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A foto do mendigo
sábado, 6 de março de 2010

Neuton Corrêa*
Não aguento mais o peso da imagem do mendigo. Fiz as fotografias na estação de ônibus da Matriz, na manhã do último dia 19 de fevereiro, uma sexta-feira. O que seria apenas um registro para satisfação da curiosidade, tornou-se em minhas mãos, e em minha cabeça, um peso que nenhuma força mecânica será capaz de sustentar.
Era uma boa oportunidade para mostrar como a humanidade trata os seus. Barbado, como típico padre estrangeiro, ele ainda dormia profundamente na calçada. Com os dedos entrelaçados contra o peito e as pernas cruzadas, nele repousava a mais absoluta indiferença ao vai-e-vem de gente e carros acelerados que cruzam o Centro de Manaus.
À primeira vista, quando ainda estava no 300, animado pela moda do Twitter, minha intenção era compartilhar as fotos pela Internet. De longe, a cena parecia engraçada. O homem, três dias depois do reinado de Momo, ainda se curvava à sua realeza, usando blusão rosa e calça verde, com rendas nas bainhas da calça, na gola e nas mangas da blusa.
Porém, ao selecionar o retrato que transmitiria, pus-me a refletir sobre aquele personagem, cujo nome sequer eu sabia. Pensei: o que me autoriza a expô-lo a um mundo ao qual certamente ele jamais terá acesso? O que me autoriza a invadir sua privacidade? O que me autoriza a entrar em sua casa? Nem procurei saber seu nome. Nem sei se ele seria capaz de responder a essas simples questões. As respostas poderiam estar na evidência: um existente sem existência aos olhos das centenas de pessoas que por ali embarcam e desembarcam dos ônibus. A fantasia verde e rosa, no entanto, talvez fosse um grito para chamar atenção e dizer: “Eu existo”. E, se ele existe; logo, pensa. Esse é o ensinamento da filosofia moderna cartesiana.
Então, se o seu silêncio fala, dar-lhe-ei a voz do Mestre. Farei isso para tentar aliviar a carga que os três cliques da Matriz me trouxeram. Mestre (nunca soube seu nome verdadeiro, mas era conhecido assim por causa das frases que gostava de pronunciar) penitenciou-se a viver na rua, privado dos filhos e de qualquer companhia feminina, desde o dia que sua mulher partiu desta vida, jurando-lhe amor na eternidade.
Mestre sentia-se culpado pela perda. Ela estava animada com a gravidez do nono filho. Ele, pensando nas condições da família, sugeriu-lhe garrafadas abortivas. O feto resistiu ao ataque, mas a criança não pôde ver a luz deste mundo. Nem a menina nem a mãe. Culpando-se pela tragédia, por causa das garrafadas, Mestre, no pé da cova do corpo da esposa, julgou-se daquele dia em diante indigno para merecer a sombra de uma casa, o carinho dos filhos e o amor de uma mulher.
Pensando no drama do Mestre, revejo mais uma vez as fotos do mendigo do Centro. Procuro nelas uma palavra. Não encontro apenas uma, mas várias. Na verdade, um discurso. Um grito! Um apelo! O que no começo era engraçado revela-se trágico agora.
A foto fala por si. Ela retrata um ser que vai à festa, quando a festa termina; um ser que se fantasia enquanto as máscaras caem; um ser que descansa enquanto todos se cansam. Enfim, um ser que põe a saca de lixo debaixo da cabeça para dormir não quer deixar ninguém dormir.
Por isso, agora, para aliviar-me desta carga, apagarei a foto da máquina para que a imagem não se repita mais em minha frente.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: Myrria. Marcadores: Crônicas
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A noiva da Cidade Nova
terça-feira, 2 de março de 2010

Neuton Corrêa*
Descobri que não sou o único a espiar a calcinha da passageira. Ela usa peças douradas e prateadas. Por isso, mas não apenas por isso, precipitadamente, chego à conclusão: terei que cantá-la para que seja também a minha noiva, a noiva da Cidade Nova.
Esperei a verdade do tempo para contar o resultado de minhas observações. Não, senhores e senhoras, amigos e amigas do busão, não ando brechando ninguém. E para que não haja dúvida acerca dos relatos que farei agora devo deixá-los cientes: juro, tudo aconteceu por acaso, embora o acaso tenha se repetido.
A primeira vez que a vi com a calcinha brilhosa foi no Carnaval do ano passado. Nos primeiros instantes, achei que minha racionalidade tivesse perdido mais uma luta contra a libidinagem de minha cabeça. Não poderia ser outra coisa a não ser o instinto traindo os olhos. Tentei não olhar. Impossível! O reflexo batia em meu rosto. A luz que saltava em minhas pupilas era tanta que ofuscou o objeto mirado.
No entanto, não era ilusão de ótica nem fantasia de Carnaval. Semanas depois, encontrei-a novamente com a infracobertura reluzente. Foi na Semana Santa! Diferente da primeira ocasião, quando cobria as intimidades com uma roupinha dourada, dessa vez ela usava algo prateado. Mesmo assim, por muito tempo, ainda continuei achando que a primeira espiada havia contaminado minha percepção sobre ela.
Sei que deves estar imaginando como posso saber de tão preciosos e precisos detalhes. Então, começo a me explicar pela geografia física onde esses acidentes acontecem, frequentemente. É em uma parada de ônibus da rua Timbiras, entre os núcleos 2 e 3 da Cidade Nova 2. Para quem vem pelo Parque das Laranjeiras, é o segundo ponto do busão da Timbiras, mais precisamente na primeira parada depois do semáforo do Cruzeiro.
Pois bem, essa parada foi construída a 65 metros de casa. Na verdade, não é somente um ponto de embarque e desembarque de passageiros. É um abrigo coberto com telhas de barro e mobiliado com dois bancos de cimento. Fica de frente para a rua 12, da quadra 99. E é justamente esta localização, de cara para a rua, que permite a qualquer desavisado, despido de qualquer maledicência, perceber a distração dela.
Talvez nem seja distração. Acho até que o banco dificulta sua acomodação, pois suas longas pernas ultrapassam o assento abrindo a fresta entre suas coxas e a microssaia. Percebo que ela se esforça para não se expor, porque aperta coxa com coxa como pode. Acontece que a reluzência da roupinha se projeta e fica ainda mais atrativa quando o Sol para ali e faz das suas saliências.
Esta semana, para acabar com as minhas dúvidas, a mulher da calcinha brilhosa exagerou. Estava à vontade demais. Distraia-se a pentear os negros e longos cabelos e a retocar a maquiagem, mirando-se com um pequeno espelho preto na mão esquerda. E, enquanto cuidava do rosto, abanava as penas de um lado para o outro.
E fiquei mais aliviado de minhas inquietações ao saber que não sou o único a olhar para sua janela. Tive certeza disso porque, assim que ela embarcou no busão, outro passageiro comentou ao meu lado: “Essa mulher só usa calcinha brilhosa”.
Então, senhores, como prometi, vou cantá-la: "Ai, como essa moça é distraída/ Sabe lá se está vestida/ Ou se dorme transparente/ Ela sabe muito bem que quando adormece/ Está roubando/ O sono de outra gente/ Ai, quanta maldade há nessa moça/ E, que aqui ninguém nos ouça/ Ela sabe enfeitiçar/ Pois todo marmanjo da cidade/ Quer entrar/ Nos sonhos que ela gosta de sonhar/ E ser um Tutu-Marambá" (“A noiva da cidade”, Francis Hime e Chico Buarque).
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: Myrria. Marcadores: Crônicas
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A farinha criava...
Massilon de Medeiros Cursino*
Por muito tempo foi comum no médio e baixo rio Amazonas ouvir como solução à criação de uma família numerosa, o chavão “a farinha cria”.
Na mesa do caboclo amazonense pode faltar tudo, menos a farinha. Ela vai do chibé, do mingau da caridade às culinárias mais chiques. O tamanho do bago é inversamente proporcional à classe consumidora, ou seja, o pobre consome a do tipo baguda, a classe média, a mediana, e os mais abastados saboreiam a fina, que se presume ser a mais saborosa, numa escala que varia de brita a pó. As provenientes do Estado do Pará recebem um agrado nada convencional, farinha “espoca bode”.
Outra forma de identificar a mais agradável ao paladar é a cor, quanto mais amarelada mais gostosa é a farinha. Lembro das histórias que contavam do saudoso “Barbeirão”, que tinha banca no Mercado Municipal de Parintins. Diziam que o feirante levava lanterna para clarear a cor do produto derivado da mandioca. Tudo para atrair e persuadir o consumidor, visto que naquela época apelava-se mais para a criatividade que para o corante.
A mandioca foi, quem sabe, a maior herança da civilização indígena. A fabricação da farinha, a partir do tubérculo da planta se constitui um mistério. Até lendas povoam o imaginário popular.
“A farinha cria”: foi justamente isso que ouvi depois de tanto tempo. Na cabeça veio logo a imagem de meus pais ainda jovens com a responsabilidade de criar uma prole numerosa. Quantas vezes meu dileto pai não usou o termo para encorajá-lo a enfrentar o desafio de chefe da família? Em seguida veio a retificação ao clichê, a farinha criava, já que ao preço que ultimamente chegou, está difícil associar a farinha a um produto barato e acessível. Já presenciei lugares em que seu preço está superior ao feijão...
Se a culpa para curumim ficar barrigudo era da farinha, é melhor que se encontre outro bode expiatório, pois na atual conjuntura a farinha está mais para artigo de luxo que para enchimento de barriga de pobre!
*Economista, Bacharel em Direito e Membro da Academia Parintinense de Letras.Marcadores: Crônicas
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Tio Paixão
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Neuton Corrêa*
Prima Neila chorava na cabeça do falecido pai. O corpo estava embalado em um caixão estendido sobre uma mesa montada na garagem-pátio da casa. Ninguém a controlava. Ela era a única filha dos nove filhos do tio Manoel Paixão no velório. Os outros estavam no Japão. A prima derramou lágrimas que dariam para regar os jardins suspensos da Babilônia por alguns meses.
Tia Natikó, não! Estava, abatida, mas tranqüila. Expôs a serenidade oriental. Depois de suportar a embriaguez do tio Paixão por mais de 40 anos, mantinha a calma para cuidá-lo na dor que consumia seu fígado há seis meses. Enquanto o corpo recebia a visita dos amigos que freqüentavam o Bar da Tia, a viúva ficava ali, imóvel. Talvez a morte do marido fosse um alívio para ela.
Lembrei do tio Manoel Paixão hoje, ao pegar o 227 e passar pelo bairro Alvorada, onde o encontrei meses antes de morrer. Como não sabia o endereço, saí casa a casa à procura dele. Encontrei-o após dois dias. Ele estava à espera dos exames e consciente da opção que fizera: “Não posso aguardar outro resultado, bebo desde criança”, disse-me titio, ciente dos últimos dias de sua vida.
Antes de partir para o inferno... Não estou exagerando, senhoras, o sonho do titio era se encontrar com o “Dito Cujo”. Meu pai, irmão dele, dizia que desde a mais tenra idade, quando ele experimentou as primeiras goladas, titio já falava desse estranho desejo. E o deixava patente sempre que estava “lombrado” (termo que usava quando estava embriagado).
Tio Manoel gostava de impactar as pessoas. Era avançado demais para o seu tempo. Bêbado, falava do Diabo como um devoto. Tudo girava em torno disso. Certa vez, para mostrar que tinha pactos estranhos, colocou os dedos em uma tomada elétrica para se exibir. Eu ainda era bem garoto, mas desconfiei: “Quero ver o senhor fazer isso sem essas sandálias”. Ele ameaçou tirá-las, mas nunca o fez.
O titio também tinha outro devaneio. Dizia que quando dormia sem dinheiro acordava com o bolso cheio. Achava-se rico, rico demais. De tanto pensar assim, agia como tal. Troco, por exemplo, era coisa que não exigia. Pedia uma dose e quando lhe davam o troco, respondia: “Deixa para o Diabo”. E não pegava o trocadinho, mesmo!
Quando voltou do Japão, por exemplo, depois de ter ido trabalhar com os filhos por um período de quatro anos, não conhecia mais a moeda brasileira. Só falava em ienes e dólares. Na primeira visita que fez ao Bar do Montiê, por onde passava antes de ir ao Bar da Tia, disse ao velho credor:
- Montiê, agora estou rico. Trouxe trinta milhões de dólares. O comerciante duvidou e respondeu: - Não são trinta mil reais, Paixão? - Que trinta mil, rapaz! Eu já fui prego, agora sou martelo. Montiê, eu trouxe tanto dinheiro que a partir de hoje tu nunca mais vai me ver repetindo um par de roupas.
E foi justamente essa mania de riqueza de meu tio que fez a prima Leila interromper o choro diluviano. Naquela hora, quando o corpo ainda estava fresco, chegaram os três primeiros amigos do titio e se colocaram perto do falecido. Um deles, cambaleando, quase caindo sobre o corpo, falou:
- É, Paixão, tu é pávulo, mesmo, tu não tem jeito! Até depois de morto, tu usa paletó e gravata.
Conhecendo o pai, a prima Neila saiu de perto do caixão e caiu na gargalhada.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Ilustração: Romahs. Marcadores: Crônicas
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O conto do ônibus chinês
sábado, 13 de fevereiro de 2010

Neuton Corrêa*
O ônibus apareceu, mas não consegui ler o nome da rota. Estava escrito com sinais desconhecidos para mim. Pareciam ideogramas chineses. Tanto que, ao embarcar na viagem, senti-me saudosamente no velho cinema da Tia Dedé assistindo aos filmes de Bruce Lee “O jogo da morte”, “Dragão chinês”, “A fúria do dragão”, “O vôo do dragão” e “Operação dragão”.
Gosto de lembrar desses filmes. Eles iam e voltavam para marcar minha infância, adolescência e juventude. Toda vez que penso neles me imagino amarrando a cara, tufando os músculos, aplicando golpes no adversário invisível e fazendo barulhos com a boca – tuf, tuf, tuf. A realidade da lembrança é tamanha que os olhos enxergam coisas que não estão vendo.
Pois bem, era tanto dragão na viagem que quando dei por mim já estava no Carnaval chinês com uma centena de pessoas, formando patas de uma enorme centopéia que cuspia fogo no meio da rua. Tudo era festa, menos para um moço que estava assustado à minha frente. Quando acabou de me falar seu nome, Jackie Chan saiu em disparada no meio da multidão.
Tudo estava confuso. A única coisa que eu conseguia ler naquele busão era o número da linha: 900. Tentei pedir informações ao motorista, mas ele não entendeu o que lhe falei. Perguntei à cobradora, piorou. Ela falava tão rápido que achei que estivesse mandando-me descer do carro.
Não desisti! Olhei para ver se encontraria alguém conhecido. De novo, achei, escondido entre outros passageiros, Jackie Chan. Como me respondeu em português fluente em meio a idioma estranho, senti-me seu velho amigo e perguntei a Chan:
- Para onde estamos indo, Jackie? E ele, mais uma vez apressado, respondeu: - Para Manaus. Aliviado com a resposta, insisti: - Qual é o nome dessa rota? E ele, prontamente: - É o ônibus “Volta ao mundo 900”.
Com um eco, repeti várias vezes a resposta dele: “Volta ao mundo 900”, “Volta ao mundo 900”, “Volta ao mundo 900”... Não dava para reagir diferente, afinal, nunca ouvi falar nessa linha. Porém, logo pensei que talvez fosse nesse ônibus que o Reis, ex-prefeito de Parintins, exportaria para o Japão toda a produção de acari-bodó do município. Aliás, essa foi uma das propostas de campanha que o conduziu à prefeitura da cidade em 1992.
Reis tranquilizava seus eleitores assim: “Mandarei para os japoneses apenas a casca. A carne do bodó vai ficar aqui. A casca vai para o outro lado do mundo para eles aproveitarem na fabricação de gabinetes para televisão”, discursava.
Ao voltar dessa lembrança, não encontrei mais Jackie Chan, nem Bruce Lee, nem muralha, nem comida em caixa nem ninguém de olhos espichados. Rindo das bobagens, acordei a bordo do 014 e voltei a ler a manchete de jornal que me fez adormecer. Lá estava escrito: “Prefeito anuncia, na Câmara, que vai trazer 900 ônibus da China”.
Desembarquei perto de casa e corri para frente do coletivo para ver se ele tinha faróis espichados e saí falando de mim para mim: “Olhos espichados, que nada! Isso deve ser um negócio da China”.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Romahs Marcadores: Crônicas
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Os cacoetes da madame
domingo, 31 de janeiro de 2010

Neuton Corrêa* Assim que o ônibus freou ao lado do carro (era um carro de luxo), a mulher dobrou a cabeça na direção do 505. Como uma flecha, o olhar dela atravessou o vazio de alguns centímetros que separavam os dois veículos e atingiu minha atenção. Eram olhos mais azuis do que o azul dos olhos da deputada Vanessa impressos em cartazes em tempo de campanha política.
O vidro baixo da porta da motorista permitiu observá-la até onde o limite de minha curiosidade pôde alcançar. De cima, foi impossível não notar a saliência que empurrava a camisa branca desabotoada até a altura do peito. Nem deixar de imaginar a barriguinha sarada que repousava sob o fino tecido que escorria até as pernas, escondidas por uma calça marrom.
Mas não foi apenas a beleza do corpo da jovem senhora que me prendeu atenção. A lentidão do trânsito da rua Paraíba fez a mulher ficar à vontade em seu carro. Primeiro, balançou a cabeça e começou a fazer movimentos com a boca como se estivesse acompanhando uma canção. Depois, passou a brincar suavemente com os longos e soltos cabelos loiros.
Aquilo tudo me fez perceber que todo mundo tem um cacoete, porém, vício é coisa que só se pode perceber no outro. Mas tem cacoete que aparece mais. Conheço doze irmãos e cada um possui um cacoete diferente, sendo que o último conseguiu um feito incrível. Por conta disso, passou a ser chamado de “Síntese”. O apelido não é por acaso. O cacoete dele é repetir os trejeitos dos onze irmãos.
O mais velho dos Froes (já falecido) mexia a cabeça como um boi bumbá em evolução. Aliás, pouco antes de morrer, acrescentou outra marmota ao movimento que fazia desde a adolescência. Ele estalava a cabeça com um movimento brusco para o lado e a sacudia para trás com cinco ou seis movimentos repetidos rapidamente. Depois disso, vinha a última agonia: uma esfregadela no nariz.
O segundo irmão treme a perna direita. É como se entrasse em transe. Para tudo o que está fazendo, mesmo se estiver conversando, estica a perna direita e dá chutes ao ar como se estivesse fazendo embaixadinhas. O terceiro dos Froes treme os dentes como se estivesse com frio, batendo o queixo. Aliás, ele era o único que não tinha vícios corporais. Contraiu o cacoete depois que passou a usar dentadura, isso depois dos 50 anos de idade.
Síntese, por sua vez, é tudo isso e mais alguns cacoetes próprios. Ele começa o ritual tremendo os dentes, depois balança a cabeça, em seguida as pernas, faz outros movimentos e acrescenta os seus trejeitos, que finalizam com a mão direita no sovaco e depois a retira lentamente para levá-la ao nariz.
A madame também fazia e desfazia em sua cabeça: ela iniciava os movimentos puxando, em feixes, os fios dourados dos cabelos, jogava-os sobre o ombro esquerdo para em seguida espaná-los com a mão direita. E repetiu o ritual enquanto o engarrafamento nos prendia ali.
Ri da mulher dos olhos azuis, do modo como ela encerrava o cacoete. Lembrava, e muito, o Síntese. Assim que terminava de espanar os cabelos, levava as unhas para a cabeça, aplicava umas coçadinhas no couro e, desconfiada, olhava de um lado para o outro, e, finalmente, conduzia as pontas dos dedos ao nariz.
Eu, sem poder comentar com ninguém e viciado em observar os outros, pensei: deve ser uma cabeça muito cheirosa.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Myrria Marcadores: Crônicas
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O bilhete afrodisíaco
sábado, 23 de janeiro de 2010

Neuton Corrêa*
O lencinho de mesa de lanchonete ainda estava nas mãos do Julinho. Ele o guardava, bem guardado, em uma caderneta de anotações. Poderia ser apenas um pedaço de papel para qualquer pessoa, menos para ele. Era a faísca que tacou fogo em sua esperança. Após 45 anos, quatro décadas e meia, finalmente, teria ao seu lado uma pessoa interessada por ele, sem precisar pagar pelos serviços.
Levou uma semana pensando que talvez aquela fosse a primeira e única chance de ter a companhia de uma mulher para sempre. Até imaginou uma casa. Ele e ela juntos, juntos e sós nos primeiros anos e nos anos seguintes um lar cheio de crianças chorando por todo lado. A imaginação era tanta que até pensava no nome do primeiro filho: chamaria-se Júnior, Júlio Júnior.
Todo esse festival de ideias se sucedeu depois do bilhete que recebeu quando fazia um lanche no Shopping São José. O papel apareceu do nada em sua mesa. Foi ao banheiro e ao voltar à cadeira ele já estava ali aberto em sua direção. Olhou para um lado e para o outro tentando captar uma biscadela feminina, mas não conseguiu nada. Chamou a garçonete. Ela também nada sabia.
Mas o Júlio não desanimou. Tentava esconder a felicidade, tentava reprimir o sorriso que se abria euforicamente, mas não conseguia. Se pudesse (Júlio tem problemas nas pernas e dificuldade para mexer o braço direito e fechar a mão esquerda), ele sairia de lá pulando e chutando de alegria tudo o que visse pela frente. Deve ter feito isso na imaginação.
Era tudo o que o Julinho queria. Sonhou tanto com isso que chegou a alugar um quitinete sobre uma casa noturna, na avenida Grande Circular, na Zona Leste, a alguns metros do shopping onde faz suas refeições. Disse-me, certa vez, que nunca assistiu a um show de streep tease ali porque sempre foi visitado por suas vizinhas nos dias em que recebe seu benefício da Previdência.
A reviravolta em sua vida estava escrita naquele lencinho. Era pouca coisa. Apenas três vírgulas, um dois pontos, duas aspas, uma abrindo e outra fechando, oito números e onze letras, dizendo: “Oi, Júlio, se você “ainda” se interessar por mim, me liga: 911x-789x”.
“Cara, assim que li o bilhete, meu fogo atiçou como nunca”, disse-me o Julinho ontem, quando embarcou no mesmo ônibus no qual retornava do trabalho para casa. Meu colega de trabalho ficou mais excitado porque o bilhete trazia número do telefone e nome dele. Mas ficou embaraçado com o “ainda”. Quem poderia ser? Não lembrava de ninguém que tivesse se interessado por ele e ainda mais naquele mundo onde mora.
Julinho não hesitou. Tão logo voltou do trabalho, passou no mesmo shopping, comprou um celular, foi para o quartinho, leu o bilhete pela enésima vez, excitou-se pela enésima vez e estreou o aparelho com uma ligação para número do bilhete. “A voz dela era mais afrodisíaca do que o bilhete”, relatou-me, dizendo que combinaram um encontro para uma semana depois.
E assim aconteceu:
Uma semana depois, no horário combinado, ele ligou para ela, porém, do outro lado da linha, a voz da mulher do bilhete afrodisíaco, atendeu com palavras melosas: - Pôxa, você é pontual. Chegou dez minutos antes. Julinho, que ainda estava perfumando o corpo, estranhou: - Mas eu ainda estou em casa. E ela respondeu mudando o tom da voz. - Então não é você que eu quero. O Júlio que eu quero acabou de passar na minha frente, na lanchonete.
Lamentei a frustração do amigo e ele me fez um apelo: “Você pode contar isso no busão?”.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: Romahs. Marcadores: Crônicas
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Sinfonia 517 – baião em Ré menor
sábado, 16 de janeiro de 2010

Neuton Corrêa*
O barulho intermitente do motor e os fachos de luz do farol da linha 517 chegaram na parada antes do ônibus. Descortinaram a escuridão da rua e quebraram o silêncio da noite. Atravessando o brilho dos holofotes, a chuva fina criava um clima de mistério para o espetáculo que estava prestes a acontecer. Nem imaginaria que naquela viagem assistiria, no busão, a uma sinfonia singular.
O show começou assim que embarquei. Iniciou com um toque desesperado de um telefone celular. Em seguida, entre o motorista e a cobradora, uma mulher que segurava uma criança dormindo em suas coxas atende ao chamado. Assim que ela pronunciou as primeiras palavras, o Emerson Quaresma, colega de trabalho que tomou o mesmo carro, olhou para mim e riu.
O olhar do Emerson não era de reprovação. Também não era o único a olhar e a ouvir a passageira. O que ela falava na primeira cadeira da frente podia-se escutar no último assento de trás. Nem o ronco grave do motor impedia que a voz aguda chegasse à toda plateia. Pudera! Não era uma fala. Parecia uma soprano em noite de ópera. Em timbre variante, oscilava sua canção entre o agudo e grave.
Ao telefone, como se fosse um microfone, ela dizia cantando: “Eu faço separaaado. É, eu faço separaaado. Não, não, eu faço tudo separaaado. É, é, separaaado. Separaaado!” Em meus ouvidos, o ritmo e o tempo da música que produzia se harmonizavam com os ruídos da viagem. Ela aumentava o volume da voz quando o ônibus acelerava e desacelerava a voz quando o barulho se cadenciava.
Enquanto procurava juntar todos aqueles sons e imaginar o 517 como um palco, volto a ouvi-la: “Faço primeiro o arroooz. É, o arroooz. Não, não, o arroooz. Não, não faço tudo junto, não. É, depois eu preparo o feijão. É, separaaado. Isso, separaaado”. Ao meu lado, outra passageira torce a boca, mas a receita continua: “Depois é que eu misturo tudo. É só misturar tudo. É, basta isso”.
Após alguns segundos em pianíssimo para ouvir o interlocutor do outro lado da linha, a cantora retoma o refrão: “É, separaaado, tudo separaaado. Depois, mistura tudo”. Faz outro silêncio e diz: “Com cheiro-verde: corta bem miudiiinho. Prepara cheiro-verde. Fica bonito. Não deixa queimar, deixa bem verdiiinho”.
Nesse momento, sinto que a plateia tenta entrar no espetáculo. Tanto que já se ouviam outras pessoas comentando: “Eu faço de outro jeito. Eu faço assim”. Indiferente às outras receitas, a soprano interpreta um novo tom: “Se tiver jabá, corta bem miudiiinho, escalda e frita. Depois mistura, mistura tudo. Fica muito boooom!”.
Assim que a mulher encerrou a ligação, parecia que o espetáculo estava terminando. Mas, senhores, foi aí que o show chegou ao ápice. Imaginei tambores, cordas, sopros e vozes agitando-se ao mesmo tempo, quando o ônibus estancou. Olhei para frente e vi o motorista e um passageiro atracados. O passageiro queria descer sem pagar a passagem. O motorista, porém, não abriu a porta.
Logo, percebi a polifonia. Do palco, a cantora colocava lenha na fogueira: “Dá uma porrada neeele: quer andar de ônibus e não tem dinheiiiro”. Da plateia, uns saíam em defesa do motorista e outros em defesa do passageiro. A gritaria tomou conta da viagem. A confusão contaminava a todos.
Até eu, amigos do busão, que não costumo entrar nas histórias, não resisti. Nem sei em defesa de quem sairia, mas assim que comecei falar, em Fá maior, e percebi o silêncio do ônibus, mudei o rumo do que falaria e cantei, imitando a mulher do telefone:
“Vocês sabem o que foi iiiiisso: foi o baião de dois que fez maaal”. Envergonhado com meu impulso e com a risada dos passageiros, desembarquei na hora.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Marcadores: Crônicas
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O craque do jogo
sábado, 9 de janeiro de 2010

Neuton Corrêa*
Faltava apenas um minuto para terminar o jogo. Sessenta segundos separavam o Sul América do título. O adversário era nada menos do que o Amazonas, seu arquiinimigo, um clássico como se fosse Brasil e Argentina. O “Leão” estava prestes a devorar a “Cobra Coral”, um jogo para nunca mais ser esquecido.
O nervosismo do campo contaminou a arquibancada. Cinco vezes a polícia teve que retirar os torcedores mais exaltados. Aos trinta minutos do segundo tempo, quatro jogadores estavam expulsos (dois de cada lado). Mônica e Cabinha (maqueiros) já haviam feito ao menos dez carretos.
Elcio Cupido se consagrava. Nada o parava. O homem era um trator. Fez dois gols no jogo. No gol do título, ainda hoje lembro, pegou a bola no campo de defesa; avançou em linha reta rumo ao território adversário; escapou de três faltas; atropelou dois; driblou o goleiro; e finalizou com uma bicuda para balançar a rede.
Era a consagração do camisa 9 do Leão. Seu futebol, porém, só não convenceu o Artêmio Guedes de Araújo, o comentarista da palavra fácil. Soube disso no sábado passado, quase trinta anos depois daquela partida inesquecível que assisti ao lado de meu pai. Quem me contou foi o “Furação do Boi”, nome artístico de meu amigo Klinger Araújo, filho do Artêmio.
Encontrei o Furacão perto da feira do Manôa, quando eu esperava o 034 ou o 304. Enquanto aguardava o busão, fiquei a olhar o show que ele fazia na promoção de uma loja de móveis. Quando me viu, falou: “Quero registrar aqui a presença do repórter do ônibus. Mestre (assim ele me chama), não sai daí sem falar comigo”. E assim aconteceu. Foi nesse reencontro, após tantas lembranças do tempo em que trabalhávamos juntos, que ele contou outra versão da partida que consagrou o Cupidão:
– Mestre, tu sabes que o papai, apesar de ser comentarista, era um fanático torcedor do Amazonas.
– Sim, concordei mesmo não sabendo do detalhe.
– Pois naquele jogo, Mestre, na hora da escolha do craque da partida, o papai mostrou o quanto gostava do Amazonas. Lembro disso assim (E começou a imitar o narrador):
“Quarenta e quatro minutos, quarenta e quatro minutos do 2º tempo, decisão do campeonato parintinense de futebol. É hora de escolher o craque do jogo!
Aí, Mestre, entra o primeiro repórter (Nelson Bilhante): ‘Para mim, o craque do jogo é o Cupido: artilheiro do campeonato, artilheiro do jogo. Merece ser o craque’.
(O narrador chama outro repórter) Franco Costa é a sua vez. Quem é o craque do jogo, Franco?
(Ele fez uma voz grave e alta) ‘O craque do jogo é o Cupido: raçudo, dois gols na partida, trinta e cinco gols no campeonato. Não há dúvida que é o melhor’.
(Volta o narrador) Agora é a vez dele, o comentarista da palavra fácil (ele imita uma vinheta com o nome do Artêmio).
(Após um breve silêncio, ele recomeça) ‘Sem atalho, para mim e para toda a Amazônia, o craque do jogo é o Carneiro (atacante do Amazonas). Pelo futebol que apresentou, merece ser o craque’.
Na hora, Mestre, o Franco pulou: ‘O companheiro está equivocado. O Carneiro não atuou na partida’.
Desconcertado, o papai disse: ‘É verdade, o Carneiro não atuou na partida. Na verdade, quem atuou e merece, com todas as honras, ser craque do jogo é o irmão do Carneiro, o Carneirinho’. Que talento!
O Franco pulou de novo: ‘O Companheiro continua equivocado. O nobre comentarista deve ter recebido outra escalação. O Carneirinho nem foi escalado para o jogo’.
Foi aí, Mestre, que o papai se saiu com essa: ‘Vejam como são as coisas, senhores ouvintes, os dois são tão geniais que mesmo não atuando na partida são craques do jogo.’”
Ri de meu amigo e não esperei mais o ônibus. Ele me levou de carro.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Marcadores: Crônicas
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A morte de Paulão
sábado, 26 de dezembro de 2009

Neuton Corrêa*
Cegueré foi o encarregado da notícia: Paulão estava morto! Não fez alarde. Percorreu a vizinhança tímida e lentamente. Saiu casa a casa anunciando a morte do irmão. Em poucos minutos, a sala-quarto onde estava ficou cercada. Cabeças e mais cabeças se amontoavam pela janela para olhar o corpo.
As vizinhas mais velhas foram as primeiras a chegar para ver o féretro. Dona Maura Garapeira chegou com duas estearinas e mandou comprar mais uma vela “Sete dias e sete noites”. Dona Preta, assim que foi avisada pelo Cegueré, meteu a mão num galho de papoula com flores vermelhas, juntou o feixe a cinco talos de espada de São Jorge, e fez o primeiro arranjo para colocar sobre o falecido.
Os mais jovens chegaram depois. Marquinho foi o primeiro. Ele morava na frente da casa do Paulão. Chegou assustado! Afinal, era parceiro do extinto. Saía com ele não somente pela companhia, mas, principalmente, porque se divertia com as surpreendentes ideias que o Paulo tirava de vez em quando. Aliás, naquele ano, Paulão tinha tido várias ideias que ele próprio duvidava.
Pois bem, a notícia se espalhou rapidamente. Correu como folha na correnteza, talvez não pela morte, mas pela tragédia que se abatia sobre sua família. Pudera, em junho fora o pai que morrera de um fulminante ataque cardíaco. Em julho, deprimido com a perda, foi próprio Paulo que tentou se matar com uma corda no pescoço. Depois, dizia: “Não, eu só queria saber como é que o cara fica quando está na forca.”
Foi justamente esse episódio que provocou sua morte naquele dia. Depois da tentativa de suicídio, Paulão passou a ser chamado de Tiradentes. Passou a ser chamado assim por causa da marca da corda que passou muito tempo para sumir de seu pescoço. Pois não é que ele gostou do apelido. Tanto o é que fazia questão ser chamado como tal.
Ele não ficou satisfeito apenas em ser chamado pelo nome do herói nacional. Queria ser o próprio. Deixou crescer o cabelo, a barba e o bigode e uma corda pendurada ao seu pescoço passou a ser seu cordão. A barba não ficou como ele queria, porque apenas uns fiapos cresceram em seu queixo e o bigode não passou de uns taloszinhos.
Mesmo assim não desistiu. Queria ter a popularidade de Tiradentes. Mas, como saber? Foi aí que chamou dois irmãos para falar sobre sua morte. Bené, o mais velho, não topou. Cegueré (Antonio é o nome dele) concordou com Paulão. Antonio não tinha nenhum problema na vista. Pelo contrário, enxergava. E muito bem. Cegueré foi o apelido que trouxe da infância por conta de um terçol que o acompanhava sempre.
Foi ele, Antonio, quem organizou o velório. Colocou o corpo numa mesa; colocou as mãos do irmão sobre o peito, entrelaçou os dedos na posição de defunto; colocou algodão nos orifícios do nariz e dos ouvidos de Paulo; cobriu o corpo com um lençol branco; cercou o corpo de velas. Mas impôs uma condição: ninguém podia entrar no quarto. Ninguém! Era o único dentro do quarto e apenas levantava e baixava rapidamente o lençol.
No início da noite, quando a casa dele já estava tomada de curiosos, Bené, o irmão mais velho que trabalhava no IML, chegou e quis saber. Informado, replicou. “Esse, mesmo, não está morto. Se tivesse morrido, teria passado por mim”. Ele, então, entrou no quarto, suspendeu a cobertura e sentou a mão no peito do irmão, que se levantou gritando: “Porra, Bené, eu só queria ver se as pessoas gostavam de mim!”
- Tu precisava ver, macho, a correria das velhinhas, quando o Paulão se levantou, contou esta semana meu amigo Romário, durante uma viagem no 350.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Marcadores: Crônicas
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Nelson Benzinho
sábado, 19 de dezembro de 2009
Neuton Corrêa*
Acordei hoje sonhando em escrever uma carta para Deus. Até esbocei algumas palavras. Risquei e rasguei não sei quantas folhas de papel. Queria ter com Ele uma conversa franca de filho para Pai. Depois de tanto pensar no que dizer, cheguei a escrever essas palavras:
“Querido Pai do Céu,
Ando preocupado demais. Não ficava assim quando eu era pequeno. Mas só agora percebo o motivo. Só agora descubro porque as meninas não gostavam de formar par para dançar quadrilha comigo. Também só agora descubro porque sempre ficava sem ninguém durante as festas.
O que fiz para merecer? Se contraí essa feição depois de ter nascido, não deveria estar Lhe questionando. Mas, se nasci assim, que mal teria feito eu antes de existir? Mereço ser punido sem direito à ampla defesa? Também não entendo: por que fazes uns bonitos e outros feios?
Desesperado, passageiro-repórter.”
Fiquei a pensar nisso desde o dia em que voltei a ser chamado de feio. Já até disse aqui que me considero feio. Mas faço uma ressalva: feio, porém, gostoso. Ando assim desde a semana passada, quando o Nelson Benzinho, meu ex-colega de trabalho, na Avenida Djalma Batista, em pleno engarrafamento, passou na parada de ônibus onde eu estava e zombou de mim: “Fala, feio!”
A parada estava lotada. Poderia negar que falara comigo, mas não tinha jeito. Pensei em sair de lá de fininho, mas chamaria atenção. Olhei para um lado e para o outro e tentei disfarçar, no entanto, o único, exclusivo, magnificamente diferente, ali, era eu.
Além disso, não poderia discordar do Nelson. Afinal, Nelson Benzinho é um profundo conhecedor da beleza masculina. Afirmo isso não só porque ele consegue me classificar esteticamente. Julga até aqueles que não conhece. Chamo ele e mais dois colegas como testemunhas de um episódio que o envolveu.
Foi durante uma festa de praia. Ele levou dois amigos. Sua envergadura de quase um metro e noventa de altura o ressaltava sobre os demais toquinhos que o acompanhavam. Ficava mais visível na multidão com a sunga verde-limão que usava. Não deu outra, logo foi notado pela mulherada.
Nelson se interessou por uma delas e a conquistou. Estava animado. A moça, porém, à certa altura do baile, passou, com grande freqüência, a pedir para ir ao banheiro. A saída foi tanta que os amigos de Benzinho o advertiram: “Ela está te enganando! Vai atrás!” Ele não perdeu tempo.
Ao retornar, Nelson voltou triste. Sentou-se e não se sabe por quanto tempo ficou imóvel, com a mão no queixo. Só quebrou o silêncio, quando um dos baixinhos lhe perguntou:
- E, aí, ela estava com outro? Constrangido, Nelson respondeu: - Estava. O amigo insiste: - E ele pelo menos era bonito?
E Nelson, prontamente, cruzou as pernas, balançou os ombros e depois de arregalar os olhos e mexer a cabeça, retrucou: - Boniiiiito!? O homem era Maravilhooooooso!
*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.Marcadores: Crônicas
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A poesia do Homem Cavalo
sábado, 12 de dezembro de 2009
 Neuton Corrêa*
Enquanto aguardava o 676, detive-me a observar o vaivém de pessoas empurrando carrinhos de rolimã. Umas traziam baldes, panelas, latas e garrafas PET. Outras, além das vasilhas, um passageiro. Geralmente uma criança transportando outra e se divertindo com o drama da falta d’água no bairro Jorge Teixeira.
Um desses motoristas me chamou atenção. As batatas de suas pernas e as veias tufadas de seus braços mostravam o esforço que fazia para vencer a ladeira. O carrinho dele estava carregado. Agasalhou mais de três dezenas de PETs. Organizou as garrafas em dois andares e ainda pendurou algumas na direção do rolimã.
Fiquei tão concentrado na cena que não o vi vencer a subida. O carrinho de madeira transportou meus pensamentos para a vida de seu Vicente. Seu Vicente é um agricultor que conheci em um assentamento do Incra. Logo no começo, quando não sabia seu nome, chamava-o de “O Homem Cavalo”.
Tratava-o assim (de mim para mim) desde a primeira vez que o encontrei na estrada do assentamento. Ele trançava um pano em sua cabeça e cordas o amarravam pelos braços e pela cintura. Tudo isso para puxar uma carroça carregada de galhos de árvores e toras de madeira. Isso faz seis anos.
Tentei falar com ele naquele dia mesmo, mas o motorista do pau-de-arara não ouviu meus apelos. Assim que cheguei em casa, peguei a bicicleta de meu pai e voltei à estrada, mas não o localizei. Ainda saí perguntando se alguém o tinha visto, mas só ouvi respostas negativas. Parecia que havia se tornado invisível.
No ano seguinte, voltei a ver seu Vicente. Ele estava no mesmo lugar e puxando a mesma carroça de lenha. Tão logo o pau-de-arara parou, corri para falar com ele, porém outra vez sumiu. De novo, saí perguntando, mas ninguém o via. Cheguei até a pensar que essa vida de passageiro-repórter estava me fazendo ver coisas.
Disposto a provar minha sanidade mental para mim mesmo, montei uma espera para o Homem Cavalo. Passei dois dias, manhã e tarde, e, finalmente, o encontrei. Ele surgiu na hora em que o Sol começava a mergulhar nas águas do rio Amazonas.
Achava que encontraria um homem brutalizado, mas a primeira coisa que seu Vicente me falou foi da poesia que compôs. Fez música! Até disputou festival da canção. Cantou uma delas para mim. E mostrou-me os últimos poemas que escrevera. Palavras, amigos do busão, que sangram a alma para falar de saudades. Seu Vicente espremeu gotas de meus olhos, que embaçaram com a pureza de suas rimas angustiadas.
Tentei por várias vezes fazê-lo falar da carroça, mas aquele não era o maior peso que carregava. Percebi isso quando o indaguei sobre seus filhos: “Tenho cinco filhos”, respondeu ele, contando nos dedos. Citou a mais nova, com três semanas de vida, e incluiu o mais velho, um adolescente de 15 anos de idade: “A gente está esperando ele. Ele vai chegar! Tenho certeza que ele vai chegar!”
Pedi que explicasse a razão de tanta expectativa e foi aí que descobri o sentido da poesia saudosa do Homem Cavalo. Seu Vicente perdeu o filho em uma manhã de domingo. O menino estava com cinco anos de idade. Era seu companheiro de trabalho e de viagem. Naquele dia, à beira do rio, ele combinou com a criança: “Fica aqui, que eu vou vender esse carvão e volto já”.
Ao retornar para a canoa, porém, seu Vicente não encontrou mais o filho. Passou dois anos, dia e noite, retornando ao mesmo local à espera da criança que virou poesia.
Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: MyrriaMarcadores: Crônicas
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A profecia de Severo
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Neuton Corrêa*
Gerson Severo já havia profetizado há um ano: “Passageiro-repórter, tu estais condenado a andar de ônibus para o resto de tua vida”. Lembro-me disso toda vez que retorno para casa, quando, pendurado no 439, no 351, 423, 329, 442, 446, 304 ou até mesmo no 014, o corpo reclama da jornada.
O que não esperava é que as palavras do Gersinho (antes era Gersão) voltassem a ser pronunciadas como um apelo. Parece coisa feita, como diria dona Varlinda, ou uma tragédia, como diziam os filósofos gregos, para se referir àquilo de que a gente não consegue fugir. A voz veio da última pessoa a deixar o Parintins Convention Center, onde lancei, no sábado passado, meu livro “Entre Linhas”, no qual reúno nossas conversas de todos os sábados.
Foi uma festa linda! Uma boniteza de festa, para usar as palavras da amiga Ivânia Vieira. Na verdade, não era uma festa, era um festival: o Festival Literário Internacional da Floresta de Parintins (o Flifloresta-Parintins), com direito a tudo. Até os personagens de nossas crônicas apareceram por lá.
Papai e mamãe quase me matam do coração. Deixaram o Miriti, mas só depois de dez avisos no Mensageiro da Amazônia da rádio Alvorada. Ficaram na penúltima fila das 600 cadeiras. Kafran, velho amigo da Catedral, chegou puxando a perna e perguntando por seu livro. Deilson Trindade, aquele que morreu e ressuscitou em uma de nossas histórias, também apareceu por lá.
O Bequinho (Roberto Paiva), de quem este ano o diabetes tirou a perna direita, não foi, mas fui atrás do amigo. Não fiquei muito tempo com ele. Também não agüentaria mais do que dois minutos nesse reencontro. Afinal, lembraria do futebol e do drama que passou em casa recuperando-se da enfermidade.
Massilon, Tony e Inaldo Medeiros e Messias Cursino, meus vizinhos, estavam orgulhosos. O Baga (o nome dele é Paulo César), nem se fala. Gritou quando me viu: “A 31 de Março (rua onde nasci e me criei) tem mais um artista”. Mário Cid não pôde ir, mas dona Dagilza o representou muito bem. Foi uma solenidade e tanto. Uma pavulagem só.
O evento foi tão importante para a cidade que o prefeito Bi Garcia e primeira-dama, Michele Valadares, cancelaram viagem à Festa do Guaraná de Maués, eles e o vereador e amigo Petro Velho, se sentaram na primeira fila do Flifloresta.
Ah, de novo, ia esquecendo: a Darci, minha esposa, e o Segundinho, meu filho, não perderam o acontecimento. A Darci até pediu férias, e o Segundo, seguiu rio abaixo.
Horas antes do acontecimento, eu e o Wilson Nogueira fomos ao bairro Itaúna distribuir livros. A distribuição cultural foi parar na beirada, em barcos que levarão nossas palavras escritas sabe se lá para onde.
Pensam que a pavulagem acabou? Não! Os famosos escritores Thiago de Melo, Márcio Souza, Guilherme Fiúza, Zemaria Pinto, Dori Carvalho, Mazé Mourão (que até pastorinha dançou) compareceram à festa, orquestrados pelo maestro Tenório Telles, a quem as Crônicas do Busão rendem homenagens e gratidão.
E foi assim, caros leitores, a festa do lançamento de nosso primeiro filho, na terra onde nasci. Sim! Claro, houve, sim, sessão de autógrafos. Eu ao lado de Thiago, Márcio, Fiúza e Wilson e uma longa fila de amigos querendo conhecer um pouco dos nossos encontros semanais.
Quando tudo já estava encerrado, que me preparo para pegar o tricliclo para voltar para casa, ouço o grito do último cidadão a deixar o Flifloresta. Parecia alguém acordando outro: “Passageiro-repórter! Passageiro-repórter! Não para de andar de ônibus!”. Assim, lembrei o presságio do colega de trabalho Gerson Severo.
Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Marcadores: Crônicas
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À procura de Deus
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Neuton Corrêa*
Não era manhã nem tarde. Era meio-dia. Pontualmente! A panela não estava no fogo, mas a barriga estava vazia. Vazia e longe de casa. Bem longe! Então, peço um caldo-de-cana. A garapa chama um salgado, um croquete (de macaxeira). “De carne ou de camarão?”, pergunta a vendedora: “De carne”, respondo.
Quebro o salgado para colocar pimenta. Aparece uma mulher, apressada, e pede informação: “O 205 para aqui?”. Faço coro com a vendedora: “Não, para na outra.” O motorista freia atrás de outro ônibus. No limite! O cobrador mete a cara na janela e grita: “Me dá um refrigerante, aí!”. A vendedora se apressa e entrega o pedido.
Movimento normal, apesar da agitação. Normal até aparecer o Euder, que acabava de sair do Prato Cidadão (Centro). Saiu do restaurante mexendo com os passageiros que estavam ali perto. O primeiro que o vi cutucando reagiu com um empurrão. Euder só não caiu por que se apoiou em um grupo de pessoas que estava na beira da rua. Uma delas o empurrou de volta (para ele não cair debaixo do busão).
E foi assim, importunando um a um, que Euder chegou a mim (ele estava com o rosto cheio de farinha): - Tu sabe onde mora a Rosa?
Antes de responder, minha cabeça se acelerou a imaginar aquela história no papel. Afinal, não é todo dia que se encontra alguém exalando todo tipo de cheiro em uma parada de ônibus à procura de uma Rosa. Para aproveitar a abordagem, preparo o espírito para suportar o cheiro e respondo-lhe com outra pergunta:
- Que Rosa? - Minha irmã! minha irmã!, grita ele, para o desespero de minha mulher, que a esta altura já estava a metros de distância torcendo a boca por causa de meu interesse por esse tipo de biografias. Como Euder permitiu uma conversa, mesmo que breve, tento saber onde morava. E, para a minha surpresa:
- Moro no Dabaru: - Como!? Dabaru? E ele, de novo, grita: - Dabaru! Dabaru! Dabaru!
Eu, alegre com a resposta, porque, em 1989 conheci um lugar com este nome, replico: - No pé do morro?
Ele, finalmente, fixa o olho para o meu rosto e pergunta em voz baixa e sem repetir as palavras: - Tu sabe onde é? - Sei, em São Gabriel da Cachoeira (Dabaru é um bairro da cidade), não é?
Bastou eu falar isso para ele começar a molhar os olhos e a tentar beijar minha mão. Foi nesse momento que perguntei o seu nome e ele respondeu: - Euder. - Euler? E ele outra vez grita, repreendendo-me: - Não, meu nome é Euder. Euder Ribeiro de Souza! Euder Ribeiro de Souza! Euder Ribeiro de Souza!
Procuro contê-lo, mudando de assunto:
- E você procura a Rosa?
Juro, a resposta me pegou de surpresa:
- Não, eu procuro Deus.
Meu Executivo 807 apareceu e não deu mais para conversar com o Euder, de 39 anos, que ainda ficou lá, falando para mim: “Honra teu pai e tua mãe e os dias de tua vida serão prolongados”.
*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia-Ufam. Marcadores: Crônicas
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Gabriela
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Lúcia Carla Gama*
Chova ou tenha lua, qualquer delas – cheia, minguante, crescente ou nova – ela está lá, na esquina da rua que dá acesso ao condomínio de luxo. Loura, boa estatura, corpo esbelto, chega não se sabe de onde. Vem sempre por volta das 18h, os últimos raios de sol ainda acesos nestes tempos de verão amazônico.
Costumeiramente, veste um short bem curto, que mais parece a calça maior de um biquíni, e um soutien de lycra, como se fosse a parte de cima do suposto duas peças. As roupas minúsculas têm adereços, brilhos e fios cintilantes, que lhes confere um ar solene, mais chique.
Nos pés, sempre, um par de botas. Marrom, preto, amarelo, azul, vermelho, lilás, modelos variados, como as cores, canos altos ou mais baixos, todos saltão 15. No cano das botas, numa grafia caprichada, lê-se o nome Gabriela, quando o espaço permite, ou Gabi, no caso de botas de canos mais curtos.
Na esquina da rua movimentada, ela desperta interesse e consegue clientes em busca de prazer, sexo livre. É comum ver um carro e outro parando para pegá-la ou devolvê-la ao ponto do negócio. Desperta também curiosidade: é mulher mesmo ou se trata de um traveco bonito, bem cuidado?
Os moradores do condomínio de luxo já acostumaram a passar pela figura ao entrar e sair de casa nas noites manauaras. Uns olham e cumprimentam com uma leva buzinada, a tratam ternamente por Gabi, e mostram a quem os visita, como se fosse uma peça de decoração. Outros ficam constrangidos e censuram a presença da moça nas proximidades do local de residência. “Isso não é coisa que se faça, tanto emprego, e tantas formas de ganhar vida com mais decência”! E a polêmica gira em torno da loura garota de programa.
Até que uma noite, numa reunião de condomínio no condomínio de luxo, Gabi ganhou os holofotes. Em meio às discussões sobre melhoria do local de moradia, regras de comportamento e boa convivência, um jovem médico, 30 anos no máximo, seis meses de casamento, sentencia ser necessário tirar a prostituta do ponto em que fica, em respeito à moral e aos bons costumes. “Sabe como é, né? Acabei de casar, daqui a pouco terei filhos e não gostaria que eles vissem aquela mulher ali, naqueles trajes”, afirma ele, fazendo com que todos lembrassem, em silêncio, os versos antigos e tão atuais de Belchior “apesar de termos feito tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.
Sugestão ouvida e não comentada, os condôminos deram seqüência à reunião. E após discussões e providências a tomar encerraram o encontro. Foi então que, tendo partido o jovem médico, no momento dos comes e bebes, um empresário, bem mais vivido, casamentos feitos e desfeitos, filhos crescidos, não se contém: “Puta que pariu, o cara quer tirar a Gabi da esquina e eu, doido, querendo saber quanto ela cobraria para escrever o nome da minha loja naquela bota”!
*JornalistaMarcadores: Crônicas
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O filho da machuda
segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Neuton Corrêa*
Ele estava na praça, em frente à igreja, debaixo de um pé de benjaminzeiro. Com um livro na mão direita, erguido acima de sua cabeça, socava o ar e apontava o olhar para o céu, como quem a Deus suplica. Às vezes, passava o livro para a outra mão e colocava o dedo em riste na direção dos carros que passavam por ele.
Houve um momento em que ele virou balanço: colocava um pé na frente e outro atrás e ficava nesse vaivém até girar no próprio eixo para retornar novamente o balanço. Quando, enfim resolveu parar, colocou os joelhos na calçada e abraçou o livro ternamente em seu peito.
De longe, logo que eu desci do ônibus, achei que estivesse fazendo uma pregação, mas, ao me aproximar dele, percebi que de sua boca não saía nenhuma palavra. Seus lábios produziam apenas gestos. Parei para assisti-lo e não sei por quanto tempo ele permaneceu ali em seu ritual.
Não percebi o tempo passar porque minha memória não me permitiu. Ela insistia em lembrar das duas outras vezes que o tinha visto. Isso não faz muito tempo, não. Menos de cinco anos. A primeira delas foi no estacionamento do Vivaldão. Lá, ele era flanelinha, o mais vistoso de todos os guardadores de carros.
Naquele dia, ele calçava um coturno, vestia uma calça rajada do Exército (era uma calça bem maior do que o corpo dele), bombachas armadas nas pernas e por baixo do rajado usava uma camiseta branca. Parecia um militar em trajes de serviço administrativo. Aquela marmota me fez parar para conversar com ele.
Ele ainda era muito moço nesta época. Tão moço que as bolhas infeccionadas de seu rosto ainda começavam a sair.
Na segunda vez que o encontrei, ele estava a bordo do 125, o ônibus da Ufam (agora já sei que ele mora aqui perto do jornal). Nesse dia, embarquei perto do Hospital Getúlio Vargas, no Boulevard. Ele já estava na viagem, mas não o notei. Estava a dois assentos de mim. Entre mim e ele havia dois rapazes, que gastavam o tempo a se gabar de suas aventuras sexuais.
Ah, antes de começar a falar das namoradas, eles explicavam um para o outro a razão de estarem ali de ônibus. “Meu pai quer me dar um carro... eu é que não quero”. O outro concorda e acrescenta: “Meu pai também quis me dar um, mas eu disse para ele: ‘pai, eu quero ter as coisas com o meu dinheiro’”. E assim foram.
Depois de mostrarem suas posses, começaram a falar das aventuras amorosas: - Tu sabes a fulana (não conseguir compreender o nome que ele pronunciou)? O outro respondeu: - Sei! - Eu saí com ela. - E aí, rolou? - Rolou, não. Surpreso, o amigo perguntou: - Por que, cara? Ela é boa paca! Em seguida, ele explica: - Eu levei ela, mas na hora ela impôs uma condição... - Qual? - Disse que só ficaria comigo se a namorada dela fosse também. Foi aí que vi o flanelinha. Ele se levantou da cadeira à frente e disse para os dois, timidamente: - Ei, cara, isso não tem problema, não. Minha mãe é machuda. E o silêncio se estabeleceu até a universidade.
*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam). Marcadores: Crônicas
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Teste para cego
sábado, 14 de novembro de 2009

Neuton Corrêa*
Meu tio se tornou famoso na medicina (popular) desde o dia em que curou a crônica dor de cabeça da mulher de um amigo. Bastou um galho de vassourinha na mão direita, a mão esquerda na cabeça dela, cinco Creio em Deus Pai, três Salve Rainha, três Ave Maria e três Pai Nosso, para que a amiga voltasse à vida.
Até o amigo se convenceu dos poderes de meu tio. Pudera! Assim que começou a benzer a cabeça da mulher, pediu um copo d’água e mudou de voz; com o galho de vassourinha, aspergia o corpo da paciente da cabeça aos pés; ao terminar o ritual, suado, balançou a cabeça, recuperou a voz natural, perguntou para onde o Sol se punha e nessa direção atirou o ramo, que já estava murcho.
Titio foi tão convincente que, no início da noite, ao ligar para o amigo em busca de informação da esposa, ouviu: “Rapaz, ela está tão bem que acabou de ir para a igreja agradecer o milagre que você fez”. Ele também se achou. Tanto que sempre que pode faz questão de lembrar do caso.
O que eu não sabia sobre o meu tio é que ele tivesse o poder de curar cegueira. Tenho certeza que o método usado por ele nunca foi aplicado pela Oftalmologia. E isso não faz muito tempo, no máximo dois meses.
Esse tio é o mais ilustre irmão de meu pai. Lucinor Barros é o nome dele, o mais novo de uma família de sete irmãos. Está com 65 anos e agora, aposentado, passou a viver como turista, sempre acompanhado da esposa, Lisa (Lisamar). Tenho por eles um carinho muito grande, afinal, meu primeiro presente (um carrinho de ferro) foram eles que me deram. Isso foi no Natal de 1977, quando eu estava com sete anos.
Lucinor tem importância histórica para o Brasil. Uma de suas criações ainda será objeto de muitos estudos. Aos 22 anos de idade, fundou a maior manifestação popular da Amazônia, o Festival Folclórico de Parintins. Lamenta o fato de nunca ter recebido um convite para assistir à festa que criou, mas não se perturba com isso.
Não se perturba porque sempre está bem humorado. Agora, por exemplo, que está de volta ao Amazonas, após longos anos em Boa Vista, soube que o irmão Sabino havia sido acometido de um derrame (Acidente Vascular Cerebral). Procurou-o em Manaus e não o encontrou.
Lucinor, porém, não desistiu. Descobriu que o tio Sabino estava morando na cidade de Presidente Figueiredo e para lá se tacou. Esta semana, encontrei o titio a bordo do 422. Ele embarcou na parada do condomínio São Judas Tadeu. Na viagem, ele me contou como foi o encontro com o irmão:
“Menino (ele sempre começa a falar assim), eu olhei pro Sabino e estranhei: - Como é que tu tivestes um AVC e não tem uma sequela? Aí, ele respondeu: - Eu só perdi a vista. Perdi um lado do olho. Só consigo enxergar do direito. Do olho esquerdo não enxergo nada. Nada! Menino, eu desconfiei daquilo. Aí, resolvi aplicar um teste: - Faz o seguinte, Sabino, fecha o teu olho bom. Tapa ele com a mão. - Assim? - Isso, deixa só o olho cego aberto. E perguntei: Tu ta vendo alguma coisa? Aí, ele respondeu: - Não! Não enxergo nada. Menino, aí eu peguei e fiz assim (ele armou dois cotocos bem firmes nos dedos) e botei na cara dele. Na hora, o Sabino caiu na risada. E eu disse para ele: - Tá doido, Sabino, pensa que sou leso?” Ri de meu tio e fiquei imaginando o teste para cego.
*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia;Ufam. Marcadores: Crônicas
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O feio
domingo, 8 de novembro de 2009

Neuton Corrêa*
Não via o Bitinho havia muito tempo, desde o dia em que a mãe dele, com uma criança no colo, e seus irmãos saíram correndo na rua, desesperados, pedindo socorro. Bito, como também era conhecido, foi o único a ficar na casa. Fechou a janela e a porta da frente e até hoje nunca mais pôs os pés de volta ali.
Bitinho era o primeiro filho do Bitoca, o terceiro comerciante a se instalar na rua de casa. Isso ainda no fim da década de 1970. Era um visionário. Enquanto o mundo desconhecia segmentação de mercado, Bitoca já possuía um comércio especializado. Só vendia cachaça. Preferia vendê-la em dose. Ganhava mais.
Bitinho nasceu e se criou ali. Parecia imitar o pai em tudo. Passava horas sentado atrás do balcão à espera dos clientes de sempre. Ah, antes de seguir na história, convém um parêntese. Bitoca também inovou no nome do empreendimento. Era um comércio com nome e sobrenome: “Quiosque do Bitoca São Jorge: ponto dos amigos 100% todos nós”.
Bitoca morreu, e Bitinho tomou a frente do negócio. Ainda era adolescente quando herdou o “Ponto dos Amigos”. Tocou o quiosque até onde pôde. Sem conseguir enfrentar a concorrência, migrou o investimento para o setor de frutas e verduras e ajudou a mãe e irmãos mais novos.
Por trás do balcão do quiosque, porém, Bito não escondia apenas o corpo. Acalentava ali também uma decepção. Estava com 25 anos de idade e nenhuma garota havia se interessado por ele. Além disso, nunca foi correspondido em suas investidas.
Bitinho fazia de tudo para chamar a atenção das meninas. Estava à frente da moda. À noite, quando deixava o Ponto dos Amigos, sempre aparecia com novidades. Lembro-me da calça-balão e da camisa branca de mangas cumpridas que vestiu para ir ao Palmeiras Clube. Não tinha como não chamar a atenção para si. Mesmo assim, não arranjava nada.
Nem as bicicletas novas que comprava lhe ajudavam. Nem as que mandava enfeitar: colocava retrovisor no guidão, brilhava os raios e até estofado colocava na garupa. Mas nada disso o ajudava. Apenas aumentava seu sofrimento.
Sua angústia chegou ao extremo quando começou a perceber que toda a garotada de seu tempo já estava casada. Passou então a se achar o rapaz mais feio do mundo. Perturbado com isso, tentou dar fim à própria vida por várias vezes. E todas as vezes foi salvo.
O drama do Bitinho não parou por aí. Pelo contrário, aumentou. Aumentou no dia em que soube que o Claudemir, com quem partilhava as angústias, havia casado. Claudemir era seu grande amigo. Bitinho o julgava mais feio do que ele.
O casamento do amigo era a senha. Estava na hora. Mas achou que sua família inteira também deveria morrer. Ofereceu-se então para fazer o almoço. Era um caldo de tambaqui. Sem remorso algum, Bito adicionou veneno para rato e chamou a mãe e os irmãos para comer.
Foi nesse dia que sua mãe, com a criança no colo, e seus irmãos saíram correndo para a rua. Na hora em que o seu irmão mais novo colocou a colher no prato, Bitinho se arrependeu e falou do tempero que havia usado. Com o histórico suicida dele, ninguém pensou duas vezes. Lembro-me ainda hoje dos gritos de sua mãe depois que ele fechou a janela e a porta: “Meu filho, não vai comer isso! Você é o meu filho lindo!”.
Desde esse dia, Bitinho sumiu da rua. Encontrei-o esta semana. Estava a bordo do 301. Levantei para falar com ele, mas, ao me aproximar da cadeira onde sentava, vi o Bitinho, concentrado, de mãos dadas com uma jovem muito simpática.
*Filósofo, mestrando do programa de Pós-Graduação, Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: Myrria. Marcadores: Crônicas
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O bêbado tricolor
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Neuton Corrêa*
Tudo foi muito rápido. O professor aterrissou no asfalto no mesmo instante em que o ônibus fazia a curva. Sua cabeça ficou posta na direção das rodas. Ele ainda tentou se levantar, mas suas pernas o empurraram um pouco mais para frente. Para não ver a cena, vedei os dedos e levei as mãos aos olhos, que já estavam fechados.
Impotente, testemunhava tudo da parada de ônibus da Escola Estadual Santana, a poucos metros do jornal. Antes do pouso forçado, o professor olhava para frente, queria andar para frente, mas suas pernas não obedeciam. Mirava para um rumo e ia para outro. O máximo que conseguia era caminhar como caranguejo: apenas para os lados. Na verdade, apenas para o lado esquerdo. Para o direito, não dava. O muro o impedia.
Como não conseguia andar pela calçada, tentou a estratégia da aranha: andar seguro à parede. Encostou o peito nas grades de proteção da sede do Serviço Geológico do Brasil, perto da Susam, e começou a se deslocar. Deu alguns passos, mas desistiu. Ora as mãos não acertavam o ferro, ora eram as pernas que não lhe suportavam.
Depois disso, virou de costas para os ferros e escorregou. Desceu lentamente pelo gradil, sentando-se ao chão. Com a cabeça cambaleando, passou as mãos na calçada, como quem prepara a cama para dormir, mas imediatamente deu um súbito salto, frustrado com uma queda. Mas ele não desistiu.
O professor tentou novamente ficar de pé, porém, descobriu que, naquela hora, andar como os humanos era uma coisa impossível para ele. Tanto que, obstinado a chegar em casa, dobrou os joelhos na calçada, inclinou o peito para o chão, pôs as mãos na frente e, como um quadrúpede, continuou a caminhada. Mas caiu outra vez.
A cena me fez lembrar a dupla Manelito e Roberto Carlos. Eram dois carregadores do mercado central de Parintins que não se desgrudavam. Manelito era o mais velho. Andava com a cabeça baixa por causa da corcunda, que ficava ainda mais saliente com um nó que tinha no meio da costa. Roberto Carlos era famoso por atacar mulheres e sempre apanhar de suas vítimas.
Manelito e Roberto Carlos passavam de madrugada para o trabalho e só retornavam para casa no início da noite, geralmente, costurando a rua. Um dia protagonizaram um episódio que sempre me lembro quando vejo um bêbado enrascado.
Os dois retornavam do trabalho. Com dificuldade, conseguiram chegar no longo muro do cemitério, pela rua Clarindo Chaves. Roberto Carlos se encostou ao muro. Manelito ajoelhou e andou de quatro. Perto do fim do muro, Roberto Carlos começou a rir, dizendo para o colega, com a voz travada:
– Manelito, tu não vai chegar em casa. Teu joelho não vai agüentar. Manelito, porém, reagiu: – Eu vou chegar. Tu é que não vai. Quero ver o que tu vai fazer quando o muro acabar.
Enquanto lembrava de Manelito e Roberto Carlos, o professor continuava seu esforço. Até então nem sabia quem era ele. Aliás, nem sei se é professor. Chamo-o assim, porque um dia, antes de descer para a Ladeira do Forró (clube que funciona ao lado do jornal, às quintas-feiras), ele passou por lá e se apresentou como tal: professor de Matemática.
Pois bem, naquele dia em que ele estava embriagado, meu susto só passou depois que o ônibus cruzou o ponto onde eu estava. O professor continuava estendido no asfalto e se debatendo. Corri o mais depressa possível, porque, logo atrás, uma carreata de flamenguista estava se aproximando. O risco era maior porque o professor vestia uma camisa do Fluminense, contra o qual o Flamengo havia acabado de jogar.
*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Ilustração: RomahsMarcadores: Crônicas
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A caminhada ideal
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Massilon de Medeiros Cursino*
Havia escolhido meu Bairro para ser minha pista de caminhada. Sairia de casa, no final do “Palmares”, e iria até o sinal do cruzamento das ruas Paraíba e Rio Branco. Já havia antecipadamente marcado no hodômetro de minha motocicleta que aquela distância era equivalente a um quilômetro. Um de ida e um de volta. Faria 2 quilômetros diários, ideal para iniciante.
O ziguezague entre a rua e a calçada acresce a distância, algo em torno de 100 metros. As calçadas foram invadidas por casas, umas confundem passeio com o pátio e o morador, com o espírito de propriedade, chega a se ofender caso o pedestre use aquilo que presume ser seu.
O que seria só uma caminhada se transforma em alternância de andar e correr, diante das ameaças dos cachorros criados na rua, sob o olhar do dono que só se manifesta quando a carrocinha pega alguns deles. De acordo com meu amigo soldador “Pimenta”, só na curvinha, perto da escola, há 4.542 cachorros. É claro que isso é um exagero, pois são muitos os cachorros, mas não tantos assim!
O pior é que na minha Rua tem um vizinho criando um pit bull. Por conta disso, meus filhos deixaram de fazer as compras no comércio da esquina e tudo sobrou pra mim. Uma caixa de fósforos que falte e lá vou eu!
Contudo, o que é interessante é que o vizinho que resolveu criar um pit bull não é tão fortão ou “forçoso”, já que geralmente os donos de pit bull são do tipo bombados, isso já foi provado cientificamente. Há estudiosos da psicologia que levantaram teses de mestrado e doutoramento sobre o assunto: “ele é um cão que se molda ao seu dono”. No caso de meu vizinho, ele é uma exceção à regra, porém tirou o lazer de meus filhos passearem de bicicleta pela rua e até de fazerem pequenos mandados.
Retorno da caminhada indicada para o stress, para o condicionamento físico e para o coração, mormente mais estressado do que saí. Pior ainda foi avistar o portão da minha residência escancarado e minha cachorra dálmata “Pandora” na rua. E ela já assustou uns três transeuntes que passaram pelo local.
Para não acharem que estou ficando cafona ou chato, o jeito vai ser eu reduzir ainda mais o meu espaço: Vou limitar a fazer minha caminhada dentro de meu terreno e em volta da minha casa!
*Economista, Bacharel em Direito, Pós Graduado em Gestão Pública, membro da Academia Parintinense de Letras. Marcadores: Crônicas
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Manaus: a cidade-criança
sábado, 24 de outubro de 2009

Neuton Corrêa* Manaus completa hoje 340 anos de idade. Nem parece. Ainda é uma criança, aos olhos de sêo Amaral, o vendedor de merenda da parada de ônibus do Inpa, onde costumo tomar cafezinho antes de entrar no jornal.
Conheço sêo Amaral desde o tempo em que o empreendimento dele era apenas um tabuleiro de madeira com divisórias para separar os bombons das gomas de mascar de todas as marcas. A garrafa de café que ele levava, e a mantinha escondida debaixo da mesa, só aparecia em momentos raros, quando ele oferecia cafezinho aos clientes mais chegados.
Recentemente, ele ampliou o empreendimento. A mesinha improvisada deu lugar a uma armação metálica coberta com uma lona azul, onde mantém as caixas de bombons, montou uma vitrine de vidros para salgadinhos e tem um freezer com água, refrigerantes e sucos.
Lembrei-me dele hoje por causa da resposta que me deu, num dia em que lhe perguntei o que achava da cidade. E ele, com a tranquilidade e a sabedoria de seus setenta e poucos anos, respondeu: “Manaus é como uma criança: só faz crescer”.
Não sei sob qual perspectiva ele falava. Nem dava para aprofundar a conversa. A brevidade do encontro e o movimento da clientela do meio-dia impediam. Só não dava para deixar de perceber que a frase se traduzia na mais profunda definição que já ouvi sobre o lugar que escolhi para morar há dez anos.
Talvez estivesse falando apenas do crescimento que testemunhou em mais de sete décadas. A Manaus de hoje não é mais a mesma do tempo que cheguei por aqui. Muito menos semelhante a que seus olhos viram crescer desde a infância.
Sinceramente, poderia imaginar mil coisas sobre sua frase, mas não conseguiria penetrar o sentimento que o movia para comparar uma cidade de mais de três séculos com uma criança. Porém, isso não me impede de perceber o poder de imaginação que ela produz.
Desde o dia em que sêo Amaral me disse que Manaus era uma criança, por exemplo, imaginei a cidade como uma menina peralta, feliz, mas ao mesmo tempo desprezada, abandonada, órfã.
Mil coisas me ocorreram desde aquela conversa. Até pensar que todo dia, no fim de tarde, a cidade-criança convida para brincar. Quer que eu fique mais tempo com ela na rua. Mas toda vez estou cansado, estressado, sem tempo. Além do mais, não vejo graça nenhuma em brincar de engarrafamento.
Talvez não seja um convite, mas um apelo, um grito. Afinal, a criança quando não é ouvida, chora. Quem sabe não seja isso que sêo Amaral tenha falado: Manaus é uma criança e precisa de 1,6 milhão de pais.
*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).
Ilustração: Myrria. Marcadores: Crônicas
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As lágrimas da pedinte
sábado, 17 de outubro de 2009
Neuton Corrêa *
A presença da pedinte no 215 me deixou intrigado. Assim que embarcou, na primeira parada da avenida Djalma Batista, ela passou a abordar os passageiros em conversas de pé-de-ouvido. Minha reação se dividia entre o desejo de não ser importunado e o de tentar saber o que ela estava falando.
Eu a conhecia de velhos tempos e tinha quase certeza de que ela se lembraria de mim. Mas não me reconheceu, ou não quis me reconhecer, pois logo que se colocou ao meu lado, sequer levantou os olhos. Manteve a cabeça baixa o tempo todo.
Mesmo assim, ainda consegui observar a mudança que o tempo lhe deu. As rugas do rosto e os ralos cabelos, agora brancos, não lhe tiravam os traços daquela senhora que vi desesperada chorando a morte do filho há quase 20 anos. A conversa dela também continuava a mesma. Não diminuiu nem acrescentou uma palavra. Era como se tivesse feito uma gravação e posto para rodar novamente. Fez apenas algumas adaptações na trama.
Quando ouvi a história pela primeira vez, em 1991, confesso que fiquei extremente sensibilizado. Tanto que usei o programa que participava na rádio Alvorada de Parintins para mobilizar uma campanha e ajudá-la. O que ela contava havia acontecido. Era verdadeiro. Passou pelos meus olhos. Como repórter, cobri o drama que se abateu sobre sua família há 18 anos.
Foi em uma tarde quente de domingo do verão daquele ano. Eu era plantonista do fim de semana. A notícia se espalhou como o fogo que destruiu a casa dessa senhora, na testeira de uma ladeira do bairro Santa Rita de Cássia, à época, um loteamento com casebres de palha, entre os quais o dela, que foi devorado pelas chamas.
Ao chegar no local do acidente, o desespero tomava conta dos voluntários que ajudaram a apagar o fogo. O drama não era para menos. Embrulhado por uma rede em cinzas, perto de um pote de barro que permanecia em pé, estava ali o corpo do filho dela, de dois anos de idade, como um pedaço de carvão.
Lembro que após aquele momento um grupo de pessoas se reuniu para reconstruir a casa. Ergueram uma bem melhor. E ela, então, passou a percorrer casa a casa, geralmente, pedindo comida e dinheiro. Quando bateu em minha porta, imediatamente lembrei da aflição dela ao lado do corpo do pequeno Geter.
Fiz o que pude e o que não deveria ter feito por ela: até emprestar-lhe minha Monark, pela qual nutria grande ciúme. Mas dei um basta nisso, quando, em 1995, descobri o outro capítulo de sua história. Talvez o primeiro capítulo do livro que se possa escrever sobre isso.
Dois anos antes do incêndio em sua casa, ela já era pedinte. Aplicava a mesma conversa que passou a usar depois da tragédia da morte de seu filho. Dizia que precisava de qualquer ajuda porque sua casa, na zona rural, havia sido queimada com seu filho dentro.
Quem me contou isso foi a Neia: “O incêndio na casa dela dava para ser visto da minha. Corri para ver e fiquei nervosa porque a mulher que estava chorando a perda do filho era a mesma que há muito tinha procurado a loja (Neia era dona de um supermercado), contando uma história que se parecia com aquela que estava acontecendo naquele momento”, relatou minha amiga, tremendo e apontando para os pelos arrepiados dos braços.
Esta semana, quando a pedinte sentou ao meu lado, tive o impulso de tentar fazê-la lembrar de mim, mas preferi ouvi-la. Só que desta vez ela não falava da morte de um filho. As novidades na história dela eram a morte da neta, carbonizada no incêndio de uma vila no bairro Praça 14, e as lágrimas que rolavam em seu rosto.
*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia-Ufam. Ilustração: RomahsMarcadores: Crônicas
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O bêbado e a boca-de-lobo
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Neuton Correa*
Bêbado todo mundo conhece ou já viu um. Muitos até experimentaram os efeitos etílicos no coro. Outros experimentam sempre. E uns de vez em quando. O problema é a boca-de-lobo. Poucos sabem do que se trata, até porque ela designa muitas coisas. Então, antes de começar a história julgo necessário esclarecer as dúvidas sobre isso.
É importante explicar, porque a idéia que a palavra traz é a da boca de um animal. Assim imaginei quando a ouvi pela primeira vez, ainda garoto, trabalhando com meu pai, que era carpinteiro. Ele pediu que fosse à casa do vizinho emprestar a dita boca-de-lobo. Saí de lá pensando numa cabeça de cachorro. Mas não era isso.
A boca-de-lobo que ele queria era outra coisa. Também não era aquele nó que se dá em punho da rede de dormir para deixá-la mais alta. Muito menos era um bueiro, como diz o Dicionário de Aurélio, que consultei para ver o significado formal da palavra composta por dois substantivos e uma preposição.
Bem, a boca-de-lobo é uma ferramenta, que também chamam de draga. É feita de duas lâminas de ferro em forma de concha. Cada uma delas tem mais ou menos trinta centímetros e se ajustam uma na outra por intermédio de um eixo, que permite o movimento semelhante ao da boca, que abre e fecha.
A outra parte desta ferramenta são os cabos de madeira, que se acoplam às lâminas. São do tamanho do cabo de vassoura, porém mais grossos.
Pois bem, feito esse intróito, vamos à história do bêbado. Ela aconteceu a bordo do 430, há uma semana, na AM-010 (Manaus-Itacoatiara). Era um cidadão que arrastava uma das penas. Entrou pela porta da frente sem pagar passagem. Na chegada, exigiu o assento reservado para deficientes e conseguiu. Afinal, além da perna atrofiada, ele ainda estava às quedas.
Assim que se acomodou, começou a falar só e a importunar quem estava perto dele. Mexia com quem entrava e saía do ônibus. E foi num desses movimentos de embarque e desembarque que subiu uma pessoa segurando a tal boca-de-lobo. A ferramenta estava com as lâminas embrulhadas por um pedaço de pano e os cabos amarrados com cordas de nylon.
O bêbado, com a cabeça balançando e os olhos quase fechados, assim que percebeu o cidadão se equilibrando com as tralhas que levava, saltou de sua cadeira e gritou: “Ei, cara, senta aqui no meu lugar. Esse lugar é para nós. Aqui só senta quem é especial!” Ninguém agüentou, afinal, não é todo dia que se encontra um bêbado educado. Ainda mais cedendo um lugar a outro, numa viagem de sábado à tarde, superlotada e em uma linha que passa uma hora sim e duas, não.
Com a cordialidade do porre, o homem que carregava a boca-de-lobo não perdeu tempo. Pegou a draga, uma saca que levava com algumas mudas de coco e prontamente se sentou no lugar onde estava o alcoólatra. A gentileza dele deixou todo mundo sem entender a razão. Pensei até que fossem velhos amigos, mas não eram.
Só descobri a intenção do gesto do bêbado quando, alguns minutos depois, ele voltou a gritar: “Pode sair daí. Tu não é deficiente coisa nenhuma. Nem isso aqui é uma muleta. É uma boca-de-lobo. Pode me devolver o lugar”.
A confusão e as gargalhadas continuaram até o fim da linha.
*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação, Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Marcadores: Crônicas
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A ‘percura’
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Neuton Corrêa* Tomei um susto enorme! A mulher que sentava atrás de mim meteu a cabeça e o bedelho na conversa que tinha com meu irmão a bordo do 329. Parecia tão envolvida com o papo que já entrou dando pissica. O susto só não foi maior porque o sotaque dela eliminava qualquer ameaça que pudesse vir daquela vozinha.
Acho que ela vinha prestando atenção na gente havia muito tempo, porque nós estávamos quase sussurrando. Se bem que um sussurro num ônibus velho é um grito. Mas a intervenção da mulher foi tão precisa, tão precisa que parecia a terceira pessoa do diálogo.
Tive vontade de rir, mas o Ricardo, meu irmão, de pavio curto, não. Ele fechou o rosto, porém, antes de reprimi-la, a envolvi na conversa. Afinal, às vezes, no busão, tem cada diálogo que dá vontade de meter o bedelho, mesmo.
Lembro, por exemplo, da “sereia de Manaus”. Era o comentário do 423. Todos, ali, estavam convencidos de que o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) havia recolhido de pescadores do lago Tarumã um peixe de cauda longa e cabeça com traços humanos. Ouvi até um passageiro dizer: “Isso é o fim do mundo!”
Assim que vi a zoeira sobre o peixe estranho, procurei saber sobre o que estavam falando. E identifiquei! Era um aparelho celular que corria de mão em mão com um vídeo do YouTube. Quando chegou minha vez de olhar a imagem, tive vontade de dizer que aquilo era uma armação. Mas, na naquela hora, tolo seria aquele que não quisesse acreditar que em Manaus existia sereia.
Outra vez que quis virar o olhar para uma conversa de ônibus foi quando as prevenidas entraram no 505. Eu não queria opinar sobre nada, apenas ver o gesto que imaginava que elas poderiam estar fazendo. Eram três jovens baixotas, peitudas, pernas curtas e grossas.
Elas se gabavam uma para outra: “Peguei uma desse tamanho.” A outra completava: “Peguei um assim, ó!” A terceira perguntou para as duas: “Mas tinha preservativo para isso?” As três riram, e uma falou: “Eu uso é de duas.” Confesso, senhores, que consegui conter a curiosidade.
Pois bem, no dia em que peguei o 329 com o Ricardo, antes de tocar no assunto que a mulher não resistiu, já havíamos falado de vários temas. Mais coisas de família, puxadas pelas clássicas perguntas: “Como vai o fulano? Como vai o sicrano?”
Mas o Ricardo não queria falar disso. Queria tratar da parede que mandou embuçar na casa dele. Antes de iniciar o serviço, quis me ouvir sobre pedreiro. Indiquei o Chagas, que já trabalhou em casa, mas ele achou caro.
Ricardo achou melhor contratar um vizinho e, para baratear ainda mais o custo da obra, pôs a mão na massa como servente. Deu no que deu. Arrependido, meu irmão me confessou: “Se eu pego esse f.d.p. hoje, nem sei do que seria capaz de fazer com ele”.
Foi aí que a bisbilhoteira colocou a cabeça entre nós e disse: “Ah, meu filho, te ‘acarma’, ‘te acarma’, porque pedreiro é que nem marido: a gente ‘percura’, ‘percura’, ‘percura’, ‘percuuuuuura’ e não acha um que preste.”
Olhei para ela e concordei: “É verdade, e a senhora vai ter que ‘percurar’ muito”. E nós três continuamos a conversa.
*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.Marcadores: Crônicas
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Um ano de Busão
sábado, 26 de setembro de 2009

Neuton Corrêa*
Hoje o Sol passou por aqui, acordou a passarinhada, beijou uma flor amarela de ipê do Parque Samaúma e saiu radiante, mais radiante do que costuma ser. Afinal, ele não encontrou mais o Marcos Victor perambulando, pedindo um pedaço de pão e um pouquinho de café da vizinhança.
Pensei que o Sol ficaria triste. Ele já estava acostumado com o Victor. Era o Victor quem o acordava. Em casa, chegavam quase juntos, ele e o Sol. Eu era o terceiro do encontro. Ia para frente de casa para pegar o jornal e lá estava meu pequeno vizinho com os primeiros fachos de luz no rosto. Depois que eu entrava, os dois saíam juntos sabe-se lá para onde.
Vocês talvez não estejam lembrados do Marcos Victor. Talvez também estas letras sejam as últimas que dedico a ele. Trata-se de meu vizinho, meu pequeno vizinho. Hoje, tem seis anos. Foi abandonado pela mãe em uma boca de fumo quando ainda estava no terceiro ano de vida. Aos cinco, mostrava conhecer todos os códigos da casa.
Contei a história dele pela primeira vez, aqui nesta coluna, no último dia 4 de abril. Não agüentava vê-lo sair casa a casa em busca de comida. Nem tinha mais coração para tanto susto em ver os carros freando perto de seu corpinho para não atropelá-lo. Não encontrou nenhum amparo, a não ser os bochichos dos vizinhos.
Quase três meses depois, na festa de São João da Mãe Emília, tive outra notícia do Victor. Ele estava internado. As primeiras notícias davam conta de que ele havia sido molestado por um adulto que frequentava a bocada. Contei novamente a história, publicada no último dia 27 de junho.
Sabe, aquele dia marcou em mim a história do busão. A ilustração do Myrria não me saía da cabeça. Toda vez que olhava para o menino lembrava da fogueira apagada e das bandeirinhas chorando a falta das peraltices dele na festa.
Essa história, senhores, chegou aos ouvidos das autoridades que cuidam dos Direitos da Infância e da Juventude. Por causa das providências que tomaram, amigos do busão, ele nunca mais teve que sair de madrugada para mendigar. Aliás, nem sei por onde ele anda. Mas tenho a certeza que está protegido, está estudando e finalmente começando a fazer amizades com pessoas de sua idade.
Sinto saudade dele porque não o encontro mais. O Sol, também, dele terá muitas lembranças dos encontros que tínhamos quase todas as manhãs, debaixo do jambeiro. Mas, certamente, estará muito feliz em ver seu amiguinho sonhando o sonho que nunca sonhou.
Hoje, que completamos um ano desse encontro de todos os sábados, e lá se vão 52 crônicas, compartilho, com esta prestação de conta, a alegria de poder me encontrar com vocês todas as semanas.
*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Myrria Marcadores: Crônicas
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Dia de sorte do assaltante
sábado, 19 de setembro de 2009

Neuton Corrêa*
O desespero do assaltante era tanto que ele pedia socorro à polícia. Os gritos que se ouviam no 418 vinham do 352. Eram tão apavorantes que o motorista freou bruscamente o carro. Quem sentava à janela pôs a cabeça para fora. Outros se esticavam por trás para ver o que estava acontecendo. E eu saquei a caneta e puxei da mochila minha caderneta de anotações.
Tomando cotoveladas e dando empurrões, consegui descer do ônibus. A esta altura, o 352 já estava cercado de curiosos. De dentro, ouviam-se apelos: “Chamem a polícia, pelo amor de Deus! Ele vai matar o assaltante”. O medo dos passageiros era de um policial militar alto e bombado que arrastava para fora do ônibus um corpo raquítico pelo pescoço.
Já no chão, o PM pressionou ainda mais o pescoço do bandido com o braço direito e tentou sufocá-lo, apertando o nariz com a mão esquerda. Aquela cena tirava o ar até de quem assistia à violência. Mas a agonia só estava começando. A situação ficou ainda pior quando outro rapaz começou a chutar o assaltante.
Por um instante, vi que ele estava nos últimos momentos de sua vida. Dominado, à beira da rua, a vítima se debatia como um animal em sacrifício. Da boca, o sangue começava a escorrer; o rosto escurecia rapidamente; e olhos arregalados revelavam que ele estava para dar o último suspiro.
Populares começaram a se revoltar contra a brutalidade. As pessoas que antes apoiavam a agressão passaram a sair em defesa do ladrão. Mas era um apelo em vão, pois o policial imobilizava o rapaz como animal sobre sua presa.
Eu também não segurei a indignação. Pedi que o PM bombado parasse com a violência, mas fui intimidado pelo segundo agressor, que tentou tomar a caderneta e o telefone celular que eu usava como máquina fotográfica. Me impus dizendo que eu era o repórter do busão, mas foi pior.
A confusão se voltou contra mim, mas não aliviou a situação do assaltante. Ele continuava sendo massacrado, até que um cidadão, de cabelos brancos, interveio na brutalidade. O que eu tentei com várias palavras ele conseguiu apenas com duas perguntas ao policial:
- Quem é mais bandido aqui? O PM respondeu: - Ele estava batendo carteira dentro do ônibus. O cidadão insistiu: - Quem é mais bandido: ele que roubou ou você que tenta matá-lo? O ladrão percebeu que as pessoas saíam em sua defesa e entrou na conversa: - Quem disse que eu estava roubando? Prova que eu estava roubando! O bombado se enfureceu e novamente o atracou, quando ele gritou: “Chama logo a polícia, chama! Chama que ele vai me matar”.
Seus pedidos foram atendidos. Tão logo fechou a boca, um ônibus da PM, cheio de policiais em uniforme de educação física, apareceu. Ao entrar na viatura, porém, ele volta a gritar: “Chamem a polícia, esse aqui é o Batalhão de Choque”.
Perto de mim, o homem de cabelos brancos comentou: “Ah, assaltante de sorte”.
*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam. Marcadores: Crônicas
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As atentadas de 11 de setembro
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Neuton Corrêa*
A velinha queria porque queria sentar no mesmo lugar onde se acomodava uma jovem passageira. A velha havia acabado de entrar no 611 (Japiim-Centro). Embarcou apoiando-se em uma sombrinha. Resmungou para o motorista assim que pisou na porta e, ao dobrar a cabeça, gritou com a moça. Ela reagiu! A confusão começou.
O bate boca parecia confirmar que aquele dia era mesmo o dia da intolerância. Eu havia acabado de assistir ao plantão de notícias da TV. De improviso, o jornalista Carlos Nascimento anunciava: “Um acidente aéreo em Nova York! Um avião chocou-se contra uma das torres gêmeas do World Trade Center”.
Na mesma hora, acesso um site de busca e escrevo: “World Trade Center”. Enquanto o computador buscava a informação, ouço o apresentador dizer: “Você está vendo novamente as imagens do acidente aéreo”. O jornalista acaba de falar e se assusta: “É outro avião!”. A procura na Internet concluiu: “World Trade Center é um complexo de sete prédios construídos na Baixa Manhattan, localizado no coração do centro financeiro da cidade de Nova York”.
Horas depois, o jornalista traz nova informação: “Mais um avião atinge outro prédio”. E logo em seguida: “Estamos recebendo informação de que outra aeronave foi abatida. Ela iria em direção ao Congresso Americano”. A TV mobiliza correspondentes no mundo inteiro. Todos parecem assustados.
Confesso, também fiquei apreensivo. Tanto que as notícias chegavam em minha cabeça como tintas de Picasso. Calma, senhores! Eu explico: Picasso pintou um quadro chamado Guernica, em que expressa os horrores dos ataques à cidade espanhola de Guernica que marcaram o início da Segunda Guerra Mundial.
Lembrei do quadro do famoso pintor porque tinha a convicção de que naquele dia deveria guardar alguma imagem importante para nunca mais esquecê-la. Hoje, oito anos depois, tento recordar a data, mas a imagem da passageira brigando com a outra insiste em me perseguir.
Pelos valores que sempre professei, de acreditar que a diferença de idade impõe respeito entre as pessoas, achei que a confusão seria logo resolvida. Afinal, a mulher tinha idade de ser tataravó da outra. Além disso, éramos apenas três passageiros a bordo: eu, que havia acabado de sair da Seduc; a moça, a segunda a entrar na viagem; e a velha, a terceira passageira.
Porém, amados do busão, a jovem bateu o pé:
- Eu não vou sair daqui, senhora. O ônibus está vazio! A idosa não se intimidou e ameaçou: - Então, eu vou te dar uma porrada. A moça duvidou e virou o olhar para a janela, quando a velhinha levantou o guarda-chuva e disparou uma seqüência de cassetadas, dizendo: - Esse lugar é pra velho! Esse lugar é pra velho! Esse lugar é pra velho!
Naquele ato, vi que o mundo, realmente, no dia 11 de setembro de 2001, amanheceu intolerante.
*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.Marcadores: Crônicas
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O assalto à casa de Josibel
sábado, 5 de setembro de 2009
Neuton Corrêa*
No andar superior da casa, aflita, com revólver na mão, Josibel abraçava a irmãzinha de 5 anos e gritava para baixo: “Mamãe, pelo amor de Deus!”. Embaixo, desesperada, com as mãos amarradas pelos dedos entrelaçados, a mãe de Josibel gritava para cima: “Minha filha, pelo amor de Deus!”. Na porta da casa, o bêbado tentava falar alguma coisa, mas ninguém lhe dava ouvidos.
A aflição não era para menos. Três meses antes, a casa de Josibel havia sido assaltada por fugitivos do presídio situado a algumas quadras dali. Na ação, os bandidos colocaram o revolver na barriga de seu pai, apertaram o gatilho três vezes, mas nenhum detonou. Sorte igual não teve a filha caçula. O quarto disparo foi na direção da menina. Pegou no braço, de raspão.
Por causa disso, adotaram várias medidas de segurança: colocaram grades nas portas e janelas, instalaram câmeras de segurança e providenciaram armas para cada um da casa. Josibel, com 21 anos, chegou a freqüentar escola de tiro. Dedicou-se com afinco às aulas e se tornou uma habilidosa atiradora.
Os vizinhos também foram afetados pelo drama. Tanto que qualquer movimento estranho que viam na casa de Josibel era motivo de desconfiança. E foi numa cisma dessas que eles viram um bandido atacar novamente a casa. Suspeitaram do novo ataque porque a loja da família, no primeiro andar, estava entreaberta. Alguém liga para os pais de Josibel que haviam acabado de sair. Como ficara só, Josibel se trancou no quarto com a irmã.
Os pais retornaram e, de fato, o comércio estava aberto. O acesso para o outro piso também. Ao ver aquilo, a mãe entrou em desespero. Sem coragem para subir, começou a gritar. Josibel se assustou! Imaginou que a mãe e o pai estivessem na mão dos bandidos e também entrou em pânico.
O pavor tomou conta dos vizinhos, do quarteirão e do bairro inteiro. Em pouco tempo, a casa estava cercada por curiosos e gente disposta a acabar com o sofrimento da família. O único tranqüilo, ali, era o bêbado, que estava para ser escorraçado de tão chato que se tornara.
Da multidão que se dispôs a salvar Josibel, apenas um teve coragem: um operário que carregava sacos de cimento numa construção ao lado. Ele colocou uma escada apontada para o quarto da moça e subiu. Branco da poeira de cimento e com a camisa amarrada na cabeça, como burca árabe, ao colocar o rosto na janela a situação piorou.
Josibel achou que aquele homem era o bandido que havia dominado sua mãe e que agora estava partindo em sua direção. Não pensou duas vezes. Apontou o revólver na direção da janela. Antes do pior, o operário saltou-se escada a baixo. Na queda, ouviu o tiro.
No chão, amarelo de nervoso, ele relata o que viu: “Não é um ladrão! É uma ladra! E ela está armada e tem uma menina de refém”. Os pais de Josibel choram. A Polícia é acionada e chega num ônibus com uma tropa vestindo uniforme rajado, com metralhadoras e um atirador de elite, que cobria o rosto com uma meia também preta. O bêbado tenta falar com eles, mas é ameaçado de prisão.
Os gritos de Josibel e da mãe de Josibel já comovem até os mais insensíveis. Como estratégia, a Polícia espera a noite chegar e decide atacar. Mas antes resolvem ouvir o porre, que diz para todos: “Olha, vocês estão é marcando toca. Acontece que vocês pensam que lá em cima tem um ladrão e ela também está pensando que aqui em baixo tem ladrão. E não tem bandido nem aqui nem lá.”. Era verdade, ali não havia nenhum bandido.
Encontrei Josibel ontem, no 125 (Ufam). Assim que me viu, desconfiada, apontou seu belo e miúdo olhar para mim e abriu um leve sorriso, dizendo: “Aconteceu outra comigo...”.
*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.Marcadores: Crônicas
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