo Vandré ficasse com o primeiro lugar.

Tudo começou quando um membro do fã clube de Vandré soube que os militares haviam dado ordens expressas aos coordenadores do Festival, de que Caminhando não fosse, de forma alguma, a vencedora. Sem hesitar, a jovem procurou pelo artista, contou o que sabia e repassou ao público na noite do encerramento.

E aconteceu. Por três votos, Pra não dizer que não falei das flores perdeu e a grande vencedora foi Sabiá. Chico Buarque não estava no Brasil, o que obrigou as duas intérpretes Cynara e Cybele, a encararem sozinhas com Tom, a vaia monumental que acompanhou toda a reapresentação da música. De nada adiantou Geraldo Vandré, em sinal de apoio, ter permanecido no palco durante a apresentação e ter dito ao público Olha, sabe o que eu que eu acho? Eu acho uma coisa só: Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque de Holanda merecem o nosso respeito.

O público não acalmava. A noite foi assim descrita por Zuza Homem de Melo, no livro A Era dos Festivais: “A vaia estrondosa não pára, Vandré também entra no palco e fica ao lado das duas baianas que cantam Sabiá sem ouvir nada. Entram vaiadas, cantam vaiadas, não ouvem a orquestra, o maestro não ouve as duas, as lágrimas escorrem. Foi uma vaia retumbante, prolongada, maciça, quase raivosa, de deixar aquele moço de smoking se sentindo o cocô do cavalo do bandido. Era Antonio Carlos Jobim, o maior compositor brasileiro, aturdido, quieto como quem pede desculpas por ter composto mais uma melodia destinada a ser um clássico da musica de seu país. Foi um pesadelo”.

Sabiá é uma linda canção e a letra faz referência ao exílio. Muitos brasileiros tiveram que deixar o país e aprender a viver longe de casa. O próprio Chico Buarque viveu a experiência.

Tom Jobim e Chico Buarque eram artistas esclarecidos sobre a situação em que vivia o país. Do ponto de vista do momento político, foi compreensível a reação do público, mesmo que ambos, além de talentosos, fossem amados e respeitados. Porém, à medida que os militares endureciam o regime, o descontentamento e a revolta, sobretudo entre os jovens, crescia na mesma proporção.

A disputa não foi somente entre duas canções. Chico já havia sido agredido um pouco antes, com a invasão do Teatro e o espancamento dos atores que encenavam uma peça de sua autoria, Roda Viva. O primeiro lugar para Geraldo Vandré no III FIC sinalizava o descontentamento com o rumo que o país tomava. Neste sentido, a derrota de Vandré significou a vitória do autoritarismo e da opressão. O público compreendeu a mensagem, e ao seu modo demonstrou o repúdio.

A autora é socióloga e mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia.

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Tecendo outra Justiça

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ivânia Vieira*

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) vive uma ameaça de retrocesso. Existe disposição forte dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) em promover o 'enquadramento' do órgão, visto por alguns ministros como detentor de poder excessivo. Há um coro de magistrados atuando nos bastidores nesse sentido sob a alegação de que o CNJ extrapola os limites da competência a ele atribuída.

É importante à sociedade organizada prestar muita atenção nessa manobra ora em realização, pois qualquer tentativa de inibir as ações do CNJ terá efeito extremamente nefasto para a população, vítima, em última instância, de um judiciário ancorado em vícios e comprometimentos menores.

Os atos do Conselho Nacional de Justiça enlarguecem a porta de acesso dos brasileiros ao judiciário, popularizam informações até então tratadas como se segredo de justiça fossem, investem em favor da transparência desse poder, um dos mais fechados do País.

Com o CNJ, uma maior parcela da sociedade aprende a debater o papel da justiça e do conjunto de servidores que a compõem. São os primeiros passos de uma longa caminhada a ser cumprida. O próprio Conselho torna-se naturalmente objeto do olhar crítico dos organismos representativos da sociedade a partir das audiências públicas, das inspeções e das metas anunciadas.

O engendramento para enquadrá-lo atende a interesses de um pequeno grupo afeito a um judiciário acima de tudo comprometido em assegurar uma feição de justiça, aquela por meio da qual esses mesmos interesses são garantidos e preservados.

O prédio dessa Justiça carrega na cor cinza, está fincado em terras profundas, tem paredes grossas e muitos dos atos dela ainda estão sob um manto obscuro. O CNJ é o mecanismo detentor do maior e do melhor potencial para construir a outra aliança, com as populações, e resignificar o papel do judiciário brasileiro.

Frear as ações dessa instância, tornando-a mais um órgão de cumplicidade, é pactuar com esse perfil de justiça, é inundar de angústia e desilusão a esperança tecida pelos brasileiros em especial aqueles vítimas da ausência da justiça, é atrasar por décadas a transformação que o judiciário do Brasil precisa e deve experimentar. Não são as causas do povo que mobilizam as vozes conservadoras e sim causas de uns poucos.

*Jornalista e Professora da Ufam.

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O Haiti e o Big Brother

Massilon de Medeiros Cursino*

Quando foi noticiado o catastrófico terremoto que assolou o Haiti, de imediato pensei na dor daquele povo que há muito já sofre com a miséria, com os conflitos internos e outras desgraças.

Procurei saber informações de um amigo que ali está servindo numa força especial de paz. Àquela altura, já circulava a notícia que ele estava bem. Nada obstante, busquei contato com sua esposa que confirmou que ele saíra ileso da grave tragédia que vitimou um número que equivale ao dobro da população da cidade de Parintins.

Dias depois, em passeio por Manaus, folheando um jornal dentro de um táxi, deparo com a foto do amigo militar. A manchete trazia uma frase que traduzia e sintetizava o sentimento de uma pessoa a serviço de uma causa: “Estamos resgatando nossos amigos”.

Fiz questão de mostrar aquilo ao taxista e orgulhosamente lhe disse que aquele militar era meu amigo de infância e meu conterrâneo. Arrepiei-me só de lembrar que o mais franzino dos amigos estava em meio de uma tragédia, agindo como gigante. Ao sentir que o taxista pouco se interessou pelo assunto, dobrei o jornal e deixei para terminar de lê-lo em outro local.

Cheguei à casa onde estava hospedado ansioso para mostrar a todos que meu amigo Algenor Filho, o “Kaika” era um herói. Um guerreiro que não abandonou o posto e continuava empenhado em salvar vidas. Ao abrir a porta da casa, encontro todos diante da televisão assistindo ao BBB 10. Eles discutiam sobre quem iria ao paredão e quem seria imunizado. A prova de resistência definiria quem seria mais forte e obstinado. Sem nenhum esforço, descobri até que o Serginho e o Dicesar haviam pedido ao Elieser mostrar suas partes íntimas.

Fiquei reflexivo, meditando sobre os valores. De um lado, o capitão que após uma tragédia persistia trabalhando entre escombros arriscando sua própria vida. Do outro, os “heróis” da ociosidade que estão numa confortável casa do Reality Show Global, comendo, bebendo, dançando, malhando, fofocando, traindo, expondo suas privacidades ao público para se tornarem estrelas. E o público pagando para ligar e opinar quem sai e quem fica.

Que bom seria se ao menos a arrecadação de um paredão, onde são feitas em média 15 milhões de ligações, fosse utilizada em prol de seres humanos entregues à própria sorte no Haiti!

*O autor é Economista, Bacharel em Direito e membro da Academia Parintinense de Letras.

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O lugar de pessoas

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ivânia Vieira*

Cenas instigantes se desenrolam dentro e no entorno do complexo viário Gilberto Mestrinho, na Zona Leste. Inaugurada no sábado (30), a obra é objeto da curiosidade popular - uma espécie de ponto turístico. Nesse caso, de um turismo antagônico, pois nega o prazer inerente a essa atividade. O complexo nasceu para escoar carros, numa cidade em asfixia. No sentido avenida André Araújo bairros uma placa informa a velocidade máxima permitida, 40 Km/h, arrastando motoristas impacientes que apostavam em mais espaço para correr quando a obra estivesse concluída.

O show de buzinas e do alarme das ambulâncias tentando abrir espaço onde não tem mais espaço é parte desse cenário pós-moderno. Pedestres, ignorados pela arquitetura do complexo, passam fugazmente entre a contemplação diante do novo e do medo de serem literalmente atropelados.

Alguns metros, na avenida General Rodrigo Otávio, usuários de ônibus estão entregues à própria sorte. Como nos velhos tempos, o ponto de ônibus não oferece nenhuma estrutura de proteção. Se faz sol, defendem-se colocando no alto da cabeça alguns pertences; se chove, a coisa piora, porque correr para as casas mais próximas pode significar perder o ônibus e aumentar a hora de espera.

É possível ver populares fotografando o amontoado de concreto. Um senhor, um desses fotógrafos, disse-me, com uma ponta de orgulho, que queria mostrar aos parentes dele “como a cidade cresceu”. Incluiu o complexo no roteiro de visitas para apresentar a eles quando vierem do interior.

Não há sinônimo entre o crescimento que pressionou gestores públicos a construírem passagens de nível, viadutos, passarelas... e o desenvolvimento. Obras, como o complexo viário, são a receita para resolver temporariamente um problema. O pior é a não inclusão dos pedestres. Se no passado isso era conduta normal, hoje as novas cidades são aquelas que incluem não apenas carros e construções e sim o lugar de pessoas.

*Jornalista e professora da Ufam.

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Um outro terremoto

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ivânia Vieira*

A poeira avança em grandes ondas para além do Haiti. Atinge o mundo e testa a sanidade dos humanos. Os escombros agasalham detalhes não percebidos pela imprensa na corrida fora de tempo por uma audiência forjada em velha receita.

Pelas janelas dessa que é a maior cobertura midiática de uma tragédia aparecem vidas em pedaços travando a outra batalha do pós-terremoto: gente sem condições de ir em busca de água e comida, gente se arrastando, de mãos elevadas para o céu, tentando alcançar a ração despejada do alto; centenas de meninos e meninas órfãos levados em massa para longe.

A dor diante de tantas mortes mistura-se à dor provocada por uma disputa infame pelo controle de um país destruído, ainda vivendo os efeitos de um longo período de escravidão. Os passos miúdos rumo à liberdade estão agora sob a ameaça de uma tirania internacional ora à espreita. Esse é um outro terremoto, caso a cidadania mundial não se mobilize para impedir a recriação de um Haiti colonia.

O mundo que tão prontamente se mobilizou para socorrer o povo haitiano está sendo traído pelo desejo insaciável de dominar, de ter o controle sobre outros povos. Esse tipo de poder não se constrange nem perde tempo para se revelar.

EMPATE
Diante desse espetáculo deprimente é no sorriso da missionária Zilda Arns que afagamos nossas almas. Ele carrega a força mágica da transformação. A ação pastoral de Zilda tornou-se um bem disponível para todo o mundo pobre e de boa vontade. É nessa mulher que acaba de virar mais uma estrela que está um outro poder, tão necessário na atualidade porque faz a vida prevalecer. Não exige a presença de senhores do mundo e sim um mundo humanizado.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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O amor pela arte

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Luís Eduardo Valois*

Estava no recesso do meu lar nesta tarde chuvosa de inverno amazônico, neste sétimo dia do primeiro mês, deste ano que encerra a primeira década do século 21, quando, ao acaso, assisti a uma reportagem que mostrava três jovens atores gaúchos (na verdade, duas atrizes e um ator), que atuavam na Paulicéia Desvairada, em plena Avenida Paulista. Pode não parecer nada de novo, mas eles praticam seu mister de uma forma inusitada, qual seja, vendendo cenas de teatro.

A maneira de praticar a arte cênica é realmente inovadora, os artistas portam uma placa com a frase “vendem-se cenas”, tal qual os sofistas que vendiam ensinamentos, mas, se aqueles filósofos eram tanto amados quanto odiados pela sociedade da época, os jovens gaúchos despertaram em mim uma grande admiração, por vários motivos, mas, principalmente, por acreditarem no que fazem e, por isso mesmo, fazerem com amor, no meio da rua da maior Cidade da América Latina.

A experiência forçou-me a transportar a experiência daqueles mambembes para a minha atividade profissional, tanto no magistério, quanto na advocacia. Sou daqueles professores que se envolve com a relação ensino aprendizagem, idealizo o dia em que todos estarão em sala de aula, professores e alunos, na busca incansável do saber, na procura da educação de qualidade e do aprendizado esclarecedor e crítico, pois, como sentenciava o saudoso Paulo Freire, “a educação não pode ser burocrática”, deve despertar sim, no aluno, o senso crítico daquilo que lhe é ensinado.

Muitos professores encaram o magistério, desde o ensino fundamental, até a graduação e o doutorado, como uma atividade menor, como uma coisa à qual os sucessivos governos têm tratado com descaso, porém, cientes disso, nada fazem para melhorar a situação, ao contrário, não se aperfeiçoam, não se atualizam, tratam os alunos mal, perdem a paciência, não inovam em suas aulas, não tentam minimizar os graves problemas que afligem todo o aparato educacional brasileiro e muitos até tratam o magistério como um “bico”, deixando que nobre arte de ensinar caia na vala comum da vulgaridade e da mediocridade.

Na advocacia, muitos causídicos vilipendiam a nobre arte de Rui Barbosa, seja patrocinando causas absurdas, esquecendo-se de que um dos deveres éticos do advogado é buscar ao máximo evitar o litígio, seja participando de maracutaias e de tramas estapafúrdias, que desonram não só a bela arte de postular, mas também todo o sistema jurídico pátrio. Não são raros, infelizmente, os casos de causídicos envolvidos em corrupção, em compra e venda de sentenças, em coação no curso do processo, tudo como infame objetivo de conseguir o ganho fácil, de enriquecer a qualquer custo, esquecendo-se de que um homem probo vale muito mais do que qualquer fortuna amealhada de forma inescrupulosa.

Tanto professores, como advogados e quaisquer outros profissionais, deveriam tratar sua arte como aqueles jovens atores dos pampas, com amor, com dedicação, com denodo, fazendo com que o exercício diário da profissão fosse realizado com a consciência de que o ser humano é bom, é solidário, é puro e, por isso mesmo, nobre. Oxalá um dia as mentes e corações e as ações dos homens sejam inundadas por iniciativas como a de vender cenas, para que, na singeleza do ato, possa ser dado um grande passo para a redenção da humanidade.

*Advogado e professor universitário.

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Perdão banalizado

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010


Ivânia Vieira*

Pedido de perdão deve ser um ato levado a sério. É um desses rituais da humanidade ainda detentor de credibilidade pública. Setores importantes da sociedade costumam prestar atenção e considerar um pedido dessa ordem. Mas, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, acaba de lançar na lama esse instrumento. Cobriu-se de demagogia ao recorrer ao estatuto do perdão, desqualificando um princípio, usurpando um direito para usá-lo como moeda política.

No último final de semana, as chamadas das principais revistas eletrônicas convocavam o telespectador a assistir ao pedido de perdão do governador do DF, um dos servidores públicos filmado recebendo dinheiro, supostamente propina. O que se viu na sequência dos programas foi um político irônico, diante das câmeras de TV, estufando o peito e afirmando ter perdoado seus acusadores. Por ter perdoado, ele também pedia perdão. Era um favor concedido pelo governador. O sorriso de Arruda deu o tom ao ato de cinismo protagonizado por ele para todo o Brasil.

O político mostrou, mais uma vez, não haver limite nesse tipo de trama. Ele, aparentemente encurralado, se colocou como o homem que perdoa seus algozes. “Quero dizer de coração que já perdoei todos que me agrediram. Eu perdoo a cada dia os que me insultam”, declarou o governador.

É uma provocação! Afinal, somos nós os agredidos e insultados. Os nós da trama continuaram a ser dados nos dias seguintes. As comissões criadas, na Câmara Distrital, para investigar o governador têm nos cargos-chaves aliados e ex-colaboradores dele.

Arruda continua sorrindo e perdoando. Seus comandados aparecem, nos noticiários das TVs, com a testa franzida, enquanto a investigação anunciada sobre o ‘Mensalão do DEM’ está sob o risco de ser engessada.

Perdoar, nesse caso, é também assegurar punição legal e legítima aos culpados.


*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A chegada das crianças

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


Ivânia Vieira*

Um ano de muitas perdas. Dessas impossíveis de se repor. Assim é, para mim, uma das faces de 2009. A cada dia um passo miúdo para lidar com a não-presença, com a impossibilidade da conversa, do confronto de ideias e do encontro. Uma espécie de estrada longa, sem ter um ponto final. Apenas saudade.

E nessa caminhada algumas revelações sobre a arte na renovação da vida. Tantas crianças chegaram, obrigando-nos a ter novos hábitos, relembrar antigas maneiras, reorganizar espaços e fazer festa para traduzir a alegria de tê-las entre nós.

Essas crianças são como uma corrente, pois com elas chegam mães, tias de fato e aquelas emprestadas, avós... Enfim, elas enredam a vida dos jovens, dos adultos, dos idosos em torno desse começo de existência.

Há, nessa véspera de 2010, um novo significado e muitas razões para celebrar a vida. Sim, tem a saudade doída por aqueles e aquelas que não mais estarão conosco e, nesses momentos, seus rostos e gestos serão recordados. Com uma descoberta: as crianças estão aqui, barulhando em nome da existência.

Criança é símbolo magnífico. Residem nela o significado, o sentido e a abundância de viver, de proteger, de lutar por um mundo onde elas tenham espaço melhor e mais saudável. O caminho percorrido entre perdas abriu trilhas para enxergar tantas criaturinhas reatando elos.

Compreender os movimentos que tecem essa rede é um desafio enorme porque nos exige parar, refletir e tentar ampliar a lente do olhar para além de nós mesmos e da dimensão material da vida.

Nos olhos tão brilhantes dessas crianças - chegadas como um novo presente - tem um universo encantador nos convidando a mergulhar nele e experimentar a alegria de poder superar e comemorar uma outra etapa, de conquistas, de passos miúdos como os das crianças que estão aprendendo a andar, levantar após as quedas e sorrir porque um novo passo está sendo dado.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A surra no povo

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ivânia Vieira*

A Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal de Manaus acabam de repetir um exercício antigo e, não raro, com efeito indigesto de longa duração para a sociedade. Demonstram um alto grau de dependência ao Executivo e pouca importância aos eleitores e à sociedade.

Ontem, as duas Casas deram uma surra no povo. Ao concordarem em votar apressadamente matérias de relevância às vésperas de um recesso, expõem a estreita democracia cultuada pelo Executivo e o Legislativo do Amazonas. A agilidade na análise dessas matérias não corresponde à desenvoltura, é ressignificada como postura servil de um poder, de alinhamento absoluto, pois a oposição - uma exigência do jogo democrático - não oferece riscos, não ameaça o já estabelecido e tem minguado.

Na pauta da Assembleia Legislativa, estavam a autorização para o Governo do Estado emprestar mais R$ 200 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o pacote de obras da Ponte sobre o rio Negro, e R$ 142 milhões da Caixa Econômica destinados a obras da versão estadual do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Na da Câmara Municipal, propostas de alteração na cobrança do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e do Sistema de Limpeza Urbana, nome dado pela prefeitura para o já batizado projeto da taxa de lixo. Todas as matérias foram aprovadas, com larga vantagem e muita opacidade. Prevaleceram os interesses dos governos estadual e municipal. Foi negado à população o direito de conhecer as propostas e discuti-las. Afinal, é na vida dela que se dará o efeito das decisões tomadas por deputados e vereadores.

A tática de aguardar o apagar das luzes para aprovar propostas polêmicas nas quais repousam muitos pontos obscuros está entronizada. Se para alguns eleitores a chicotada dói, é momento, de novo, de eliminar os analgésicos, anotar nomes e condutas e preparar-se mais para as eleições de 2010. Se a indignação é do tipo resignada, então eles estão certos.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas.

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É mais sério

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Ivânia Vieira*

Há uma precarização das instituições no Amazonas. Talvez, alguns se apressem a alegar ser esta uma condição real em todo o País. Têm razão. Mas vale, aqui, o recorte para o Estado e a lembrança necessária sobre os mais recentes episódios envolvendo a Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça, o Ministério Público e o Tribunal Regional Eleitoral.

Em tornos desses órgãos vêm sendo feitas denúncias graves. Estranhamente, após o efeito explosivo dessas falas, há uma acomodação no mínimo esquisita porque não elimina de forma transparente a suspeição lançada. Ao contrário, o silenciamento ou, no máximo a defesa pela metade, reforça a sensação do descrédito e da fragilidade a qual essas organizações vêm sendo submetidas.

Hoje, a opinião pública assiste a procedimentos que deveriam provocar ações rigorosas e imediatas de investigação a fim de não permitir o enraizamento da suspeição. Mas a conduta tem sido outra.

Em julho deste ano, o deputado estadual e ex-prefeito Wilson Lisboa afirmou que o Tribunal Eleitoral do Amazonas faz leilão de decisões, disse também que a Justiça do Estado está “entre as mais corruptas do Brasil”. E deixou uma questão: “Quanto custa cada decisão é uma incógnita”.

Na segunda-feira (14), um outro deputado, Liberman Moreno, declarou: “há uma ligeira sintonia entre quem manda e o que o MP faz”. Para Moreno, o órgão age por encomenda.

Ontem, o deputado Ângelus Figueira, em discurso na Assembleia Legislativa, disse “para mim, este juiz (Ari Moutinho, presidente do TRE-AM) não é ético. Como permanecer ali sem se julgar suspeito? O vínculo da família com o governador é antigo”, depois de aponta uma “relação político-partidária promíscua e nociva” entre o presidente dessa Corte e o governador do Estado.

O material produzido pelos parlamentares é farto. Atinge duramente tais instituições. A responsabilidade nessa conduta é clara, afinal, são servidores públicos, detentores de um mandato popular, os protagonistas das denúncias. Apostar no ‘esquecimento’ pode resolver questões de uns poucos, mas atenta contra as instituições e os interesses da sociedade com os quais todas elas têm compromisso constitucional.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Aprender para resistir

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

"Corrupção faz mal porque
apodrece a pessoa ao retirar dela a dignidade e o direito à voz."

Ivânia Vieira*

Levar o debate sobre corrupção para o meio popular é uma exigência da humanidade. Há uma aliança, construída pela ignorância, cumplicidade, afinidade e habitus, entre a cultura da corrupção, corruptores e corrompidos. A escola ensinou ser natural o exercício dessa prática. O suborno prevalece como princípio de vida e é apresentado às crianças desde muito cedo como regra de convivência na sociedade.

Quem suborna melhor ganha prêmios, costuma se tornar referência - uma espécie de consultor sobre como se dar bem na vida - e pode até ganhar mandatos, legitimados pelo voto popular. O desafio é levar adiante ações capazes de desconstruir essa concepção. Não é uma tarefa fácil e de curta duração. Ao contrário, exige investimentos permanentes, visibilidade e apropriação do assunto como objeto de discussão o mais amplamente possível.

Hoje é um dia de mobilização internacional contra a corrupção. Uma experiência recente que tem no Brasil participação ativa para a definição dessa data. Eis aí um dado interessante, pois parcela expressiva de brasileiros costuma citar o País como o lugar da corrupção, mas dificilmente se pergunta o que faz sobre essa situação. Prefere a pseudo-indignação do tipo “não tem jeito de mudar”. Eis uma cumplicidade eficiente para impedir mudanças.

A Organização das Nações Unidas estima em 110 o número de países que assinaram a Convenção contra a Corrupção, no ano de 2003, na cidade de Mérida, México. No Brasil, desde 2005, o texto tem força de lei. Falta ganhar as ruas, as escolas, as igrejas, os bares, as praças virar a outra marca que alguns querem impedir de o País ostentar. Corrupção faz mal porque rouba o dinheiro público (e é preciso aprender sobre os efeitos desse roubo). Corrupção faz mal porque apodrece a pessoa ao retirar dela a dignidade e o direito à voz. Será apenas uma coisa, marcada por um preço.
*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A cueca e o dinheiro

Massilon de Medeiros Cursino*

O uso da cueca é um hábito antigo, provavelmente iniciado pelos Celtas no século VI da era Cristã. Já o dinheiro é mais antigo. Suprimiu o escambo, séculos antes de Cristo.

Apesar da distância temporal quanto ao surgimento, ambos têm uma relação muito próxima; basta lembrar que quando o dinheiro está no bolso masculino ele está separado da cueca apenas por um fino pano.

A política tem estreitado sobremaneira esta relação. Na década de 40, o deputado carioca Edmundo Barreto Pinto tornou-se pioneiro da cassação por quebra de decoro parlamentar, ao posar só de cueca para o famoso fotógrafo Jean Manzon da Revista “O Cruzeiro”.

Nessa relação surgiu um elemento a mais, o dinheiro. A cueca passou a ampliar seu leque de utilidade, servindo também de transporte de valores, com risco mínimo de perda. No máximo uma patologia de pele, enquanto torce-se para que não haja por perto um detector de alta tecnologia ou uma câmera de filmadora.

PT e DEM, divergente nos ideais políticos, demonstraram que em seus quadros existem pessoas que compartilham da idéia de ampliar a utilidade da cueca, que vai muito além de moldar e acomodar as genitálias.

José Adalberto Vieira da Silva, assessor do deputado cearense José Nobre Guimarães, petista dos mais genuínos, foi flagrado, em 2005, transportando 100 mil dólares, dinheiro este que, segundo conclusão do Ministério Público Federal do Ceará, era propina proveniente de um contrato de financiamento em investigação, de R$ 300 milhões, fechado entre o BNB (Banco do Nordeste) e o consórcio Alusa/STN (Sistema de Transmissão do Nordeste).

O escândalo envolvendo o Governador do Distrito Federal, seus assessores e empresários produziram imagens vergonhosas envolvendo pessoas, dinheiros e cuecas. O empresário Alcyr Collaço aparece colocando maços de dinheiro na cueca.

Vêm à tona escândalos e lá está a cueca para ser citada e acusada de guardar dinheiro ilícito. Enquanto isso o bolso não contem seu desconforto em saber que está perdendo espaço e atribuição. Os estilistas de vanguarda já pensam até em produzir cuecas com bolsos para evitar o contato do dinheiro sujo com o pinto!

*Economista, Bacharel em Direito e membro da Academia Parintinense de Letras- APL.

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A promessa de Tucuruí

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Massilon de Medeiros Cursino*

Quando o ex-prefeito de Parintins Carlinho da Carbrás falou em linhão de Tucuruí, todos acharam ser mais um dos seus devaneios. Parecia um ente profético pressagiando, faltando-lhe apenas um manto e a longa barba para haver verossimilhança aos seres que anunciavam os propósitos divinos.

Cheio de ira e cólera, alimentada por uma assessoria que já o acordava contando o dito nas rádios cipós de beira de esquina, o alcaide bradava e desafiava aqueles descrentes de que o progresso um dia chegaria. Um ser messiânico, um protótipo ou versão moderna de Antônio Conselheiro da Amazônia.

Carbrás não ousou dizer que o sertão viraria mar, nem que o mar viraria sertão. O que fez foi desvendar que a senha para solução do problema energético de Parintins e do Estado seria o tal linhão de Tucuruí, que deixava de ser um assunto restrito aos livros de geografia para se tornar o grande mote político.

O desenvolvimento e o progresso passariam obrigatoriamente pela mudança da matriz energética. E a saída seria a extensão procedente da usina de Tucuruí.

Talvez todos saibam que Tucuruí é uma cidade paraense situada à margem do rio Tocantins, onde foi construída a maior hidrelétrica brasileira em potência, 8370 MW (megawatt). O que é provável que nem todos saibam é que o nome “tucuruí” significa rio das formigas. Sim, daquele inseto que vive em sociedade e está em todo lugar a perturbar ou aporrinhar nossa vida e pós-vida.

Se louco foi quem pensou, o que dizer de quem prometeu tornar concreta a loucura?

Se o dito louco tinha razão, infere-se que quem de público prometeu teve boa intenção. O certo é que até o presente, o que se sabe é que o linhão vai passar pela outra margem da sede do município de Parintins, dando adeuzinho aos sonhos alimentados há mais de uma década.

Já que formiga ferra, por que não admitir que nós nos ferramos? Ou quem sabe, talvez um dia o linhão venha atravessar o rio Amazonas, que é um rio de águas barrentas e não de formigas?

Não custa nada acreditar. Sejamos perseverantes e alimentemos esperança, afinal, como disse o Presidente Lula ao chegar ao poder, após três derrotas consecutivas: “A esperança venceu o medo”.

Não tenhamos medo da interrupção de energia elétrica. Pelo tempo de existência do problema já estamos habituados aos apagões e aos prejuízos que ele produz.

Como escreveu Thiago de Melo: “Faz escuro, mas eu canto”.

* Economista, Bacharel em Direito e Membro da Academia Parintinense de Letras.

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Uma boniteza de fila

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Ivânia Vieira*

Sábado (28 de novembro), no bairro Itaúna, em Parintins (AM), uma aglomeração humana em estado de alegria ignora solenemente o sol forte e o calor intenso. Prefere organizar-se em uma espécie de fila dançante e aguardar ansiosa pela hora de escolher um livro.

Crianças, jovens e adultos compunham a ‘fila do livro’ em frente a escola municipal Irmã Cristine. Em poucos minutos, estavam diante de uma mesa sobre a qual vários títulos espalhados podiam ser tocados, folheados, levados como presentes autografados por alguns autores, como os jornalistas Wilson Nogueira, Mazé Mourão e Neuton Corrêa, este em dia de lançamento do seu ‘Entre Linhas’.

A imagem, não acertada, é fantástica. Zomba da verdade reducionista e altamente comprometida com a mesmice de que as pessoas no Amazonas, em particular e, no Brasil, em geral, não gostam de livros nem de leitura.

Pois, ali, foi o livro o grande mobilizador das atenções. Uns chegaram na motocicleta, outros usaram bicicleta e muitos caminharam até à escola para conhecer escritores, conversar com eles e receber livro. Pouco depois, era possível vê-los carregando a prenda no lugar mais cuidadoso.

A vida de repórter nos proporciona ver as mais humilhantes filas as quais tantas pessoas são submetidas na condição de esmoleiras, sem dignidade e colocadas como miseráveis sociais. Quantos votos não foram comprados nesse universo da política menor?

Por isso, poder ver pessoas reunidas em torno de livros e leituras é como desenhar um sonho e insinuar-se em direção a uma outra possibilidade. É assim a sensação diante de uma das tantas faces do Festival Literário Internacional da Floresta (Flifloresta). No Careiro da Várzea, as pessoas chegaram à sede do município transportadas em canoas e barcos. Em Parintins, onde o festival fez a sua estreia na última semana, uma multidão enamorou-se do circuito literário, bailou com ele e decidiu ser aliada da grande conspiração, agora, impossível ser silenciosa porque escreve em tom maior um outro capítulo na nossa história.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Cultura & violência

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ivânia Vieira*

Artistas populares têm sido acionados, com frequência, para animar festas no interior do Brasil e dar uma mãozinha a pré-candidatos a cargos eletivos. Prefeituras dos municípios amazonenses entraram nessa ‘moda’. Até aí nenhuma novidade. Afinal, é essa a cartilha que uma leva de administradores públicos em todo o País segue. Eleitores e simpatizantes batem palmas e dançam miúdo, quase felizes, sob o ritmo dos contratados.

A questão é: quem paga a conta? A verba pública tem sido fartamente usada para quitar dívidas contraídas com artistas na rubrica da cultura sem a devida transparência. Alguns artistas que aparecem na mídia nacional, como beneméritos, cobram alto para fazer festa na periferia do Brasil. Muitas prefeituras aceitam pagar o cachê e cumprir uma lista de exigências num ato de desrespeito ao contribuinte e à população.

Artistas não estão imunes à cobrança da transparência. Pela estreita relação que têm com o público são convocados cada vez mais a uma conduta cidadã. Ou seja devem zelar para não fazer parte do saque ao dinheiro do contribuinte. Essa história de ser boa gente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Bahia... e arrancar o dinheiro dos pobres da periferia brasileira tem que ser exposta e confrontada. Há um ralo nessa área que exige maior atenção para conter o derrame da verba pública em nome de ‘investimento em cultura’.

‘Nosso corpo’
Hoje, em mais de cem países, feministas organizam manifestações pelo fim da violência contra mulher. O 25 de Novembro é uma data símbolo nessa luta. Em Manaus, as mulheres reúnem-se em frente do Tribunal de Justiça, de 9h às 11h, para reivindicar o cumprimento da ‘Lei Maria da Penha’. Às 12h, na Ponta Negra, um ato vai recordar as mulheres assassinadas na cidade. Este ano, o slogan do movimento é ‘nosso corpo, nosso território, pela liberdade das mulheres e pelo fim da violência’. Nesta cidade, são 800 registros mensais feitos na Delegacia da Mulher.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Testando a vontade

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ivânia Vieira*

Na segunda-feira (23), às 8h30, a Assembleia Legislativa do Estado abriga um encontro singular: a discussão e adesão ao Pacto Nacional de Política para as Mulheres. O Amazonas terá a oportunidade de abrir a porta para tornar real e visível a convenção em torno de uma política para as mulheres desse lugar.

O Estado tem andado lentamente quando assunto é Política para as mulheres. Arrasta o passo, retarda a tomada de decisão, coloca o tema em segundo plano e, ao fazer isso, torna-se cúmplice e parte dos atos de violência dos quais as mulheres são vítimas. O Brasil já vive a segunda fase do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres enquanto o Amazonas ainda olha o déficit em relação ao primeiro.

A mobilização que ora ocorre faz desse encontro de segunda-feira um teste do tamanho da determinação política dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário quanto à execução do PNPM em sua versão estadual. De um lado, ela é fruto da pressão das organizações do movimento feminista e, de outro, da sensibilização das parlamentares estaduais e de uns poucos deputados em fazer da pauta da rua uma pauta da Casa e para a Casa.

A situação da mulher no Amazonas exige ser vista com lente ampliada pelos indicadores graves que ela representa em vários aspectos. Não há uma política efetiva para gerar emprego e renda e ampliar as oportunidades a um grande número de mulheres. A falta de creches públicas produz um efeito desestabilizador para aquelas que têm filhos e estão sozinhas na tarefa de cuidar deles. No setor de saúde, é preciso ampliar os espaços e garantir atenção humanizada.

Em meio aos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher - que tem no 25de novembro a data referência - é fundamental vigiar para impedir que a retórica prevaleça. A condição de existência negada a centenas de mulheres nesse Amazonas exige escrever um outro capítulo na nossa história, aquele que provoca mudança.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Jornalismo: Diploma pra quê?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Massilon de Medeiros Cursino*

Antes de definir a minha primeira graduação, uma certeza já tinha em mente, Comunicação Social não faria jamais! Jornalismo seria a última opção que visualizava. A minha timidez e a falta de uma boa dicção me afastavam qualquer possibilidade de enveredar por esse curso das Ciências Humanas.

Em quase toda minha vida estudantil, pelos mesmos motivos, sempre pedia para ser eximido de fazer apresentação oral em seminários, debates e outras tarefas do tipo. Para compensar era indicado para escrever as sínteses dos trabalhos, atribuição que me rendeu inicialmente redigir os pleitos do Centro Acadêmico, depois a redação de artigos no jornal da faculdade, chegando à mensagem e ao agradecimento incluso no convite de formatura.

Nas duas oportunidades seguintes de graduação, nem de longe conjeturei pelo jornalismo, não obstante no contexto já ter sido identificado o meu apego à redação de textos e artigos.

Hoje, já são 221 artigos, crônicas e editoriais publicados em jornais locais, jornal e revista do sindicato da minha categoria profissional, sites, blog e outros. O destino silenciosamente me fez descobrir que quanto mais eu buscava a fuga, mais me tornava presa do que temia por discrição. Entretanto, sinto que aquilo que presentemente exercito com extremo diletantismo poderia ser mais apurado se tivesse recebido as técnicas de jornalismo, oferecidas na academia. Apesar do esforço, reconheço falhas elementares, que dificilmente conseguirei superar por diligência pessoal de autodidata da área. Mesmo com mais de duas centenas de publicações, confesso que não me sentiria confortável em um dia ser chamado de Jornalista. Isso seria como uma espécie de “apropriação indébita”, um estelionato profissional.

Infelizmente, os ministros do Supremo Tribunal Federal, o Pretório Excelsior da Justiça brasileira, não entenderam assim quando decidiram que o diploma de Jornalismo não se faz obrigatório para o exercício da profissão. Quiçá, o entendimento dos ministros tenha sido embasado na analogia, uma vez que para ser ministro do Supremo, o artigo 101 do mandamento constitucional pátrio não obriga a formação acadêmica em um Curso de Direito, contudo, estabelece como requisito, que o candidato à vaga seja dotado de “notável saber jurídico”.

A pergunta que fica é, como se ter saliente saber da ciência jurídica sem se ter passado por uma formação acadêmica de Direito? Nessa esteira, só espero que futuramente charlatões e curandeiros não requeiram que para o exercício da Medicina, o diploma de médico seja prescindível!

*Economista, Bacharel em Direito e Membro da Academia Parintinense de Letras.

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Desemprego feminino

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Ivânia Vieira*

Números divulgados por organismos internacionais nos últimos dias de outubro mostram um quadro extremamente difícil para mulheres e crianças em todo o mundo.

Na América Latina e Caribe o desemprego urbano atingiu 8,5% no segundo trimestre deste ano. Os dados são da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que não projetam mudança de cenário até o final de 2009.

São mais 2,5 milhões de pessoas desempregadas nos países da América Latina e no Caribe. O número total dos sem emprego na parte urbana dessa região somaria 8,4 milhões, informa o boletim conjunto dos dois organismos intitulado ‘Conjuntura laboral na América Latina e Caribe: Crise nos mercados laborais e respostas contracíclicas’. No ano passado essa taxa ficou em 7,5%.

Mulheres e crianças são as mais afetadas pela expansão do desemprego. Representantes da OIT falam da necessidade de “aumentar a igualdade de acesso e as oportunidades em relação ao desenvolvimento de competências laborais”.

Há coincidência de dados na abordagem desse tema. Publicada de cinco em cinco anos, a Pesquisa Mundial sobre o Papel da Mulher no Desenvolvimento, sob responsabilidade do Departamento de Assuntos Econômicos e sociais das Nações Unidas (ONU), identificou que os salários para as mulheres são 16,5% inferiores aos dos homens. O estudo aponta que na América Latina, mais da metade das pessoas sem renda (entre 20 e 24 anos de idade), executam trabalho doméstico não remunerado. Nesse segmento, é alta a presença das mulheres cuidando de crianças, doentes, idosos e outros membros da família.

A pesquisa coloca como questão de urgência repensar estratégias de crescimento e de capacitação econômica das mulheres como um posicionamento firme diante dos efeitos da crise econômica. Em Manaus, durante o 1º Encontro de Mulheres da Floresta (Emflor), nos dias 19, 20 e 21 de outubro, essa foi uma das reivindicações feitas. Falta a resposta governamental.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A sucumbência de um soldado da malária

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Massilon de Medeiros Cursino*

Moribundo, com a tez cianosada e pálida, inerte a tudo como quem está viajando em seus pensamentos. Mais um soldado se despede dos seus. Desta vez não mais retornará para contar as estórias e bravatas de quem combateu com coragem o exército inimigo.

Sem o seu fardamento cáqui, sem seu par de botas pretas, sem sequer seu boné que ostentava sobre o quepe o mapa do Brasil. Diferentemente de outrora, também não estava mais armado com sua bomba de burrifo em que sempre carregava a mistura à base de Dicloro Difenil Tricloroetano, o DDT.

Como membro da fileira de um exército, tinha que enfrentar, além da saudade dos familiares, o rio, a mata fechada e as intempéries da densa floresta tropical. Ia ao encontro hostil para afrontar um combatente minúsculo, porém de uma agressividade funesta. O opositor era um pequeno inseto, culicídeo do gênero anópheles que se agigantava por ser o transmissor de uma doença parasitária de evolução crônica, a malária ou maleita. A doença que se tornara a mais expressiva das endemias tinha que ser combatida com o rigor de um exército preparado para uma verdadeira guerra.

A maior altivez do soldado da malária era poder dizer que não havia uma residência, por mais longínqua que fosse, sem registro da sigla de sua campanha e a respectiva numeração de controle.

O DDT utilizado para chacinar o anopheles que transmitia o impaludismo era o veneno amigo, pois já havia evitado milhões de mortes e inspirado até um Prêmio Nobel. No entanto, como também ocorre em outras guerras, o companheiro pode vir a se tornar o próprio algoz. Assim se procedeu com o DDT, que acabou por exteriorizar sua outra face.

O tempo se encarregou de promover um novo desafio ao combatente. O soldado, não mais com sua juventude e força, teve pela frente mais uma contenda, muito mais forte que aquele minúsculo inseto, além de que apresentava uma feracidade capaz de sobrepujar rapidamente seu contendor. Desta forma, o soldado se fez traído por aquele que sempre julgou ser seu maior aliado, através de uma detração irreparável.

O soldado Zé Assis foi mais uma vítima. Partiu ao encontro de seus companheiros de luta. São todos heróis anônimos, Homens que sacrificaram suas vidas na defesa da vida de seu povo. Eles singraram os rios, embrenharam-se nas matas e venceram uma longa guerra, todavia, saíram feridos de morte pelos furúnculos e sarcomas.

Diante de uma cena que se torna cada vez mais comum, na qualidade de órfão de um soldado da malária, que sentiu na pele a mesma dor que ora vivem os familiares do senhor Zé Assis, imploro providências ao poder público, ao Ministério da Saúde, a reparação das seqüelas que essa guerra causou a seus combatentes. Isso é o mínimo a exigir, em nome de quem com muita altanaria sacrificou a própria vida para cumprir um fiel dever de Estado!

*Economista e bacharel em Direito.

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Lei para fotos

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Wilson Nogueira*

Legisladores franceses e ingleses querem regulamentar o uso de fotografias adulteradas em material publicitário, editorial e artístico. A medida deve ser seguida por outros países, porque se trata de um fenômeno de escala planetária. Poucos anônimos e celebres resistem ao uso do Fotoshop, o programa mais utilizado para retocar e modificar fotografias, para melhorar a imagem. Os produtos e informações não estão fora dessa modalidade de fraude. Os dois países querem se prevenir, acima de tudo, contra a indução à bulimia e à compulsão por cirurgias plásticas.

A autora da lei francesa, Valérie Boyer, propõe que a fotografia fotoshopada esteja acompanhada do seguinte esclarecimento: “Essa fotografia foi retocada para modificar a aparência física de uma pessoa”. É bem provável, caso a proposta vire lei, que todas as capas de revistas masculinas venham a circular com esse carimbo. Na Inglaterra, estão em debate possíveis restrições ao retoque de imagens de campanhas publicitárias dirigidas a menores de 16 anos. Está em curso uma ofensiva contra a correção das imperfeições da imagem, para atender a certo padrão estético, cuja função é excitar o consumo de alto padrão.

Ao ler essa matéria na Veja (edição 2135), lembrei-me dos santinhos dos candidatos em campanha eleitoral. Há casos em que a fotografia impressa no panfleto é apenas uma vaga lembrança da imagem física do candidato. Por isso, a fotografia, que deveria representar a realidade, transforma-se numa obra de ficção. Assim, muitos eleitores escolhem seus candidatos pela falsa aparência. Compram gato por lebre e, por isso mesmo, correm o risco de ser representados por pessoas inescrupulosas.

No meio editorial, os exemplos estão nas bancas de revistas e jornais da esquina, no outdoor e na tela do computador. Modelos femininos e masculinos perfeitos. Magérrimos! É dessa forma que se movimenta o mercado editorial, publicitário e artístico. Se o Brasil viesse a adotar uma lei idêntica à pretendida pelos franceses, faltaria tinta para carimbar tanta advertência a leitores e demais usuários dos meios de comunicação.

Enquanto uma regulamentação específica sobre esse tema não chega por aqui, vale a pena dar uma espiada no Código de Defesa do Consumidor, que ganhou a fama de ser o mais completo do mundo, para verificar se há algum artigo que possa enquadrar, penalmente, aqueles que adulteram imagens para enganar e obter lucros. Em termos de mercado editorial, o correto mesmo é falar em muitíssimo lucro!

Aliás, é bom lembrar que ninguém está impedido de ganhar dinheiro com obras de ficção, desde que elas se apresentem como tal.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Crianças e sustentabilidade

Ivânia Vieira*

Nesses dias, algumas questões têm acelerado minhas inquietações quanto ao presente de centenas de crianças e o futuro incerto de tantos adultos. São, hoje, as crianças sem escola do Parque São Pedro, da Praia Dourada e da comunidade Tambor, para falar apenas de algumas dezenas delas. Criança fora da escola não é fato isolado. Ao contrário, expõe uma situação ampliada de abandono. Ao mesmo tempo, o Amazonas se apresenta ao mundo com um dos mais arrojados discursos em defesa da sustentabilidade. Não combina uma situação com a outra. São antagônicas.

O tempo sem escola é uma agressão à trajetória de vida desse universo de crianças. Junta-se a ela, a condição inóspita em que vivem. Não é a pobreza do Estado a geradora dessa realidade, mas a ausência de vontade política dos governos, a maioria deles mergulhada em escândalos de desvio de recursos públicos. Há também uma cultura de conveniência co-alimentada pelos demais poderes pouco incomodados pela nossa frágil cidadania.


DESABRIGADOS
No próximo ano, o mundo terá aproximadamente 50 milhões de ‘desabrigados ambientais’. A denominação, dada pela Organização das Nações Unidas (ONU), engloba as vítimas de tempestades, da degradação da terra, das queimadas, da redução da quantidade e da qualidade da água. Mulheres e crianças formam a grande massa de desabrigados, informa a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi).

A Organização Mundial da Saúde (OMS), chama atenção para os 4 milhões de crianças, com idade abaixo de cinco anos, que morrem anualmente em consequência dos desequilíbrios ou acidentes ambientais. As causas citadas pela OMS são as mais diversas, dentre as quais a poluição do ar e da água, exposição a substâncias químicas, furacões e enchentes, que provocam envenenamento, diarréia, cólera e malária, infecções respiratórias e outras doenças. Esse é um quadro do mundo e está muito perto de nós, basta olhar as margens dos hospitais públicos, as ruas e a periferia desta cidade.

*Jornalista de A Crítica e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Travessia feminista*

sábado, 24 de outubro de 2009

Ivânia Vieira**

O movimento das águas traduz, em parte, pensamentos e decisões da maioria das mulheres reunidas em Manaus, no 1° Encontro de Mulheres da Floresta, cujo encerramento ocorrerá no final da tarde de hoje, no ICHL/Ufam. Nos dois primeiros dias de conversação, um dado comum na fala das mulheres do interior amazônico são os efeitos da enchente e da seca na vida delas e das famílias desses lugares.

Em pouco tempo, viram casas e pequenas plantações invadidas pelas águas, destruindo anos de trabalho, a pequena base de sobrevivência construída e sonhos desenhados. As marcas da enchente estão lá, ainda fortes, e a seca já instala outros sinais, impondo mais perdas. No lugar do lago tem a terra rachada, a plantação de quintal sucumbe, os animais estão morrendo e acesso à água exige, hoje, percorrer muitos quilômetros.

A venda de doces, das frutas, de pé-de-moleque, dos bombons, produzidos pelas mulheres (que são um importante suporte na renda familiar), tornou-se mais difícil. Para muitas delas, impossível, com relataram as moradoras da Ilha do Baixio (AM), na tarde da última segunda-feira.

O efeito desses fenômenos somado a inexistência de um plano que inclua de fato as famílias por eles atingidas é devastador. Recai nas costas dessas mulheres um fardo enorme. São elas que juntam a terra partida, a água escassa e as raízes ressecadas para apostar no dia seguinte como um campo capaz de produzir vida.

Nesses dias de Emflor muitas pautas envolvendo mulheres, crianças, água, pesca, sustentabilidade estão postas para os meios de comunicação e aos pesquisadores. Quais são, por exemplo, os impactos da enchente e da seca na agricultura familiar do Amazonas? Em que nível e circunstância se dá a presença governamental? Sobre os grandes e médios projetos/programas os números das perdas são apresentados, o prejuízo é fartamente visibilizado e influenciam nos acordos para reduzir perdas. No caso dos pequenos agricultores a invisibilidade demarca a existência deles.

O encontro de mulheres da floresta será concluído com algumas decisões em defesa de políticas públicas, reposicionando-se para fazer valer o documento final, mas acima de tudo, assegurar voz e vez a essas mulheres protagonistas de uma história ainda não revelada.

*Publicado na quarta-feira, dia 21, no jornal A Crítica.
**Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.
Ilustração: Arte-Gusmão-Jornal A Crítica.

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Terra de crianças e mulheres

quarta-feira, 14 de outubro de 2009


Ivânia Vieira*

Perto de completar seis anos de existência, desde a ocupação de dezembro de 2003, o Parque Residencial São Pedro embala uma história de resistência. E aqui a expressão resistência é sinônimo de reação à força opressora traduzida na ação dos políticos de várias matizes, habituados a tratar os pobres como depósitos de migalhas oferecidas por eles em troca de votos e na omissão dos representantes do Executivo estadual e municipal naquilo que é estritamente de responsabilidade desse poder.

No bairro, moram aproximadamente 6 mil famílias (perto de 30 mil pessoas). As crianças são a fartura e a denúncia viva do descaso oficial. A maioria delas estuda em locais absurdamente abafados e de estrutura brutalizada. Alguns locais-escolas são chamados de ‘presidiozinhos’. Algumas dezenas de crianças estão fora da escola.

Na área da Saúde, não há estrutura de atendimento. A prevenção é feita apenas por meio de mutirões. O hospital mais próximo está a 15km do bairro.

A resistência se realiza na luta dos moradores, a cada passo dado nessa difícil caminhada da comunidade para fazer valer a justiça e a paz em um universo minado. Várias famílias rejeitam as negociatas dos compradores de votos e têm a coragem de construir uma outra estrada, rejeitando o papel de miseráveis agradecidos pelo sopão ou porque fizeram, por alguns minutos, parte de uma atormentada plateia de TV. Elas brigam por mudanças de fato.

Uma das conquistas do São Pedro, do Jesus Me Deus, do Riachuelo, é o Movimento Nacional de Luta pela Educação (Monale). Nascido naquele território do abandono, promove vidas e avançou para outras cidades brasileiras.

Ontem, durante conversa com estudantes de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em visita à comunidade, Antônio Fonseca, um dos coordenadores do Monale e dos fundadores do bairro, declarou, como lembrança providencial para a história: “Essa é uma terra conquistada pelas crianças e as mulheres”.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Para além das entrelinhas

Wilson Nogueira*

O ritual da prisão do ex-deputado Wallace Souza e seus desdobramentos devem ser lidos muito além das entrelinhas. O relato dos acontecimentos em si é superficial, não dá conta do que subjaz nas decisões, nos gestos, nos cenários e nas cenas que envolvem esse rumoroso caso. Da condição de político paparicado pelo establesment, consagrado pelas urnas e influente no jogo do poder, Wallace tornou-se, de repente, um marginal perigoso.

Cabe à Justiça julgá-lo culpado ou inocente das acusações que lhe pesam sobre os ombros. Política e moralmente ele já foi condenado. O que a sociedade exige, a partir de agora, é que a Justiça aja conforme o melhor direito e a consciência mais acurada. Quanto ao que está posto na imprensa, o ex-deputado teria poucas chances de se livrar de uma punição a longos anos de cadeia. Ele poderia estar envolvido ao menos em 17 assassinatos, com a formação de quadrilha e com o narcotráfico. As evidências de que se trata de uma pessoa má são robustas.

O que impressiona é que esse cidadão, dono desse perfil aterrador, tenha transitado com tanta desenvoltura, por longos anos, nas instâncias do poder local sem que sua conduta perversa fosse notada e questionada. É improvável que aqueles que lhe deram guarida até dias atrás – inclusive os de setores da imprensa – sejam todos ingênuos e não cúmplices dessa suposta mente malfeitora. Escuta telefônica da Polícia Federal indicam, por exemplo, que Wallace era tratado como chefe por policiais graduados. Aliás, foi um ex-policial que o dedurou, supostamente para se livrar de uma execução.

O aperto policial a Wallace veio após a eleição de 2008, depois que ele e seus Irmãos Coragem – um deles, Carlos Souza, é vice-prefeito de Manaus – ajudaram Amazonino Mendes a se eleger prefeito. Ancorados na popularidade do programa de TV Canal Livre, estilo mundo-cão, eles derrotaram o atual vice-governador Omar Aziz, apoiado pelo governador Eduardo Braga, e o ex-prefeito Serafim Corrêa, candidatos à eleição e à reeleição à Prefeitura de Manaus. Insuflado eleitoralmente, Wallace queria ir além do poder que já exercia na política estadual, segundo a própria Polícia. O racha com ex-aliados seria um sinal manifesto da intenção de ampliar poder para si e para o seu grupo.

Um dos negociadores da recepção do ex-deputado na Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania (Sejus) e posterior entrega à Polícia foi o vice-governador Omar Aziz. Preso, Wallace percorreu bairros em viatura policial em marcha fúnebre, esteve em celas para bandidos de alta periculosidade, para ouvir a voz rouca dos manos, e agora aguarda julgamento na carceragem de um quartel da PM. O primeiro dos Irmãos Coragem a visitá-lo foi Carlos Souza, que estava prefeito (em exercício) de Manaus.

O Caso Wallace envolve outros fatores e personagens – visíveis e invisíveis – que estão além das notícias da política e da polícia. Não será possível compreendê-lo sem compreender o jeito rasteiro e irresponsável de se fazer comunicação social e política no Brasil.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Para andar de bicicleta

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Wilson Nogueira*

Professores e alunos Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) pretendem pautar, para a sociedade, um debate sobre a importância do uso da bicicleta como opção de locomoção da população. Ao menos é isso o que sugerem ao anunciar que irão verificar, na Avenida Djalma Batista, a provável conveniência da implantação de ciclovias em corredores estratégicos da cidade. A atitude é relevante, embora sem o tratamento merecido dos chamados meios de comunicação social. Li essa notícia numa coluna de leitura rápida de um jornal local.

Uma das tarefas dos acadêmicos será medir a duração do percurso através de carro na extensão da avenida, em vários momentos, para compará-la com o tempo despendido no deslocamento com bicicleta. É obvio que, nos horários de congestionamento, leva-se até menos tempo caminhando, principalmente nos pequenos trajetos, do que viajando em automóvel. Testes idênticos já foram aplicados em outras cidades e os resultados são mais que favoráveis às bicicletas. Há, no entanto, outros fatores sujeitos à verificação, afinal pedalar é uma opção de deslocamento e não o remédio infalível para salvar tráfego das grandes cidades.

Mais importante que o resultado da pesquisa é a oportunidade que ela suscita à busca da solução a um problema que aflige a todos nós. Os carros, em enxurrada, tornaram-se um problema de saúde publica. De Tóquio a Manaus, ninguém mais suporta os transtornos do trânsito. O Planeta, por sua vez, entope-se dióxido de carbono e reage, desfavoravelmente, à qualidade de vida de todos os seres. O carro é hoje um contra-senso, e o será até que se adéque a padrões ecológicos necessários ao bom funcionamento do planeta. Enquanto permanecer esse quadro, melhor mesmo é usá-lo com certa parcimônia, em combinação e em colaboração com outros meios de locomoção.

A bicicleta é o símbolo da insatisfação das megalópoles e metrópoles contra o estresse no trânsito e envenenamento do ar. Pedalar é saudável! Multidões tem ido às ruas reivindicar ciclovias. No Brasil, os ciclistas de São Paulo são um bom exemplo desse movimento que estimula o Poder Público a reinventar o transporte urbano. Governantes atentos e responsáveis sabem que o aperfeiçoamento do tráfego urbano depende de equipamentos, leis, serviços e da mudança de hábitos das gerações que se acostumaram a usar o carro até para comprar pão quente na esquina. Sabem, também, que o diálogo com a sociedade é caminho mais fácil para consegui-los. A boa ação, nesse caso, exige apenas vontade política.

O pessoal da Ulbra, a meu ver, cria o fato para que se estabeleça um debate sobre a qualidade do trânsito em Manaus. Mas é bem provável que essa idéia seja ignorada pelos gestores da cidade, porque não se trata de nada faraônico, de milhões de dólares. Além do mais, contraria o interesse dos vendedores de carros e dos construtores de viadutos. Resta, então, esperar que o tema seja compreendido e encapado pela sociedade. A experiência de outros países demonstra que o uso da bicicleta em grandes cidades é viável e faz bem ao trânsito e à saúde.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Os sem-biblioteca

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Wilson Nogueira*

O ex-prefeito de Parintins Benedito Azedo contou-me que, certa vez, assombrou-se com a revelação de um também ex-prefeito do mesmo município sobre o hábito da leitura. “Benedito, meu caro, faz ao menos dez anos que eu não passo a vista num livro”. Azedo queria engatar uma conversa sobre o tema de um livro que acabara de ler. Ao ver que a prosa não correria nesse rumo, o leitor entusiasmado convidou o seu interlocutor para tomar um cafezinho numa birosca do mercado municipal, que se localiza em frente ao Palácio Cordovil, então sede da prefeitura. “Aceito o convite, meu caro, até porque, desde que assumi, nunca mais pisei no mercado”.

É isso mesmo! O que esperar de um governante que despreza o hábito de ler e de dar uma olhada nos prédios públicos e históricos da cidade que dirige. A distância entre o mercado e o gabinete do prefeito de Parintins, naquela época, não chegava a 100 metros. Azedo explica que de um governante com esse perfil pouco se pode esperar de melhoria nos setores da educação e da cultura. Em Parintins, por sinal, a ferrugem corrói as estruturas do que seria a Casa da Cultura, caso gestores corruptos não houvessem consumido o dinheiro destinado a sua construção. No papel, consta que o prédio até foi inaugurado.

É preciso cuidado para não generalizar, mas é possível afirmar que gestores que não tenham gosto por livros ou por outras manifestações artísticas venham a incentivá-lo por meio de políticas públicas. Será mais provável, no entanto, que as atividades culturais ganhem relevo se o governante entender que elas são tão importantes para ele quanto para os munícipes. Nesse contexto, o espanto de Azedo, que também poderia soar como piadinha de boteco cult, ganha relevância de crítica embasada na realidade, porque poucas prefeituras reconhecem os projetos culturais como meios de inclusão social.

No ranking das bibliotecas públicas do Anuário de Estatísticas Culturais de 2009, documento elaborado pelo Ministério da Cultura, o Amazonas aparece em ultimo lugar entre os demais estados. Apenas 59,68% dos municípios amazonenses têm pelo menos uma unidade em pleno funcionamento. Trata-se de um dado vergonhoso e preocupante, porque, sem biblioteca, sem acesso aos livros, não há como cobrar qualidade no ensino. Daí para frente se repete o circulo vicioso que impede a população pobre, principalmente, de ter cesso ao conhecimento, tão necessário para o presente e para o futuro.

Meu caro Benedito Azedo, ainda bem que, em nível nacional, os números do MinC são mais animadores. Entre 2005 e 2006 aumentou o número de municípios brasileiros que possuem museus (7%), bibliotecas públicas (4,8%) e teatro/salas de espetáculo (1,5%).

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Por uma ficha limpa

Ivânia Vieira*

A cidadania brasileira acaba de estabelecer um novo marco na sua caminhada. Ao colocar dentro do Congresso Nacional um projeto de iniciativa popular amparado por 1,3 milhão de assinaturas, provoca um espetacular efeito de reação muito além do campo político-eleitoral.

A campanha “ficha limpa”, sob responsabilidade do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), integra um projeto maior – “Combatendo a corrupção” - cujo embrião data de 1996. Há 13 anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) identificou a compra de votos como um dos mais graves desvirtuamentos do exercício da democracia. A intervenção proposta à época estava amarrada a um compromisso batizado pelos idealizadores de ação de “mudança estratégica”. É o que está sendo feito, sem perder de vista obstáculos previstos e outros que surpreenderam.

A estrada longa e com muitos trechos desconhecidos provocou momentos de euforia e de desânimo entre os caminhantes. A lei nº 9.840 cujo aniversário de dez anos foi comemorado na segunda-feira (28) é fruto dessa histórica mobilização nacional. Chegar a um milhão de assinaturas foi muito duro. Mas o movimento conseguiu e, em 1º de outubro de 2000, um novo mecanismo legal de combate à corrupção eleitoral entrava em ação. Hoje, mais de 600 eleitos foram cassados por envolvimento em atos de corrupção.

A “mudança estratégica” permanece como bússola. A campanha ficha limpa é, a partir de agora, um projeto para ser votado pelo Congresso Nacional. Significa avanço, pois provoca um debate fundamental sobre quem são os candidatos que querem nos representar, qual é folha corrida deles, os expõem publicamente, obriga-os a prestar esclarecimentos e ajuda o eleitor a tomar decisão com mais liberdade. Crescemos juntos na limpeza do caminho.

Deixe sua marca
Quem não colocou o nome nessa primeira grande coleta ainda tem chance, é só buscar o endereço www.mcce.org.br. Também foi dada a largada a uma outra tarefa do movimento popular: pressionar os parlamentares para a tramitação imediata da proposta.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Pe. Rogério é um pouco de nós

quarta-feira, 23 de setembro de 2009


Ivânia Vieira*

Na segunda-feira (21), em editorial, o jornal A Crítica chamava atenção das autoridades estaduais e municipais sobre o triunfo da violência em Manaus. Não é o assassinato de um padre a motivação única para a advertência feita, e sim mais uma morte violenta e, nesse caso, no assassinato de um sacerdote tem-se a tradução da extrema insegurança vivida pelas populações locais.

A morte do padre Rogério ganha repercussão internacional porque expõe uma pessoa cujas atividades têm dimensão pública de relevância. Nela configuram-se as mortes de outras pessoas anônimas tratadas mais como um número no mapeamento dos assassinatos, e encarna a denúncia da explosão dessa violência em âmbito local.

A ocorrência de invasões e de mortes de religiosos (sejam padres, pastores, freiras...) faz parte de um tempo de escuridão e de supressão da liberdade. Assiste-se na atualidade um retorno ao tempo de pavor. Contra ele, mulheres e homens reivindicam o fim da ‘lei do medo’, da ‘lei do horror’. Pedem o resgate do direito de ir e vir em segurança e a presença dessa segurança na cidade.

A morte de Rogério abriga a dor de tantas famílias vitimizadas pela violência no campo e na cidade e faz o grito por Justiça ecoar mais longe. As autoridades devem as respostas. Têm diante delas uma multidão angustiada e inquieta.

Lição de resistência
A jornalista Joaquina Marinho encerrou na terra a sua batalha. No domingo (20), fez a sua partida para, enfim, descansar. Não é para falar de Joaquina e da tristeza de saber que não mais vamos encontrá-la por aqui que uso esse espaço. E sim da lição silenciosa deixada por essa moça: a persistência, a esperança larga na qual embrulhava a sua vida e daqueles mais próximos dela. Em cinco anos de luta contra o câncer, apostou todos os dias em viver. Dizia sim quando a razão mandava dizer não. Fez-se sol em dias de nuvens carregadas. Fica dela essa imagem.

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Atitudes para salvar a Terra e outros planetas

Wilson Nogueira*

A crise mundial reduz a emissão de gases que causam efeito de estufa. Essa notícia era esperada, afinal, o consumo ainda está no freio de mão em muitos países. Mesmo assim, trata-se de um fato que aprofundará mudanças em políticas públicas, na produção e no consumo em escala mundial. O fim da crise não pode mais significar a retomada do crescimento econômico sem a garantia de sustentabilidade para o Planeta.

Especialistas explicavam ontem, antes mesmo da divulgação de dados oficiais, que a queda na taxa da emissão de poluentes na atmosfera seria bem inferior à ocorrida durante a crise do petróleo, no fim da década de 1970 e começo dos anos de 1980. Observavam, ainda, que o mais importante desse novo quadro é que esse fenômeno teria relação, também, com medidas ambientais tomadas pela Comunidade Européia, Estados Unidos e China.

É evidente que tais mudanças são resultados da pressão de imensa parcela da comunidade mundial sobre governos e empresas que se empenham pelo desenvolvimento a qualquer custo. Luta-se para despoluir e salvar a Terra de uma catástrofe dentro dos próximos 50 anos. A pressão que não pode parar. É muito cedo para avaliar até que ponto a produção será retomada em novas bases tecnológicas, ou até mesmo se o fim da crise não suscitará os velhos padrões de consumo. Que a bandeira melhoria da qualidade de vida continue içada.

A pífia participação dos brasileiros no dia mundial sem carro deve desanimar cidadãs e cidadãos envolvidos na causa do meio ambiente. Referi-me tanto aos militantes de carteirinha quanto aos que evitam o desperdício de água e energia elétrica em suas residências. Ainda não dá para deixar o carro na garagem sem que haja transporte público eficiente, principalmente nas capitais. Mas a data é simbólica. Tem função pedagógica. Sabe-se agora que há um esforço mundial para orientar o uso racional de veículos.

Que tal pressionar os governadores e os prefeitos dos Estados e cidades que abrigarão os jogos da Copa do Mundo de 2014, para que dirijam investimentos públicos e privados em ruas e equipamentos que incentivem o deslocamento da população em transporte de massa, em bicicleta e outros veículos de menor impacto ecológico. No Planeta saudável, chique é caminhar sem resmungar e andar de bicicleta. Bem que esse hábito poderia pegar no Amazonas, o lugar mais ecológico do Planeta, segundo certa propaganda governamental. Mas, pelo visto, o bom exemplo virá de Nova York, o lugar mais cosmopolita do mundo.

Ninguém pensa em pôr fim aos carros. Mas, por pura obviedade, a necessidade de usá-lo, adequadamente, é urgente. Não se trata mais de assunto apenas engenheiro de trânsito. Dia desses um motorista engarrafado no transito de São Paulo diagnosticou: “Todo dia entram milhares de carros no trânsito. Por isso, a qualquer dia ele tem que parar!”. Do mesmo modo, caso a emissão de gases poluentes continue encharcando a atmosfera, a qualquer dia a Terra pára. E se os humanos se mudarem para Marte com a mesma mentalidade, Marte também parará; e assim por diante...

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Grave retrocesso

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Ivânia Vieira*

Desde o dia 2 deste mês o padre Orlando Barbosa vive na condição de retirante. Pároco na Colonia Antonio Aleixo, Zona Leste, Orlando tinha participação ativa na organização e mobilização da comunidade e legitimou-se como um dos porta-vozes daquela população na luta para instituir a participação comunitária na tomada de decisão sobre o melhor lugar de construção do Porto das Lajes.

A escolha da área para abrigar o futuro porto - nas confluências do Encontro das Águas e de comunidades situadas no lago do Aleixo - instaurou um embate entre empresários, setores governamentais que os apoiam e comunitários contrários a obra nesse lugar. Esse ato de escolha é, de fato, uma imposição de uns poucos. Pe. Orlando tornou-se uma das vítimas da intolerância no local. A casa do sacerdote foi invadida no dia 26 de agosto e, ele, no dia 2 de setembro, forçado a sair do lugar do seu sacerdócio diante de ameaças feitas contra ele.

Isaque Dantas, eleito presidente da Associação dos Moradores da Colonia Antonio Aleixo, no mês de agosto, em entrevista ao blog do Núcleo de Cultura Política do Amazonas (NCPAM), fala das tentativas de intimidar os líderes comunitários. Promete que a luta para que o Porto das Lajes seja construído em outro lugar vai continuar.

As autoridades públicas sabem que há uma situação crescente de tensão. O noticiário expõe o cenário de conflitos. E mais, a comunidade do Antonio Aleixo e a sociedade aguardam informações sobre quem são os homens que invadiram a casa do Pe. Orlando Barbosa e a saquearam. Essa situação, comum em outros períodos da história do País, não pode mais ser admitida na atualidade. Mas, a falta de respostas esclarecedoras aponta na direção contrária e mancha a democracia conquistada e revela um grave retrocesso.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Abordagem desigual

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Wilson Nogueira*

No Brasil e, provavelmente, no mundo, pouco se soube das circunstâncias em que foi aprovado, pelo Congresso colombiano, o plebiscito que dirá se o presidente Álvaro Uribe concorrerá a um terceiro mandato. Os conglomerados da mídia abordaram esse fato como algo do cotidiano da democracia. O artifício que pode manter Uribe no poder não valeria para Hugo Chávez nem para Lula. É isso que demonstram as revistas, os jornais, as TVs e os sites que agem contra quaisquer experiências fora ou mesmo nas bordas do velho liberalismo.

O silêncio dos conglomerados abre caminho para o provável terceiro mandato de Uribe, sem que os porquês desse apoio fiquem explícitos para opinião pública. Não medem esforços, entretanto, para impedir que líderes regionais mais à esquerda estiquem seus mandatos por voto popular. Motivo principal: esses representariam um perigo para a democracia, que, afinal de contas, se alimenta e se realimenta da alternância de poder. Mas por que essa preocupação dos conglomerados midiáticos não se estende a Uribe? Verifica-se, nesse tratamento desigual, o comprometimento dos oligopólios midiáticos com outros grupos econ?micos e políticos e não com os princípios da democracia.

Se a república bolivariana de Chávez é uma ameaça à democracia latino-americana, por que a continuidade de Uribe no poder não se constitui em ameaça a paz regional? Uribe é hoje o gestor militar dos Estados Unidos no continente sul-americano. O pretexto de combater guerrilheiros, paramilitares e narcotraficantes, permitem que o governo Uribe e os Estados Unidos transformem a Col?mbia em potencia bélica regional. Os norte-americanos pretendem mais nesse campo. Querem, neste momento, instalar uma base militar em território colombiano. Por isso, precisam de feitor confiável no poder como garantia aos seus investimentos.

Uma base militar dos Estados Unidos na Col?mbia não é bom sinal para a região. Os norte-americanos são useiros e vezeiros em invadir territórios alheios. Bastam-lhes alguns avisos de revolução social, ainda que ela ocorra nos limites da democracia capitalista, para enfurecer o Tio Sam. Por isso, é pertinente explicar que a progressiva militarização da Col?mbia atende a interesses camuflados na luta contra os cartéis de drogas e grupos armados. Os fatos dizem que o braço bélico norte-americano se configura em vigilância a supostas ameaças ao que resta da influência geopolítica dos Estados Unidos na região.

A movimentação militar colombiana instiga a caserna dos demais países. A Venezuela de Chávez tem se armado e realizado treinamento militar com os russos. O Brasil acaba de negociar tecnologias e armas militares com a França a pretexto de defender a Amaz?nia e as reservas de petróleo da camada pré-sal. É visível a reação militar dos vizinhos da Col?mbia. Sinal de que ninguém engole a justificativa simplória de Uribe para se manter no poder. Afinal, como disse Lula, os Estados Unidos bem que poderiam combater o narcotráfico dentro dos seus territórios. Mas esse é outro assunto inconveniente para os conglomerados. Preferem tratá-lo na superfície a explicá-lo em profundidade, assim como se referem a mais um mandato para Uribe.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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O outro grito

Ivânia Vieira*

A 15ª edição do ‘Grito dos Excluídos e das Excluídas’, realizada na segunda-feira (7) em várias cidades brasileiras, simboliza o retorno do movimento social à cena pública. Em um período de ressaca, desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, as organizações de resistência retomam o caminho da rua, o lugar na praça e refazem a pauta de reivindicações.

Funcionando como uma espécie de guarda-chuva das insatisfações populares, o Grito fez da sua romaria, no 7 de Setembro, uma síntese das graves questões, cujo enfrentamento tem sido ignorado e/ou minimizado pelos órgãos e agentes públicos. O mosaico das reivindicações (vale à pena passear na Internet ou pelas fotografias dos protestos ocorridos em praticamente todas as capitais brasileiras) exibe o acumulado nesses anos, não como uma derrota. Ao contrário, é parte do aprendizado, da construção de um novo papel para essas organizações e da inclusão de novas necessidades impostas ao movimento.

Compreender a ‘cidadania ativa’ da qual fala o arcebispo de Manaus, dom Luiz Soares Vieira, é parte dessa exigência. Se antes o slogan era pelo direito de ter cidadania, hoje o embate é decifrar o que é ser cidadã e ser cidadão, qual é o grau de responsabilidade imposto a quem se posiciona nessa condição.

O movimento social recomeça a sua investida. Nele, os jovens exercem um papel preponderante, não apenas porque neles está depositada a parcela maior da esperança de construir mudanças, mas pela enorme dívida que esse modelo de mundo deixa à juventude. Em várias regiões do mundo, os jovens estão sem horizonte e os governos discutem uma outra demanda. Então, é neles e com eles que o grito se realiza e se prepara para ecoar mais longe, em cores, poesia e na alegria.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Falta o sal da sensatez

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ivânia Vieira*

A discussão entre o Governo e o Congresso Nacional sobre o pré-sal é a própria negação do bom debate. Expõe um estágio atrasado que já deveria ter sido superado pelas partes.

O pré-sal não pode ser compreendido como assunto em torno do qual oposição e situação vão medir forças. Está para além desse parâmetro e exige um olhar atento dos governos, dos demais poderes e da sociedade em nome da qual decisões, nessa área, vêm sendo tomadas. O tema reivindica a formação de cenários, de estratégias e uma enorme responsabilidade quanto à definição de um plano nacional de exploração desse potencial petrolífero.

Ao contrário, na última semana as manifestações nos corredores do Congresso apenas reafirmaram a disputa miúda cujo interesse maior é saber qual candidato e/ou candidata à presidência da República carregará a bandeira do pré-sal como passaporte para suceder Lula.

A grosseira tentativa de partidarizar a questão atrasa a possibilidade de promover uma discussão que inclua o Brasil e o situe, modernamente, diante das novas exigências nacional e mundial. Uma das mais importantes demandas é a ambiental, aliás condição mantida à distância do assunto pré-sal embora nela resida um dos grandes problemas para a exploração pretendida nessas camadas. Legisladores e executivo brigam por conta do destino do dinheiro enquanto a outra face do programa é deixada de lado numa omissão que deve custar um alto preço à sociedade brasileira.

GENEROSIDADE
Agradeço profundamente a Tenório Telles, poeta, escritor, professor, amigo, pela generosidade e respeito a mim dedicados, bem como ao nosso trabalho, pequenino, feito em bairros de Manaus. Eu e a turma de jovens que faz o Comunicadores Populares de Base acontecer recebemos, com os escritos de Tenório, publicados neste jornal no dia 29 de agosto, um prêmio agora guardado no lugar mais especial. A luz está acesa e se renova.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Uma mulher comprometida com a vida

Tenório Telles*

Tem muita gente que acha que a vida se justifica pela quantidade de poder e dinheiro que uma pessoa for capaz de acumular. Ou que uma sociedade só é reconhecida se for próspera e rica economicamente e, assim, gerar conforto material. Essa forma de pensar está enraizada na alma dos indivíduos, entranhada no seu ser e no seu coração.

O sentir, o olhar, os sonhos - tudo está plasmado por essa ideologia feita de indiferença, egoísmo e solidão, que nega a bondade, a fraternidade, os valores espirituais, em que o que importa são os fins, o sucesso a qualquer preço, o ter. O triunfo dessa lógica não é sem resistência.

Como faróis na escuridão, homens e mulheres, nos bairros, nos campos, nas margens dos rios e nos lugares mais longínquos deste planeta, carregam em seus corações a chama da esperança e da fé na possibilidade de construção de um mundo diferente e mais humano, fundado na generosidade, na compaixão, no respeito ao próximo e no amor ao conhecimento. Eles representam a negação da violência, do individualismo e da intolerância. Suas verdades são antídotos ao veneno do preconceito, da arrogância e do sentimento de superioridade daqueles que acham que são melhores porque têm dinheiro, posição, status ou pela cor da pele.

A vida não vale por essas coisas, nem por essas pessoas. Na verdade, essas criaturas contribuem para a existência ser pior: prejudicam os outros em razão de seus interesses mesquinhos. Esse tipo de gente é a erva daninha do jardim da existência. A “pedra no meio do caminho”, da qual nos fala Drummond no seu célebre poema. É obstáculo no percurso dos que ousam ir mais longe e também espinho na caminhada daqueles que carregam no peito a bondade e trabalham pelo bem comum. Gente desse jaez conspira, atravanca e fere quem encontra pelo caminho, ou quem imagina possa ser um risco aos seus propósitos.

Felizmente na vida nem todos são erva daninha, pedra ou espinho. Há os que são semente, flores e passarinhos. Ajudam a plantar, cuidam, partilham seus frutos e nos alegram com a canção de seus sonhos. Ivânia Vieira faz parte dessa linhagem nobre de seres humanos. Sua prática de vida é afirmativa de seus compromissos com a mudança e com a luta dos homens e mulheres excluídos de seus direitos, do acesso à informação e privados da cidadania. Jornalista e professora da Universidade Federal do Amazonas, Ivânia é uma das mulheres mais lúcidas e coerentes desta terra. Cidadã consciente do seu papel no mundo, sua prática social é marcada pela solidariedade e atitude crítica em relação às injustiças e brutalidades deste tempo ultrajado pela violência e banalização do mal.

Seu exemplo de vida é um testemunho de que o ser humano pode ser diferente e fazer a diferença. Como professora personifica a conduta e o cuidado dos mestres: é, na verdade, uma educadora, compromissada não só com o dever de informar, mas de formar seus alunos, orientando-os para um entendimento crítico do mundo, para que sejam leitores ciosos da realidade e profissionais conscientes de suas responsabilidades.

O trabalho dessa semeadora de luz não se resume à sala de aula e às suas atividades como jornalista. Dedica parte de seu tempo a ações sociais, tomando partido da luta das mulheres, dos trabalhadores e dos jovens. Exemplo disso é sua participação no projeto Comunicadores Populares de Base, na Zona Leste, em que orienta dezenas de jovens para que sejam protagonistas sociais e utilizem as ferramentas da comunicação social para ajudar as suas comunidades a refletir sobre suas demandas e seus anseios. Ivânia Vieira honra e dignifica o milagre vital com que foi brindada pela providência.

Escritor, coordenador editorial da Valer.

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O disfarce da mídia

Wilson Nogueira*

Os conglomerados de comunicação, por questões óbvias, defendem de modo articulado as idéias, iniciativas e práticas liberais ortodoxas e, como consequência, sufocam as demais. Esmeram-se, para o cumprimento dessa tarefa, em engenhosas dissimulações. Não haveria, para o velho ou novo liberalismo sectário, nada edificante fora do guarda-chuva do livre mercado. A procura de um novo caminho ou mesmo de um novo jeito de caminhar, para esse tipo, não faz sentido.

O rádio, a TV, a revista e a internet sentenciam que o PT agoniza. Os Nostradamus da pesquisa de opinião pública – da opinião formada por esses conglomerados – revelam até o que ainda é indecifrável: Lula não fará o seu sucessor ou sucessora. Desfiam-se, em seguida, pseudo-recorrências históricas, como se presidentes com a história de vida e com a habilidade política de Lula não fossem uma raridade. Os conglomerados sabem disso, mas não contextualizam suas análises historicamente. Optam pelo encobrimento da totalidade dos fatos.

Ninguém desconhece que o PT e o presidente Lula enfrentam muitas dificuldades internas e externas. Escândalos e promessas cumpridas parcialmente ou não-cumpridas comprometem ambos. O mesmo se pode dizer dos acordos político-partidários que o Palácio do Planalto fez em nome da governabilidade. Há desgaste no governo e no partido, mas lhes impor derrota virtual antecipada não encontra respaldo em análise embasada na realidade. Essa postura, que se vê de maneira ostensiva na mídia, só reflete o desejo da ideologia liberal radical.

A grande imprensa só não consegue esconder o disfarce quando infla pré-candidaturas mais pelo estrago que elas poderão causar no terreno da esquerda do que por acreditar na competência administrativa de suas políticas. Essa é uma velha estratégia desse liberalismo que não se contenta em ficar fora dos plenos domínios do poder econômico e político. Ao dissimular, ela dissipa os adversários políticos, ao mesmo tempo em que tenta confundir a opinião pública em favor dos seus parceiros históricos. Não haveria nada de estranho se esse alinhamento fosse claro e transparente. O problema é que ele se disfarça, em grande medida, na suposta objetividade da produção de notícias.

Quando os fatos são contextualizados, é possível visualizar que, se o PT e Lula estão moribundos, o que então não dizer dos partidos e lideranças preferenciais da mídia para o exercício dos poderes da República? Há práticas, mais velhas, mais surradas e mais excludentes que as do mercado exacerbado? O Lula e o PT não são, certamente, os únicos caminhos no horizonte do Brasil. Até por que eles, por meio do diálogo e alianças políticas, inclusive com setores liberais, ensinaram que a arte de governar pode ser praticada, também, na diversidade ideológica. Mas esse é um assunto que os conglomerados preferem ignorar.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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