Ciência entra no século da religação dos saberes, diz cientista

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010


Entrevista a Wilson Nogueira

Há um ano, numa manhã de sábado, no terraço de um hotel do Centro de Manaus, o Professor Doutor Edgard de Assis Carvalho, pesquisador da PUC-SP e professor do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam, concedeu entrevista a este TEXTOBR.COM. Carvalho faz uma exposição panorâmica da teoria da complexidade e do impacto desse pensamento na produção e condução de novos saberes. “Lembro de uma frase do [Giles] Deluze que diz: ‘O século vinte um será delusiano ou não será’. Digo a mesma coisa: o século vinte e um será o século da complexidade ou não será”, enfatizou. O principal formulador dessa teoria é Edgard Morin, pesquisador emérito do CNNRS, autor de mais de trinta livros e um dos pensadores mais importantes do Século 20. Carvalho explica que a tarefa de religar os saberes não é fácil, porque esse esforço enfrenta a resistência dos pensadores que preferem o conforto dos compartimentos disciplinares a práticas interdisciplinares. Para ele, a ciência e a produção científica devem se redirecionara à construção de uma nova sociedade, mais humana e mais justa. Confira a entrevista:

Podemos começar com uma panorâmica do pensamento complexo.
A teoria da complexidade é uma tentativa – como [Edgar] Morin costumar dizer – de percorrer todos os saberes produzidos pela cultura: a arte, a filosofia, a literatura, a ciência etc. A gente pode dizer, em princípio, que o pensamento complexo é o pensamento da religação. Essa palavra é fundamental para definir o foco da análise. O que aconteceu? Religação do quê com quê? Em primeiro lugar, a religação da cultura científica com a cultura das humanidades, uma coisa que foi separada há muito tempo e que não se consegue juntar.

Talvez Edgard Morin seja o pensador que mais sistematizou essa ideia. Falar do pensamento complexo tem muito a ver mesmo com o itinerário de Edgard Morin. Pensador de difícil definição. A imprensa, nas vezes que ele vem ao Brasil, tem muitas dúvidas em qualificá-lo. Uma hora o chamam de sociólogo, outra hora de filósofo, outra hora de pensador simplesmente, porque ele conseguiu esse empreendimento sonhado por muitos, que foi sair do compartimento disciplinar. É claro que ele é hoje um homem de 88 anos, tem uma longa trajetória. Essa longa trajetória de vida talvez o tenha levado a enveredar pelos caminhos que ele denomina de complexidade.


O que há de complexidade no pensamento complexo?
Há um problema com essa palavra, mesmo porque complexidade é uma palavra que induz em nossa cabeça (que gosta muito de dividir as coisas), uma oposição entre o que é complexo e o que é simples. Mas complexidade não é isso. Significa simplesmente aquilo que é tecido em conjunto, aquilo que religa, aquilo que, em absoluto, não é uma separação ante o que é complexo e o que é simples. Poderíamos dizer que a vida cultural, no sentido amplo, que é ela toda complexa, porque toda ela está preocupada em tecer em conjunto a esfera da vida.


Morin seria, então, o melhor exemplo desse processo...
Quando eu falo dessa questão em Morin, é porque ele é um homem nascido no século vinte e um, tem desde cedo uma formação que o levou à sociologia, era um pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Sociais da França, e começou com a sua vida de sociólogo. Antes disso, aos 25 anos, ele vai à Alemanha devastada pela guerra e escreve o seu primeiro livro, que se chama “O ano zero da Alemanha”, cuja tradução está para sair no Brasil, agora em 2009. É um livro-reportagem, é um livro de memória.

Lá, nesse livro, a palavra complexidade ainda não aparece. Ela vai aparecer anos depois. Eu diria que nesse livro você já vê, mesmo que não seja essa a palavra, a ideia da religação em andamento, em gestação. O conceito ainda não aparece, porque apostava Morin, em 1946, que poderia ressurgir das cinzas da guerra outra Alemanha, uma Alemanha socialista, um pouco mais igualitária.

A história se incumbiu de desfazer essa utopia, porque, como todo mundo sabe, a Alemanha foi dividida em dois pedaços, uma Alemanha do norte, uma Alemanha do sul, cujo símbolo maior era do muro de Berlim, cujo fim ocorreu em 1989. A utopia do Morin de que a Alemanha poderia ressurgir para um país mais igualitário e unificado não ocorreu porque a Alemanha foi fatiada, fraturada entre os aliados, o chamado sul ficou sob influência dos Estados unidos e os soviéticos ficaram com a Alemanha comunista.

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“O Marx vai sempre ser fundamental nas análises dele, mais um Marx mais aberto”

Esse seria um bom começo para uma vida conturbada...
Depois que o Morin volta para a França, ele foi um homem da resistência francesa, por ser judeu sefaradi, perseguido pela guerra. Teve que mudar de nome. Teve um problema enorme para que pudesse sobreviver na clandestinidade. O início da sua produção é o início da produção já de um exilado, de um exílio criativo, o exílio em absoluto não foi, para ele, o exílio da negação, de uma coisa niilista. Pelo contrário, foi um exílio que possibilitou a ele a explosão da criatividade conjunta, cujo exemplo é esse primeiro livro dele que acaba de sair no Brasil com décadas de atraso.

Posteriormente, acontece alguma coisa na vida dele, no itinerário dele, que talvez seja essa a marca fundamental da gestação do pensamento complexo, que ele denomina de reorganizações genéticas. Essas reorganizações genéticas não têm nada a ver com a biologia. São as reorganizações do pensamento. Há uma primeira, definida pelo rompimento dele com o partido comunista. Ele não suporta mais os mandos e desmandos do partido, rompe com o partido, escreve um livro denominado Autocrítica – nunca foi traduzido no Brasil – [que marca] a saída dele das fileiras do então Partido Comunista Francês (PCF).

Os anos correm e preparam, certamente, o advento da segunda reorganização genética, que foi também produzida por um acaso histórico, que é a ida dela para os Estados Unidos, para um instituto ligado às ciências duras, física, estruturas de sistemas, genéticas etc. É para lá que ele vai nos anos de 1960, para a Califórnia. Lá, ele também produziu um diário, que se chama o Diário da Califórnia (nunca também traduzido no Brasil). [Nesse livro], Ele conta um pouco da reorganização, o que aconteceu com a cabeça dele, na medida em ele entra em contato com a cibernética e os sistemas da física etc. Essa é a segunda reorganização.


Qual à questão ideológica, ele continuava marxista?
Permanece a base marxista. O Marx vai sempre ser fundamental nas análises dele, mais um Marx mais aberto; talvez isso tenha sido conseguido nesse período dos anos de 1960, quando então começa a redação do primeiro volume do Método. É um produto dessa segunda reorganização genética. Os outros volumes viriam depois, mas não em ordem cronológica, mas espalhados. Para se ter uma idéia, o último livro, sobre a ética, é do século vinte e um, mas especificamente em 2003. Essa segunda reorganização é a gestação de O Método. A palavra é bastante ambivalente porque, toda vez que você fala em método, você imagina um conjunto de procedimento, bases e teorias do processo do conhecimento. Mais uma vez é esclarecido em algumas passagens dos seus volumes de que método significa simplesmente uma estratégia do saber por itinerários aparentemente desligados do conhecimento que precisam ser religados de qualquer forma.

A terceira [reorganização] a gente poderia dizer que é um esforço hercúleo dele e de uma série de pensadores de construir uma antropologia fundamental. Essa antropologia escapa da visão de antropologia enquanto uma disciplina. É como se essa antropologia fundamental repusesse a antropologia na sua etimologia original, a antropociência do homem. É nesse sentido que é a terceira reorganização. É essa a idéia que constitui o núcleo forte do pensamento expresso nos seis volumes do Método, cuja [captação da essência, do itinerário e da estratégia] exige leitura tempo, paciência, perseverança e muita humildade.


Como essa idéia é disseminada nas universidades?
A universidade sempre foi refratária a qualquer tentativa de unificação. Em termos da complexidade, não há qualquer intenção de religação e, principalmente, na universidade brasileira, cuja fundação ocorre em 1935, com a vinda dos franceses para o Brasil. A universidade brasileira, mas não só ela, é criada de uma maneira fragmentada. Fazer penetrar essas idéias da religação no mundo dessa universidade fragmentada é uma missão hercúlea, demanda revolta, muita persistência, muita perseverança, um pouco de paciência, um pouco de irritação também. As universidades, de maneira geral, se vêem ameaçadas com a religação, porque a religação dos saberes, a religação das áreas, a religação das disciplinas significa uma nova visão do pesquisador, uma nova visão do sujeito, do sujeito congnoscente.

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“O intelectual precisa reformar o seu pensamento, pensar de outra maneira”

Qual seria o resultado da religação? Ou por que religar?
O intelectual precisa reformar o seu pensamento, pensar de outra maneira. Abdicar uma pouco dessa ideia de que a disciplina é única forma de explicitação por meio da qual o pensamento é veiculado. A visão disciplinar – Michel Foucoult já discutiu isso brilhantemente num livro chamado Vigiar e punir – é um território de poder. Esse território de poder está solidificado, consolidado. As idéias da complexidade entram pelas brechas, pelas dissipações, pelas possibilidades que a própria universidade tem de fazer disseminar essas idéias. Elas são disseminadas, talvez não de uma maneira explícita, na física, na química, na matemática, na biologia, na ciência política, na antropologia e na sociologia. Talvez as ciências sociais sejam as mais refratárias à unificação. Pensar o núcleo da sociedade em termos da unificação do homem é alguma coisa que os antropólogos, sociólogos e cientistas políticos não são muito simpáticos. Mesmo assim, há tentativas, há formulações, há ideias, há imbricações e há dissipações.


Onde elas ocorrem?
Na formação, nas universidades, nos chamados núcleos da complexidade. Há vários pelo Brasil inteiro. O pioneiro núcleo da complexidade está localizado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e vai fazer vinte anos. O segundo é o da PUC [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo]. Já tem quinze anos, por aí, e em outras universidades, onde esses núcleos são criados, instalados etc. Nesses núcleos é onde ocorre a disseminação dessas ideias que reverberam nos mestrados, nos doutorados. A gente percebe que há uma potência cognitiva para se trabalhar na reunificação de muitos pensadores nas universidades. Mas eu te digo que é na proliferação dos núcleos que o pensamento complexo é disseminado.


A impressão que tenho é a de que a física puxa essa ideia da complexidade. Isso é real ou apenas impressão?
É uma impressão. Não é só da física, não. Talvez os físicos tivessem percebido um pouco essa possibilidade, esse horizonte. Desde [Albert] Einstein, um humanista, um pacifista convicto; Heisemberg, nos anos de 1920, com a formação do pensamento da incerteza. Neils Bohr com o princípio da complementaridade. As ciências ditas exatas perceberam o que a sociologia demorou a perceber, mas acabou percebendo. Tanto percebeu [...] que nós, que estamos aí nessa seara do pensamento complexo, somos advindos das ciências humanas. Não se trata de uma hegemonia da física, da química ou da biologia.

Pelo contrário, diria que as ciências sociais demoraram um pouco para perceber. Talvez a ideia da ciência quântica de que a relação de causa e efeito não é tão explícita. Isso reverberou, foi mais consensual na física, na química e na biologia do que nas chamadas ciências humanas. Talvez por isso, Thomas Kuhn, em A estrutura das revoluções científicas, tenha chamado as ciências duras, física, matemática, química e biologia, de ciências paradigmáticas, reservando para nós [das ciências humanas] o qualificativo de ciências pré-paradigmáticas, aquelas que não gozam de consenso na comunidade [científica]. Mas, desde [Claude]Lévi-Strauss, nos anos 1950, que esse panorama está mudando vertiginosamente. Há muitas áreas das humanidades que já pensam na religação, embora não seja o paradigma hegemônico que comanda verbas, pesquisas, programas e bolsas.

Mas há uma tentativa de mudança de paradigma, no estilo de pensamento que está por aí. O século vinte e um será, necessariamente, o século da complexidade. Lembro de uma frase do [Giles] Deluze que diz: “O século vinte um será delusiano ou não será”. Digo a mesma coisa: o século vinte e um será o século da complexidade ou não será. O século do domínio da tecnociência será o século da religação. Aliás, há área dos saberes que já fazem isso: a ecologia religa, a biologia molecular religa, as áreas de ponta do conhecimento religam. As ciências cuja tradição está uma pouco mais consolidada, como sociologia e antropologia, é que dão para trás nesse processo, e vão ficar para trás se não entrarem nessa idéia de que é preciso alargar a concepção do homem.

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“O pensamento complexo tem implicações políticas bastante sérias”

Quais são as implicações do pensamento o complexo?
Em primeiro lugar, há um abalo nessa ideia antropocêntrica de supremacia do homem. É preciso repensar essa supremacia porque ela em si vai criando uma ideia de superioridade que deve ser colocada entre parêntese. Essa questão não é adstrita ao pensamento de Morin. Lévi-Strauss já fala isso em 1962. Anos antes de Morin publicar o primeiro volume do Método, ele [Lévis-Strauss] dizia que é preciso dissolver o homem na natureza, e é preciso dissolver a natureza nas condições fisicoquímicas. Essa implicação é, para a sociedade, do ponto de vista da cultura e do ponto de vista da ética. Se nós pensamos por territórios separados, a ética tende a ser relativizada demais. Se nós pensarmos por meio de territórios religados, a ciência, a política, a ética e a democracia serão vistas de outro prisma.

Então, penso que o pensamento complexo tem implicações políticas bastante sérias; por isso, não muito aquilatadas, por isso, não muito explicitadas. Mas acho que há uma esperança que esse tipo de pensamento represente uma forma de democracia representativa que não é a que temos agora. Do ponto de vista da biopolítica, teremos um avanço. Agora, como todo avanço, exige que as pessoas pensem de outra maneira. Pensar de outra maneira é a questão. Se se pensa de outra maneira [...] em primeiro lugar, refletindo um pouco sobre aquilo que você faz durante a sua atividade. Morin chama isso de autoética. A ética de si, que tem, talvez na definição do [Immanuel] Kant, na Crítica, a sua definição mais fundamental. Lá, na Crítica, Kant diz o seguinte... Pergunta-se para ele: o que é a ética? Diz ele: a ética pode ser resumida numa simples frase: não faça ao outro aquilo que você não quer que seja feito par si mesmo. Se essa ética fosse aplicada na cultura, na política e na universidade, nós teríamos uma cultura, uma política e uma universidade diferentes.

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“O que aconteceu em Hiroshima é uma coisa que escapou da intenção original do Einstein”

Como o senhor avalia o avanço científico também como gerador problemas?
O maior exemplo disso é com Hiroshima e Nagasaki, como você definiu [referencia a conversa anterior à entrevista]. Seis e nove de agosto de 1945. Esse fato dividiu o campo científico em dois lados contraditórios. Os próprios físicos que a princípio – Einstein, inclusive – que no começo solicitavam ao Roosevelt que corresse na pesquisa atômica antes que os alemães tivessem a tecnologia necessária para a fissão nuclear, quer dizer era uma alerta do Einstein para o Roosevelt de que os Estados Unidos e as ditas democracias tinham que correr antes porque se o nazismo fosse detentor da fabricação da bomba o mundo se arrependeria para sempre. Por isso, criou-se o projeto Manhattan, nos Estados Unidos, comissões de físicos etc. O que aconteceu em Hiroshima é uma coisa que escapou da intenção original do Einstein, que era uma intenção democrata.

A bomba em Hiroshima em seis e nove de agosto de 1945 foi uma decisão política. Logo depois, o Einstein e [outros cientistas] fazem uma petição ao Roosevelt, para que ele os recebessem, porque eles tinham ponto de vista contrário ao desastre de Hiroshima, por tudo aquilo que aconteceu[...] a morte explicita; e, certamente, foram ignorados pela política. Então essa interface ciência e política é uma interface que, pulando no tempo, acontece a mesma coisa com a Coréia [ do Norte].

Acho lamentável que hoje, no século vinte e um, o século da sociedade do conhecimento, algum país tenha o direito de construir artefatos nucleares que sejam voltados para a destruição de povos e culturas. Esse desenvolvimento da técnica, que é considerado uma coisa unidimensional, é como se a técnica devesse ser colocada no seu devido lugar. A técnica sempre existiu desde que mundo é mundo, mas hoje a tecnociência goza de uma hegemonia de proporções incomensuráveis e ainda mais quando ela se atrela a regimes políticos, cujo programa político é destruir povos e culturas.

Acho que isso é um problema sério, sobre o qual a comunidade internacional deveria se manifestar com maior veemência. Os cientistas, inclusive, porque os cientistas se calam a esse respeito. O que se vê é o pronunciamento da política a favor ou contra, mas a ciência se cala. Foi o que não aconteceu em 1945, porque Einstein [e outros] solicitam audiência com o Roosevelt, e agora os cientistas se calam. Aliás, essa coisa dos cientistas se calarem é um [problema]. Quando você se cala significa que você tem alguma coisa a ver com o poder direta ou indiretamente. Calar significa consentir. O consentimento é a pior forma do aspecto intelectual, hoje, nesse mundo tecnológico.


É o que ocorre na Coréia...
Acho lamentável que a Coreia do Norte tenha isso, como acho lamentável que a China tenha construído a hidrelétrica das Três Gargantas, que destruiu sítios históricos preservados pelo patrimônio etc. Patrimônios da humanidade [destruídos] foram simplesmente cartões postais das Olimpíadas [2006]. A comunidade internacional tem que se manifestar, sim. Edgard Morin chama isso de uma política de civilização. Esse é o temo que ele usa e é um termo muito feliz. É uma política de civilização planetária. Em outros momentos, ele chama isso de antropolítica – uma nova política para o homem.


O pensamento complexo então é um pensamento político também?
Nós, envolvidos com o pensamento complexo, estamos com a mão atolada na política. Inclusive com a resistência política que a gente faz nas universidades. É uma atividade política de a gente se manifestar contra a fragmentação, contra a divisão de áreas, contra os aposentos etc. Nos últimos quinze anos, talvez, ele [Edgard Morin] é um intelectual cuja presença é constante nos lugares mais conflitantes do planeta. Esteve em Saravejo com os estudantes, fazendo uma conferência na universidade. Em plena guerra da Bósnia, ele se enfiou numa briga internacional a respeito de Israel e Palestina. Ele foi processado por uma associação da França, os Advogados sem Fronteira, acusado de sionismo, pró-Israel etc.

Todos esses temas redundam em livros, pequenos ensaios de vinte páginas, trinta páginas, quarenta páginas, não mais que isso. Ele tematiza essa questão da antropolítica. O último é sobre a barbárie européia. Sobre essa idéia de que o Mercado Comum Europeu vai ser a panacéia de todos os males. Ao contrário disso, ele mostra que a cultura e a barbárie estão ali entrelaçadas, e que é preciso uma posição mais efetiva dos cientistas, inclusive, para se fazer ouvir melhor, como se fosse uma grande comunidade de saberes, onde os cientistas deixariam de ser homens que sempre consentem e nunca protestam. Acho que esse é um caminho importante do pensamento complexo, que é mergulhar na política da maneira que for possível.

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“O estado não é o único balizador do conhecimento científico”

Os financiamentos das pesquisas não travaram essa ideia de intelectual independente?
Há duas entradas. A primeira é com a palavra intelectual. Aí, você tem autores interessantes aí da França e dos Estados Unidos. [Eles] falaram dos intelectuais, radicalizaram que os intelectuais são traidores históricos. Morin relativiza um pouco a ideia e dá uma definição de intelectual mais preciosa. Ele diz que há o intelectual que ousa sair do compartimento disciplinar para fazer reflexões sobre antropolítica. Esse é o sentido da palavra do verdadeiro intelectual. O intelectual que é competente na sua área, mas ousa sair dela para refletir sobre problemas mais amplos do seu mundo, da sua história, da sua cultura. Esse é um lado.

O outro lado que se fala, é o lado do intelectual e as instituições. Eu sempre acho que os intelectuais têm que ser livres. Intelectuais que se submetem a regras do tecnopoder sempre têm limitações na sua criatividade. As tecnologias do poder científico localizadas no aparato de estado, elas estão voltadas para essa tecnociência cuja velocidade é considera crescente a cada dia. Em nome do chamado progresso científico, você vai fragmentando cada vez mais, construindo que falam muito de mundos infinitamente pequenos, sabem pouquíssimo e vai criando tecnologias de pesquisa que premiam esse tipo de pensadores. Há a contrapartidas? Há. Há contrapartidas que não são hegemônicas.

Volto a insistir um pouco na idéia de brechas, uma idéia do próprio Morin, na idéia de dissipação, uma idéia de [Ilya] Prigogine, que dizem que são pelas brechas e pelas dissipações que uma concepção um pouco mais humanista vai poder, talvez, dizer a verdade ao poder. Eduardo Said, que você conhece, nesse livro que se chama “Os intelectuais e o poder”, ele fala isso: o intelectual está premido, está pressionado dentro de duas lógicas. Uma lógica da convenção, aquela que diz amém a tudo aquilo que vem do estado. Eu acho que o estado não é o único balizador do conhecimento científico. Há outras instituições que balizam o conhecimento muito melhor que o estado.

Precisamos acabar com essa perspectiva estadocêntrica. Acho que o estado não é o centro do comando conhecimento, diz o Said. Há o outro lado dos intelectuais que é comandado pela lógica da audácia. Esses é que são os dissipadores, os que criam novas formas de potencialidades, novos rumos para os saberes e novas religações. Essa imagem do Said, a do intelectual exílico, é a do intelectual que está submetido à lógica da audácia, não à lógica da convenção. Podemos polemizar dizendo: é mais fácil submeter-se à lógica da convenção? Claro que é. Você fica muito mais tranqüilo. Pode obter mais verbas, pode obter mais consenso na sua área. Agora a pergunta que se faz é se isso é a verdadeira vocação do conhecimento. Não vamos fazer saudosismo à Paidéia grega, que é a religação de todos os saberes, mas eu acho que essa ideia de uma nova Paidéia é um novo horizonte, um dos horizontes para o pensamento complexo.


Amazônia tornou-se, nos últimos tempos, talvez o lugar mais lembrado do Planeta. O que o senhor acha disso?
É o mais lembrado porque se criou a ideia de que aqui as grandes reservas bioculturais do Planeta. Toda vez que você diz isso, a cobiça internacional cai aqui de unhas e dentes. Inclusive por meio de políticas nacionais, porque eles [os formuladores dessas políticas] não entendem bem quando isso aqui não implica só a preservação da Amazônia enquanto tal, mas a preservação do Planeta no conjunto. Se nós conseguíssemos enxergar a Amazônia, dialogicamente, ligada a essa idéia de uma ética planetária, todas as políticas que seriam desenvolvidas aqui teriam outro teor. Há que se preservar mesmo as populações indígenas, as reservas de memória para as futuras gerações.

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“Amazônia tem um papel importantíssimo, não para a preservação de si mesma, mas para a preservação do Planeta”

Qual é o papel da Amazônia nesse jogo?
Quando se vê as tendências do Planeta para daqui a pouco, para 2025, para 2035, se vê que as projeções que se faz são as mais negativas possíveis. E a Amazônia tem um papel importantíssimo, não para a preservação de si mesma, mas para a preservação do Planeta. Se a política conseguisse entender isso, seria uma coisa bastante importante para todos: para a própria a Amazônia e para o Planeta. Eu venho a Manaus de dois em dois anos, um pouco mais, um pouco menos.

Toda vez que entro na cidade me dou conta de que ela segue o ritmo desordenado das cidades do Brasil que não dão nenhum valor à preservação da historia, da cultura... Isso não é só um problema de Manaus. Você pega São Paulo, Rio de Janeiro, onde a preservação da história e da memória é jogada na lata do lixo. Os governantes, os governos e os representantes da democracia não conseguiram visualizar que qualquer problema local é, simultaneamente, um problema global.

As campanhas do pensamento complexo visam sempre no mundo multidimensional e nunca valorizar apenas um lado em detrimento do outro, um lado oposto ao outro. Aprendi isso a duras penas, que a oposição é sempre complementar, que ela é dialogicamente articulada. É assim que eu vejo a Amazônia. Você pode dizer: você é um estrangeiro aqui? Sou. Talvez por ser estrangeiro que eu perceba isso. E vejo as mesmas coisas nas cidades que eu conheço no Brasil, eu conheço bastante, todas elas voltadas para um desenvolvimento completamente sem rumo, que valoriza a tecnociência, a compra de automóveis, a destruição da cultura, a destruição da história.

Falo isso porque entre a minha pouca participação no estado, eu participei do patrimônio histórico do Estado de São Paulo, e eu sei muito bem que o Estado de São Paulo tem um problema muito sério com o patrimônio. O patrimônio é considerado, e aqui deve ser a mesma coisa, como inimigo do desenvolvimento. Mesmo no governo, você vê opiniões divergentes entre os ministros. Você vê o ministro [Mangabeira] Unger fazendo apologia às técnicas. Por isso, os ministros do meio ambiente estão sempre sendo fritados. Eles não estão sendo fritados por si próprios, mas pela cobiça das multinacionais que esses ministros sejam por vezes escanteados. Foi assim com Marina Silva [ex-ministra do Meio Ambiente]. E está sendo assim, em proporções diferentes, com Carlos Minc [atual ministro do Meio Ambiente].

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CMM realiza tribuna sobre o livro Entre Linhas

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


A Câmara Municipal de Manaus (CMM) realizou hoje uma tribuna popular para tratar sobre o livro "Entre Linhas", do escritor Neuton Corrêa, membro deste TEXTOBR. Confira a matéria sobre o evento, produzida pela assessoria de comunicação da CMM.

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Festa em terminal de ônibus para o lançamento do livro "Entre Linhas"

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009





O escritor Neuton Corrêa lançou hoje, no maior Terminal de Integração de Ônibus de Manaus, o terminal da Cidade Nova (T3), o seu livro "Entre Linhas". A festa movimentou a manhã dos passageiros da Zona Norte.

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"O papel do diploma vai ser modificado"

quinta-feira, 25 de junho de 2009


O jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) Bernardo Kucinski, 71, considera uma anomalia a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista e disse que a decisão do STF foi acertada. Em uma breve passagem por Manaus, onde participou, como membro, da banda de defesa de dissertação de mestrado da jornalista Michele Portela, o professor autor de “A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro” conversou com os jornalistas Valmir Lima e Wilson Nogueira, sobre diploma, ética e crise do jornalismo. A conversa ocorreu em um dos auditórios do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da Universidade Federal do Amazonas, na manhã de segunda-feira, 22. A seguir, a entrevista.


É inevitável que a gente comece essa entrevista falando da questão do diploma de jornalista. Como o senhor avalia a decisão tomada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no dia 17?

Eu não vou avaliar a decisão do Supremo, os termos em que foi redigido, os argumentos, nada. Eu vou entrar no assunto direto do diploma. Eu achei que foi correto abolir a obrigatoriedade porque era uma anomalia. Nós éramos um dos poucos países onde se exigia isso, e também era uma anomalia porque era uma exigência extremamente radical. Você faz um curso de Sociologia, de História, de Economia ou de Antropologia e você não pode ser jornalista. E são cursos que, na verdade, preparam as pessoas para entender a sociedade humana muito melhor do que qualquer curso de jornalismo. Portanto, era uma anomalia e um equívoco.

Além do mais, no decorrer do tempo, foi se mostrando um instrumento que se voltou contra nós, porque a idéia de que um diploma de jornalismo oferece uma reserva de mercado levou à criação de uma indústria de diplomas. Então você tem hoje no Brasil 400 escolas de comunicação com habilitação em jornalismo. Você tem cidades, aqui mesmo em Manaus, tem cinco cursos de jornalismo. Você multiplica por 20. São colocados no mercado por ano 100 novos jornalistas. Não tem como absorver esse pessoal. Aquilo que era para proteger as relações de trabalho virou-se contra, porque vendemos uma ilusão.

Há outros motivos também, mas os dois principais motivos da minha posição é que eu acho que o jornalismo pode ser praticado por pessoas que tenham talento para o jornalismo, independente da sua educação formal, e a lei vedava o acesso a essas pessoas – eu sou um exemplo vivo disse tipo de pessoa, eu, o Ricardo Kotscho, o Fernando Moraes e muitos outros jornalistas de renome no Brasil não seriam jornalistas se a lei estivesse em vigor quando nós começamos. E o segundo motivo é de ordem da importância que o jornalismo tem para a democracia. Poder se expressar sobre a forma jornalística é um direito que deve ser de todos, desde que tenham talento para isso. Então, com essa decisão, começa-se agora, do zero, uma nova discussão.


O senhor acha que ainda faz sentido manter cursos de jornalismo?

Faz, faz. Não vejo nenhum problema. O que eu acho que vai acontecer é que o papel do diploma vai ser modificado. As empresas, provavelmente – como vivemos num mundo de muita competição e um excedente de mão-de-obra – vão usar o diploma como um dos critérios de contratação ou de seleção. Por exemplo: a rede McDonald só contrata essas meninas e esses rapazes que tenham concluído o ensino médio. Não é que precise do curso médio para vender sanduíche, mas isso facilita a contratação, porque sabe que o sujeito frequentou uma escola, sabe ler e escrever, sabe fazer conta. Eu acho que o diploma vai ser um critério de contratação, mas sem excluir pessoas que não o tenham. Não vai acontecer nada de dramático. Algumas escolas que se criaram só para vender a ilusão do diploma vão fechar, mas as escolas são importantes.


Do ponto de vista da disciplina, isso pode abrir um campo maior de reflexão nos cursos de jornalismo?

Aí, nós temos um problema mais complexo. Eu penso assim: sempre foi muito complicado se saber o que ensinar para se formar um jornalista. Por isso, quando o curso era de habilitação, se tornava uma tarefa quase impossível. O que você vai ensinar para habilitar o cara a ser jornalista? No fim, ele saía de lá com uma colagem de disciplinas e uma não tinha nada a ver com a outra. Algumas, inclusive, eram disciplinas de crítica ao jornalismo, que são importantes, mas que acabavam até negando o jornalismo.

Todas essas disciplinas da Escola de Frankfourt, que fica dizendo que é tudo embromação, manipulação, um simulacro... O cara entra lá para ser jornalista e não se oferecia a ele um caminho para superar isso. No outro extremo, você tem esses cursos que são meramente técnicos, como mexer nos programas, como editar... Então, é uma confusão muito grande, e nunca se soube direito o que ensinar.

Agora, eu acho que não sendo uma habilitação com reserva de mercado, os cursos ficam mais livres para escolherem diferentes vocações de ensino. Por exemplo, a ECA/USP tinha uma vocação, devido à qualidade dos alunos que entravam e ao ambiente da universidade, de formar quadros dirigentes da imprensa. Muitos alunos meus saíam e depois de dois anos já estavam sendo chefes. Tem escolas que formam alunos mais para a televisão. Então, a solução para o ensino do jornalismo é que floresçam mil flores, conforme a região, conforme a necessidade do mercado local...

Agora, aí tem uma discussão que eu acho que seja qual for a receita daquele curso, ele nunca pode esquecer que é a única vez na vida que o jovem vai passar pela universidade naquela idade. Então, o curso tem que ser importante na vida daquele jovem. A proposta não pode ser rebaixada, mas ela pode assumir várias formas. Vai ficar mais fácil você compor esses currículos. Você pode compor um belo currículo de sociologia e meter lá três ou quatro disciplinas sobre ética jornalísticas e o que é matéria jornalística e pronto, o cara está formado, o resto vem depois.


Essa questão da ética jornalística o senhor trabalha com muita propriedade no seu livro ‘A síndrome da antena parabólica’. A minha preocupação em relação a esse tema é que não se aprende a ser ético na universidade. O indivíduo aprende a ser ético ou não ao longo da vida. O senhor concorda com esse pensamento?

Eu acho que são planos diferentes, porque a expressão designa várias coisas. O caráter da pessoa se forma, dizem os especialistas, até os 3 ou 4 anos de idade, os traços essenciais do caráter. Os valores ele vai adquirindo um pouco depois. Agora a ética, ou o ensino da ética é importante, porque você precisa sobrepor sobre os valores individuais, familiares, as diferenças de caráter, você precisa impor um conjunto de regras de conduta, que seja compartilhado por todos, independentemente do seu caráter. E elas são importantes justamente porque as pessoas têm o caráter diferente. Por exemplo: se todo mundo tivesse uma formação de caráter alérgica à mentira, você não precisaria ter no código de ética do jornalista que ele tem que procurar a verdade. Justamente você precisa impor a conduta porque ela não é natural em algumas pessoas.

A ética que deve se ensinar nas escolas de jornalismo é uma ética, como campo da Filosofia, das diferentes escolas filosóficas, e depois, você tem que ensinar a ética aplicada àquela atividade, que é o jornalismo: os conflitos, os valores principais dessa ética, os preceitos, o proibido e o estimulado, os conflitos entre o caráter público que deve ter a informação e o problema da preservação da vida privada dos protagonistas, o conflito de você sair na frente com um furo ou deixar para o dia seguinte para checar um pouco melhor... São todos conflitos de ordem ética.

Se você não estuda isso na escola, você perde uma das maneiras de o jovem entender a demarcação do jornalismo. Ele tem uma demarcação que é principalmente ética, que é o que vai distingui-lo do assessor de imprensa. Nesse livro que você citou tem uma frase: “O jornalismo se define como uma ética, não como uma técnica”.


Considerando que não é possível e seria um erro generalizar o jornalismo brasileiro, como o senhor avalia o jornalismo que se pratica hoje no Brasil? Vamos ficar com os jornais de circulação nacional, como Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo?

O que eu chamo de jornalões. Esses jornalões assumiram nos últimos anos uma função muito exacerbada ideológica, que acaba sendo o objetivo principal dessa fatia da imprensa. Nesse processo, mas eu acho que por outros motivos também como o excesso de competição, a má formação dos jovens, nesses jornalões, lamentavelmente, eu acho que hoje – não digo sempre em todos eles e em todas as editorias – é muito comum você encontrar uma certa ética da malandragem.

O bom repórter é aquele que conseguiu aprontar uma armadilha para o entrevistado, é o cara que fez o sujeito dizer uma coisa que na verdade ele não estava pensando, é o cara que consegue gravar escondido uma entrevista sem o sujeito perceber. Tudo truques que vão contra um dos princípios fundamentais da ética jornalística americana, que é o que eles chamam de fair play (jogo limpo). O jornalista precisa sempre fazer jogo limpo com as fontes, com o leitor. Aqui, o tempo todo é um jogo sujo. É a manipulação do título, é publicação só de metade que o cara falou.

Daí, surge uma novidade com a criação do blog da Petrobras (Fatos e Dados). Ele surge como resposta às manipulações que a imprensa faz. Esses jornalões perderam o foco na preocupação de informar corretamente, adequadamente, contextualizadamente e colocaram o foco na tarefa de fazer luta ideológica e política, desgastar certas pessoas, desgastar certos governos para proteger outros. O tempo todo você vê esse jogo. É uma coisa triste, e ficou sendo a cultura dominante nas redações ou, pelo menos, em algumas equipes de redações.


O senhor falou, ainda há pouco, da ética como um ente compartilhado. Como é que o senhor vê a sociedade brasileira hoje, principalmente, os leitores nesse compartilhamento? Os leitores têm algum poder?

É importante você perguntar isso, porque eu havia esquecido de falar, e é uma coisa que me motivou a uma intervenção em um congresso de professores, que depois virou um texto de um livro meu, que eu acho interessante. O livro chama-se ‘O jornalismo no tempo virtual e o colapso da razão ética’, em que justamente eu parti da minha experiência em classe, que tem a ver com a tua pergunta.

Eu fiz um exercício de ética: uma situação de sequestro, a Rede Globo noticiou e os outros fizeram um pacto de silêncio e não noticiaram, para proteger a vítima. E eu coloquei em discussão: do ponto de vista jornalístico, qual é a atitude correta? Eu percebi que a classe não tinha condição de aceitar uma diretiva compartilhada por todos. Eles sequer entendiam que era possível haver uma ética aplicada comum a todos os jornalistas, porque cada um tinha a sua consciência. Aí eu percebi que nós vivemos uma era, que alguns chamam de pós-moderna em que você não tem mais os valores dominantes: você pode ter a opção sexual que quiser, pode ser mãe solteira, pode ser desquitada, separada, viúva, pode se vestir do jeito que quiser...

Então, o valor dominante na nossa era é um antivalor, é um valor tolerância. Tudo é tolerável. Como tudo é tolerável,você não consegue discutir com uma classe a possibilidade de haver uma ética um comportamento único naquela situação específica. Não há mais possibilidade de haver ética aplicada. Na verdade, eu acho que deve haver, mas a cultura de hoje torna difícil.


Isso exigiria mais uma capacidade de diálogo ou mais uma capacidade a partir da formação do indivíduo na sociedade?

Não é falta de diálogo. Eu acho que é uma alergia a qualquer forma de autoritarismo, de enquadramento, de que tem que ser assim e não pode ser assado. Realmente, é uma cultura de que o valor dominante é o antivalor. Qual é o valor dominante? Que tudo é permitido.


Na sua avaliação, essa é uma boa atitude da sociedade?

Não, eu acho que no jornalismo, no caso da ética aplicada, leva a um equívoco fundamental, porque você acaba não estudando o que é o jornalismo. A essência do jornalismo é difundir a verdade de interesse público. Na hora que ele começa a condicionar essa função a outros fatores, o jornalista começa a negar a sua profissão. Ele começa a entrar numa zona de perigo. Ele começa a julgar se deve ou não divulgar aquele sequestro, começa a assumir coisas que não estão sob o domínio dele, e amanhã começa a julgar outras: isso aqui também eu não vou publicar porque vai fazer mal.

Então, o jornalista começa a ser um sensor dele mesmo. É socialmente importante? É de interesse público? Então, tem que publicar. Isso você estuda quando está estudante ética. O Kant, por exemplo, diz que verdade e mentira são coisas que não estão no mesmo plano. O jornalista que diz a verdade e depois acontece uma desgraça por causa do que ele disse, ele não é responsável pela desgraça; mas se ele diz uma mentira e acontece uma desgraça, ele é responsável.


Como o jornalista pode lidar com essas questões quando elas partem dos donos da empresa jornalística?

É por isso que a formação é importante, porque é só na escola que você pode incutir no futuro jornalista padrões de conduto que depois o mercado vai tentar desarticular, desarmar. Mas a escola é o lugar onde ele vai adquirir o padrão. Eu comparo, embora seja uma comparação forçada, com a Medicina. O aluno de uma faculdade de medicina vai, com o orientador, aquele médico famoso, com quatro ou cinco alunos, ficam ao redor da cama do doente, discutindo os sintomas, vão adquirindo um padrão, gastam um tempo ali. Agora, depois que o médico se forma, vai trabalhar no mercado, numa seguradora, dá cinco minutos para cada diagnóstico. É o mercado, mas ele teve condições de adquirir um padrão. Só na escola você pode fazer isso.

Por isso a escola é importante? Aí, volta aquela tua pergunta: curso de jornalismo é importante? Sim. Eu por exemplo, sou contra essas escolas que pedem um jornal laboratorial e já chamam ele de copião, rascunho, já chamam ele de coisa mal acabada. Eu acho que na escola tinha que ter um padrão para publicar mais rigoroso do que no mercado. Essa matéria você vai reescrever. Manda reescrever três vezes, depois publica, quando tiver perfeita, para o aluno perceber também que só pode publicar uma coisa perfeita.

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O controle do imaginário segundo Luís da Costa Lima

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Wilson Nogueira

O imaginário sempre esteve sob controle. Essa afirmativa conduziu o Professor Doutor Luís da Costa Lima, do Departamento de Literatura da PUC-RJ, a uma complexa e demorada pesquisa sobre a relação do ato criativo humano, principalmente nas artes e na literatura, com o poder, segmentos de poder e com o mercado. Dos estudos e reflexões sobre o tema resultou a elaboração da teoria do controle do imaginário, assunto que, segundo o próprio pesquisador, exige cada vez mais energia intelectual aprimorada. Luís Costa Lima participou, em Manaus (AM), nos dias 12, 13 e 14 de maio, do “Colóquio nacional poética do imaginário: literatura, história e memória”, promovido pela Cátedra Amazonense de Estudos Literários e pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Em entrevista ao TEXTOBR, ele também falou sobre outros assuntos, como crítica literária e profissionalização do escritor no Brasil. Confira:

Professor, qual o eixo orientador da teoria do imaginário?
A idéia é simples, mas, ao mesmo tempo, exigiria uma equipe de pesquisadores para explicá-la, porque eu, sozinho, nunca darei conta da extensão do problema. O que se entende por controle do imaginário? Muito sumariamente, sabemos que não existe sociedade sem que haja um conjunto de regras, e próprio de uma regra é proibir alguma coisa ou admitir outras. Nesse sentido, toda sociedade já tem consigo naturalmente um controle. Não é sobre esse controle natural, derivado do ordenamento de regras, que me refiro quando falo em controle do imaginário.

Controle do imaginário supõe, sim, que tal sociedade não é um corpo homogêneo, como um núcleo, mas que apresenta certos setores ou classes com valores diferenciados. Então, o setor com classe dominante tem conjuntos de valores que procura defendê-los antes mesmo de eles serem atacados. Por controle, entende-se, portanto, essa espécie de Espada de Dâmocles que pesa sobre a cabeça do produtor, do artista. Por que do artista? Porque a obra de arte é, por excelência, obra do imaginário. E é a espada de Damocles que, a qualquer instante, pode desabar.
Isso supõe potencialmente que tal obra contém práticas ou contestação de valores que são os valores da classe dominante, classe ou setor dominante. Fundamentalmente é isso que é controlo do imaginário.


O mercado então seria um mecanismo de controle?
Eu tenho estudado o controle basicamente do Século 16 para cá. Nos séculos anteriores aos momentos da globalização, a partir da década 1980, o controle tinha um caráter dominantemente ético-religioso ou um caráter científico. Desde que ciência se tornou discurso principal, ela se tornou, também, um instrumento de controle da obra de arte. Com a globalização, em vez de o controle se basear em valores éticos ou científicos, observa-se o que eu chamaria de uma neutralização estética – o controle a partir de uma neutralização estética. Isso quer dizer: uma determinada obra ou ação pode ser contrária a valores dominantes, entretanto, os manipuladores do mercado verificam que, mesmo agressiva, porque é contrária, isso vende. Então essa obra não é só vendida, mas estimulada exatamente porque ela é contrária aos valores dominantes. Como isso é possível? Ora, através de uma neutralização do estético. Não se considera a obra pelo seu valor estético, mas pelo seu valor de mercado.


Qual seria o melhor exemplo para essa situação?
Parece-me que o exemplo é menos freqüente em literatura do que na pintura. Situação típica seria a do gerente de um banco que tem atrás de si uma obra de pintura abstrata. Ele não entende absolutamente aquilo, está se lixando para aquilo, entretanto, sabe que aquilo tem um grande valor de mercado.


"O que vem dá em regionalismo, realismo e toda essa série cujo termo correto seria imbecilidade"
Na opinião do senhor, qual é o gênero literário dominante no Brasil hoje?
Eu verificaria duas tendências. Uma que eu acredito dominante – ela mantém uma tendência nossa que é o documentário, o realismo. A idéia da obra como espelho – com ou sem aspas – da realidade. Essa tendência atravessa o Século 19 e vem para o Século 20, o que vem dá em regionalismo, realismo e toda essa série cujo termo correto seria imbecilidade. Isso impõe um controle do ficcional. Esse controle do ficcional, parece-me, continua dominante entre nós. Mas, ao mesmo tempo, eu vejo surgir um movimento contrário. Vejo com muita esperança uma tendência contrária. A tendência que começar a romper com a obrigatoriedade de a obra ter consigo índices de brasilidade evidentes – esse exemplo estaria na obra de Bernardo Carvalho –, e a tendência da substituição da idéia de regional e regionalista pela idéia de reflexão. Ou seja: reflexão da memória, da herança, sobretudo, de migrantes – isso corresponderia, fundamentalmente, à obra de Milton Hauton. Essas seriam as duas tendências.


Observei, no colóquio, que o senhor se insurgiu contra o reconhecimento da carta como obra literária. É isso mesmo?
A consideração a ser feita é que não se leva em contra, normalmente, a grande mudança que a idéia de literatura tem a partir de 1960 a 1970, o auge da reflexão teórica contemporânea, que modifica completamente a idéia de literatura que se desenvolve a partir das histórias literárias do Século 19. Essa idéia suponha a literatura como um conceito de metahistória, vindo lá de Homero, atravessando os gregos, passando pelos romanos, quando se sabe que, historicamente, a idéia de literatura como um discurso autônomo, diversificado, próprio, vem apenas do final do Século 18. Vem do chamado primeiro romantismo alemão. Isso degenera rapidamente a literatura como expressão de um eu, da individualidade, eu quem falo, enquanto o cientista observa – essas besteiras.

Leva-se em conta, portanto, que toda essa revisão do conceito de literatura põe em cena uma coisa que a gente não deveria esquecer, que é a literatura como nós a entendemos, ou seja, que é a literatura com discurso ficcional, próprio, distinto do texto historiográfico ou do discurso das ciências sociais. Essa acepção, repito, é recente, do final do Século 18. É nesse sentido que vem a minha oposição à carta como elemento literário.

Quando Cícero se retira para a sua propriedade, para escrever as suas cartas, ele não está pensado carta como nos entendemos. Quer dizer, como nos entendemos: eu lhe escrevo uma carta (... se para tanto eu me retiro não sei para onde para que essa carta seja mais elegante etc). Você ao recebê-la, pode ser que ela seja muito bonita, pode ser que ela seja à la Rui Barbosa, mas carta não é.

Carta, para nós, supõe um documento auxiliar da história. A carta antiga não é isso, não é um acessório da história, e tão pouco a obra antiga é uma obra ficcional. Em princípio, tomar a carta como um gênero literário, supõe entender, como o expositor fazia, literatura como expressão refinada ou exploração de situações universais... Confesso, sinceramente que isso é o antiquarismo a toda a prova.


Como o senhor observa o Brasil como lugar de cenas e cenários para a literatura. Aliás, nesse aspecto, o Brasil é um lugar explorado?
Acho que pensar a literatura brasileira é chamar a atenção para um fenômeno que me parece mais inexplicável até hoje. O fenômeno Machado de Assis. Machado é cercado por todos os lados por realismos, controles, explorações da natureza, nacionalidade, todos os princípios estranhos à idéia de literatura, mas Machado consegue driblar tudo isso com uma simplicidade genial. Não consigo entender como é que aquele mulato consegue essa genialidade toda. Obviamente, que não pelo fato de ele ser mulato, mas pelo fato de ser brasileiro cercado por aquele ambiente.

Nesse sentido, na medida em que Machado é uma grande exceção, e na medida em que as tendências antimachadianas... Tomo o ensaio de Machado sobre instinto e nacionalidade, quando ele vai dizer: olha, a nacionalidade é um instinto, no sentido de que o fato de eu nascer aqui ou ali me faz criar, automaticamente, uma série de valores, atitudes e reações que são como que instintivas. Então, explorar [isso na literatura] como tal é uma imbecilidade. O fato de ser machado uma exceção entre nós significa dizer que somos hoje uma exploração muito pobre, muito controladora da dita realidade nacional. Falar em realidade nacional em termos de literatura já é controlar a expressão literária.


Quais são as possibilidades de profissionalização do autor no Brasil?Praticamente nulas. Há dentro do mundo capitalista – e no mundo inteiro hoje só existe o sistema capitalista – uma larga voracidade de lucro. Isso é redundância. Falar em capitalismo é falar, obviamente, em voracidade. Mas o mercado editorial apresenta, como algumas poucas exceções, uma voracidade muito específica.

Como é que se traduz essa voracidade editorial entre nós? No favorecimento indiscriminado daquilo tudo que é livro de autoajuda ou é livro de diluição, ou é livro com possibilidade de ser best seller. O grande inimigo de uma fecundação literária brasileira está nos editores, em primeiro lugar; em segundo lugar, no fato da conivência entre a academia e esses preceitos reais. Você tem na última década uma possibilidade de simpósios e encontros de literatura como nunca houve nesse País, mas em que simpósio, em que encontro essas questões são levantadas? Não são levantadas. É isso é que eu chamo da perduração do que o Sérgio [Sérgio Buarque de Holanda] designava como cordialidade. A dita cordialidade. Ou seja: confundir crítica intelectual com crítica pessoal. A dita cordialidade é responsável pelo fato de que essas grandes questões sejam sabidas mas não sejam discutidas.


“A academia brasileira é extremamente irregular. Você encontra em meia dúzia de universidades algumas figuras de qualidade efetiva cercados por grandes continentes de mediocridade”.
Qual a sua opinião sobre a crítica literária brasileira como orientadora do leitor? Como orientadora eu não diria. Diria como mediadora no sentido de facilitar o leitor a reconhecer bem ou mal diferentes direções e novidades. Nesse sentido, a crítica como mediadora praticamente desapareceu com o desaparecimento dos suplementos, e o fato de que o que se chama de jornalismo cultural inexistir entre nós. Isso é um grande vazio. A ausência da crítica mediadora representa um grande vazio.

No interior da academia, no interior da universidade, vejo alguma coisa que não é muito simpática nesse sentido, mas que precisa ser dita – eu não faço questão nenhuma de ser simpático. A academia brasileira é extremamente irregular. Você encontra em meia dúzia de universidades algumas figuras de qualidade efetiva cercados por grandes continentes de mediocridade. Claro, isso não é exclusividade brasileira, a qualidade não é bem uma propriedade humana. Mas entre nós essa divergência se acentua. Você tem uma margem de mediocridade muito grande, uma maioria de medíocres em relação a umas poucas figuras excepcionais. Parece-me que isso, também, não é exclusividade do campo da literatura, mas estamos falando de literatura...


Qual é a lição que o senhor toma desse encontro de Manaus?
O meu maior medo a respeito de Manaus era o calor. Esse medo não se cumpriu. Acredito mesmo que foi uma excepcionalidade, uma sorte. Mas a coisa que mais me impressionou no Amazonas foi... Uma coisa é saber que somos um país continental. Outra coisa é verificar essa continentalidade. Foi a vinda a Manaus que me fez perceber essa coisa extraordinária que eu não sei como explicar. Como é que nós conseguimos essa unidade nacional, onde se tem diferenças de sotaques, mas são apenas de sotaques. Você fala português de ponta a ponta do Brasil. Em Manaus, eu tive a sensação de que falo mais português do que no Rio Grande...


Qual a sua avaliação sobre o acordo ortográfico da língua portuguesa? A ausência de um trema para mim é um sofrimento, como suponho que tenha sido um sofrimento no começo do século do século passado, como o desaparecimento do y e do w.


Obras de Luís Costa Lima
Dispersa Demanda (1981)
O Livro do Seminário (1983)
O Controle do Imaginário (1984)
Sociedade e o Discurso Ficcional (1986)
O Fingidor e o Censor: no Ancien Régime, no Iluminismo e Hoje (1988)
A Aguarrás do Tempo: Estudos sobre a Narrativa (1989)
Pensamentos nos Trópicos (1991)
Limites da Voz: Montaigne, Schlegel (1993)
Limites da Voz: Kafka (1993)
Vida e Mimesis (1995)
Terra Ignota (1997)
Mimesis: Desafio ao Pensamento (2000)
Euclides da Cunha: Contrastes e Confrontos do Brasil (2000).

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Ato contra a violência, a impunidade e a invasão da Ufam

sexta-feira, 15 de maio de 2009


Professores, estudantes e técnicos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) – mais representantes de instituições da sociedade civil organizada – protestaram ontem, pela manhã, no hall do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), contra a violência e a impunidade. A manifestação foi gerada pela agressão física cometida pelos empresários Amin e Mansur Aziz, irmãos do vice-governador Omar Aziz, contra o professor doutor Gilson Monteiro, do Departamento de Comunicação Social da Ufam. Monteiro foi agredido a socos e pontapés dentro da sala de aula.

Os irmãos Aziz foram chamados por uma aluna – filha de um deles – que não gostou de ouvir o professor mencionar o nome do vice-governador como um dos citados pela CPMI que investigou crimes de pedofilia e corrupção de crianças e adolescentes no Brasil. Monteiro explicou que se referiu a um fato de domínio público como exemplo da relação entre poder e imprensa. Omar teria, na época, tentado impedir que essa investigação ocorresse e que o caso viesse a público. “Eu fui agredido fisicamente, mas a maior agressão é contra a universidade”, disse Monteiro. A Polícia Federal abriu inquérito para investigar as circunstâncias da agressão.

No final do ato público, os manifestantes foram até a reitoria da Ufam exigir um posicionamento público do reitor Heidemberg Frota contra o ato de violência dos irmãos do vice-governador a um dos servidores da instituição. Nenhum dirigente da universidade foi encontrado no local. Entidades do movimento social organizam uma grande manifestação de apoio à liberdade de expressão e contra a violência.

Confira o manifesto do ato público:

MANIFESTO GILSON MONTEIRO

A LIÇÃO DE AZIZ


Em 10 de dezembro de 1948, a Assembléia Geral das Nações Unidas proclamou um documento que entre nós parece estar sendo esquecido:

Em seu preâmbulo, diz aquele memorável documento:


A Assembléia Geral proclama

A presente Declaração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.

Hoje, neste dia triste, sem esquecer dos artigos onde se declaram os direitos à vida, à integridade física e à segurança pessoal, temos de recitar os artigos XVIII e XIX :

Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.

e

Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

No dia 11 de maio de 2009, em sua sala de aula, no Instituto de Ciências Humanas e Letras, o Professor Gilson Monteiro, jornalista, candidato a Reitor nas eleições ocorridas na Universidade Federal do Amazonas no último mês de abril foi agredido com socos e pontapés, com palavras e gestos que o ameaçaram de morte. Um dos alunos presentes tentou socorrê-lo, mas foi advertido pelo agressor de que daquela forma seriam tratados todos os que mexerem com sua família. Nos dias seguintes, autoridades exercendo as mais altas funções no poder Legislativo e no Poder Executivo do Estado do Amazonas saíram em defesa do agressor e condenaram a vítima. O poder judiciário ainda não se manifestou.

Entre as declarações daquelas autoridades publicadas em jornais da cidade, encontram-se três que pretenderam ensinar o professor a se conduzir corretamente em sala de aula:


“No meu entendimento, isso serviu de lição para aqueles que não têm respeito no
seu espaço de trabalho.”



“Muita gente está confundindo liberdade de expressão com o direito de
caluniar e difamar. Não é isso não.”


“Há de se reconhecer a emoção do ato, que foi movido a exagero, mas não
foi exagero do professor ao tentar imbuir fatos levianos ocorridos no
passado?”

Disse o agressor, sem que nenhuma autoridade tenha até o momento se levantado para censurá-lo:



“Eu discordo de um professor de formar opinião dentro de uma universidade. Ele é
pago para ensinar”.

Não estamos aqui somente para lembrar os ensinamentos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Estamos aqui para denunciar o fato de que um Professor foi violentamente agredido no exercício da docência, humilhado na frente de seus alunos e ameaçado de morte por pessoa pertencente à família do Vice-Governador do Estado. Nossa denúncia aponta fato conhecido de todos, amplamente divulgada na cidade de Manaus e em jornais de circulação nacional. Denunciamos a agressão ocorrida no dia 11 de maio e temos de denunciar também a conivência e o apoio que autoridades do parlamento e do poder executivo deram ao agressor.

Conivência e apoio que atestam haver o Senhor Aziz dado uma lição que já fez escola. Uma lição da qual muitos dos que têm a obrigação de condená-la mostraram que, na verdade, não têm vergonha de disseminar as diferentes maneiras de a praticar.

O que queremos com esta denúncia? Somos professores, alunos, homens e mulheres, cidadãos brasileiros, estrangeiros no Brasil, cidadãos em outros países. Exigimos que o Estado onde vivemos e as autoridades que nele estão investidas das obrigações de defesa e promoção dos direitos individuais e coletivos dêem provas de que estão cumprindo seus deveres. Também exigimos a prova de que eles não est ão se lixando para o estado de direito.

Exigir-lhes que dêem prova de respeito à dignidade e a integridade moral e física dos que com eles não concordam parece, até agora, um desafio perigoso. O Professor Gilson Monteiro ousou lançar mão de exemplos que circularam na imprensa, comentados nos quatros cantos da cidade. O seu ensinamento dizia respeito à realidade onde vivemos. O que ele e nós aprendemos com a aula do Senhor Aziz? Que teremos, doravante, como Shakespeare, de falar do Reino da Dinamarca, onde algo de malcheiroso pode se espalhar pelo vento sem que ninguém, entre nós, seja infectado.

Esta denúncia será enviada à Ordem dos Advogados do Brasil, ao Presidente do Congresso Nacional, ao Presidente do Supremo Tribunal Federal, ao Presidente da República, a todos os sindicatos dos Professores no Brasil e no exterior e às Nações Unidas. Também será enviada ao Presidente da Câmara Municipal de Manaus, à Assembléia Legislativa e ao Excelentíssimo Senhor Governador do Estado.

Esperamos que estas autoridades se manifestem clara e publicamente sobre a Lição do Senhor Aziz. Ela não pode ser tratada como um acontecimento banal. Não se trata de uma ocorrência da vida privada. Homens públicos foram envolvidos em suas atividades públicas, profissionais e políticas. Todos os que respeitam a cidadania esperam que seus governantes lhes sirvam de exemplos.

Esperamos que estas autoridades ofereçam ao Professor Gilson Monteiro e aos que como ele pensam e se conduzem garantias de integridade física e moral, de liberdade de opinião e de livre exercício da docência. Sem este compromisso, acusaremos essas autoridades de cúmplices do Senhor Aziz e de promoverem a violência como solução aceitável dos conflitos sociais.

Manaus/AM, 15 de maio de 2008

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Novo relatório da Repórter Brasil analisa impactos da soja e da mamona

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Thaís Brianezi

A Repórter Brasil lança, neste final de abril de 2009, o quarto relatório “O Brasil dos Agrocombustíveis – impactos das lavouras sobre terra, meio e sociedade”, que analisa os impactos econômicos, sociais, ambientais, fundiários e trabalhistas da produção de soja e de mamona no país, nos últimos doze meses. Para fazer a pesquisa, a equipe do Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis (CMA) percorreu 21,4 mil quilômetros, por meio aéreo e terrestre, nos estados da Bahia, Goiás, Mato Grosso e Rondônia, além do Distrito Federal.

Soja
Com a diminuição de crédito ao agronegócio, a quantidade colhida de soja em 2009 (58,1 milhões de toneladas de grãos) deve se manter no mesmo patamar de 2008 (60 milhões de toneladas), de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Apesar disso, entre março de 2008 e março de 2009 foram construídas 14 usinas de biodiesel no Brasil, aumentando para 65 o número total de unidades e ampliando a capacidade nacional de produção do combustível em 23%, atingindo 4 bilhões de litros por ano.

O óleo de soja continua sendo a matéria-prima mais utilizada na produção de biodiesel no Brasil, respondendo por 80% do total, em média. Com isso, os agrocombustíveis ainda não representam uma alternativa concreta de fortalecimento da agricultura familiar. No Rio Grande do Sul, por exemplo, Estado campeão em vendas de biodiesel no mais recente leilão promovido pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a participação dos pequenos agricultores tem se limitado à venda de soja em grão às usinas, que assim obtêm do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) o Selo Combustível Social e as facilidades de financiamento e incentivos fiscais decorrentes deles.

Nos latifúndios, a mecanização intensa e o baixo uso de mão-de-obra nas lavouras de soja não impediram que no ano passado 125 trabalhadores escravos fossem libertados pelos grupos móveis de fiscalização em sete propriedades onde havia plantio do grão. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o caso mais grave em área de soja ocorreu em uma fazenda em Goiás, onde foram encontrados 78 trabalhadores escravos.

Os povos e comunidades tradicionais também sofrem com a aposta brasileira no agronegócio. Não por acaso, a 2ª Assembléia Geral da Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado (Mopic), ocorrida em dezembro de 2008, teve como tema “O impacto da soja sobre as terras indígenas do Cerrado”. Além da campanha da bancada ruralista para que a demarcação de terras indígenas deixe de ser atribuição exclusiva da Fundação Nacional do Índio (Funai) e passe pelo Congresso Nacional, há impactos diretos, como invasão de áreas por fazendas de soja e a poluição (causada pelos agrotóxicos) de nascentes de rios que entram em terras indígenas. Apesar disso, diante da dificuldade em consolidar alternativas de renda sustentáveis para as aldeias, o povo Paresi, no Mato Grosso, produz soja em grande escala, em parceria com fazendeiros e uma empresa de farelo da região.

O lobby ruralista se expressa também na reivindicação por investimentos em infra-estrutura, como o asfaltamento da BR-158, rodovia que viabilizará a exportação da soja pelo Porto de Itaqui, no Maranhão. Apesar de cruzar uma área de transição entre floresta e Cerrado e passar por duas terras indígenas, a obra não tem despertado no governo os mesmos cuidados que a rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163). Na região do Baixo Araguaia, o chamado “Vale dos Esquecidos”, só a expectativa de asfaltamento da BR-158 já foi suficiente para dobrar o preço do hectare de terra, agravar conflitos fundiários e atrair investimentos das multinacionais de soja (a Cargill, por exemplo, quadruplicará a capacidade de armazenamento de um silo localizado à margem da rodovia).

Dentre os impactos socioambientais da produção de soja no Brasil, o relatório traz ainda flagrantes de desrespeito à legislação ambiental no entorno do Parque Nacional das Emas, em Goiás, como o plantio de soja transgênica e a utilização de agrotóxicos proibidos.

Na Amazônia, a pressão da soja sobre a floresta diminuiu, segundo os signatários da Moratória da Soja. Mas ambientalistas avaliam que o desmatamento continua ocorrendo, agora em outros moldes, principalmente em áreas menores. Municípios como Feliz Natal, Gaúcha do Norte e Querência, no Mato Grosso, e Dom Eliseu, no Pará, campeões de desmatamento e importantes produtores de soja, continuaram a desflorestar e a plantar o grão nestas áreas.

Estado eleito pelo CMA para uma análise mais minuciosa, Rondônia vive uma expansão da soja que, de forma geral, tem empurrado a pecuária para áreas de floresta, causando assim o desmatamento indireto. Os produtores do Estado - que em 2008 apresentou o segundo maior crescimento percentual da área de soja do Brasil -, também estão pressionando por mudanças no Código Florestal que permitam uma ampliação do desmatamento legal. A soja em Rondônia também é responsável pelo aumento da concentração fundiária, a exemplo de Corumbiara, onde os sojicultores já invadem áreas de reforma agrária.

Mamona
Em 2009, a área plantada de mamona voltou a sofrer uma pequena queda. Segundo o relatório de safra da Conab de abril de 2009, a oleaginosa deve ocupar cerca de150 mil hectares, diminuição de 7,8% em comparação com 2008, quando o país plantou cerca de 160 mil hectares. Esta queda atinge principalmente a região Nordeste, maior produtora do país, que, dos 156 mil hectares cultivados em 2009, plantou apenas 142 mil este ano.

Este fenômeno pode parecer estranho, já que em 2008 a mamona atingiu ótimos preços (um pico de R$ 85 na Bahia e R$ 80 no Rio Grande do Sul). O cultivo da oleaginosa também recebeu um novo incentivo com a inauguração de três usinas da Petrobrás (em Quixadá, no Ceará, Candeias, na Bahia, e Montes Claros, Minas Gerais) e a opção política da estatal de investir prioritariamente nos produtores familiares de mamona.

A catastrófica atuação da empresa Brasil Ecodiesel nos últimos anos – atraso nos pagamentos, quebra de contratos, abandono da produção de mamona nas propriedades, entre outros –, no entanto, assustou muitos agricultores, que abandonaram a cultura. De acordo com o governo, como a empresa não cumpriu grande parte dos requisitos do Selo Combustível Social, mecanismo que garante a participação das usinas nos leilões de biodiesel e lhes oferece uma série de vantagens fiscais, de três a quatro das seis usinas da Brasil Ecodiesel devem perder o selo este ano. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário, esta medida deve “quebrar a Brasil Ecodiesel”.

Os pequenos agricultores também afirmam que tanto as empresas de biodiesel quanto os governos estaduais ou atrasaram a entrega de sementes, ou entregaram sementes de baixa qualidade, e não providenciaram a assistência técnica prometida, o que impactou o desenvolvimento da cultura. Outra crítica é a falta de visão sistêmica e de investimentos mais amplos nas propriedades familiares. Em Cafarnaum, município campeão de produção da mamona na região de Irecê, Bahia, centenas de agricultores migram para outros estados em busca de trabalhos temporários porque a não sobrevivem da própria produção.

De qualquer forma, apesar de ainda ser a vedete do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) e da Petrobrás, a mamona não é utilizada para biodiesel. Toda a produção brasileira se destina à ricinoquímica, mesmo a parcela adquirida pelas empresas de biodiesel, que, neste caso, atuam como meros atravessadores entre a agricultura familiar e a indústria química.

Este novo relatório do CMA também analisa a fundo as políticas do governo e da Petrobrás para a mamona, mostrando que o PNPB está tendo muitas dificuldades para atingir seus objetivos sociais. Se o programa conseguir cumprir a meta de inclusão da agricultura familiar deste ano, apenas 80 mil pequenos agricultores, de um universo de mais de quatro milhões, serão beneficiados. O último levantamento aponta apenas 28 mil famílias ligadas ao PNPB.

Quanto ao Selo Combustível Social, mecanismo que premia empresas que compram da agricultura familiar, mudanças levaram à diminuição das obrigações das usinas no Nordeste, que agora podem incluir na cota de gastos com os agricultores todos os custos dos contratos (assistência técnica, sementes, diárias, adubos, alimentação, etc), diminuindo o volume de produção efetivamente comprado dos agricultores – e, consequentemente, diminuindo seus ganhos.

Por fim, a decisão da Petrobrás de investir na mamona, oleaginosa muito mais cara que a soja, pode ser colocada à prova pelo mercado e por seus acionistas nos próximos tempos. No entanto, a empresa se justifica alegando que sua aposta é no futuro, quando a mamona, caso sua área plantada se expanda, poderia se tornar matéria-prima relevante para o biodiesel brasileiro. Independente disto, a cultura continua sendo um esteio do sertanejo nordestino, que tem mercado garantido para a sua mamona no setor químico. Mas se e quando a oleaginosa virará biodiesel é difícil de prever.

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domingo, 19 de abril de 2009

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sábado, 18 de abril de 2009

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domingo, 12 de abril de 2009

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sábado, 11 de abril de 2009

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sexta-feira, 10 de abril de 2009

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quinta-feira, 9 de abril de 2009

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Oficina de poesia em Parintins

quarta-feira, 8 de abril de 2009













O escritor Tenório Telles e o ator e poeta Dori Carvalho ministrarão, em Parintins, nos dias 10, 11 e 12, no auditório da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a oficina literária “Poesia – Linguagem e Memória”, promovida pelo Instituto Memorial de Parintins (Impin). Estão disponíveis, gratuitamente, 35 vagas. A proposta do instituto é estimular e capacitar pessoas para o registro do patrimônio material e imaterial da cidade por meio dos mais diversos gêneros literários e audiovisuais.

A oficina terá dois momentos: o da sala de aula, com aulas teóricas e práticas, ministradas por Tenório Telles, com apoio de Dori Carvalho na recitação de poemas; e o extraclasse, um sarau com os participantes, sob a coordenação de Dori Carvalho, sábado à tarde, no Centro do Idoso, no bairro Itaúna. O sarau é aberto ao público. “Parintins precisa dar visibilidade à sua diversidade cultural”, afirma o presidente do Impin, jornalista Wilson Nogueira.

Essa é a primeira de uma série de atividades que o Inpim, em parceria com o Poder Público Municipal, setor privado e ongs, planejou para realizar neste ano. As próximas estão vinculadas à fotografia, cinema e vídeo. Outras duas oficinas literárias foram realizadas em 2007 e 2008.

Nogueira explica que o Impin quer, primeiramente, sensibilizar o público para a importância da conservação, exposição e registro do patrimônio cultural do município. “Sem articulação com as comunidades não há o compartilhamento de experiências nem protagonismo social”, acentua Nogueira.

Para Tenório Telles, o Impin é uma experiência exemplar de cidadania. “Colaboro com esse projeto porque sei que as pessoas que dele participam não se envergonham de ser um pingo d’água no oceano. É do esforço de cada voluntário que a grande obra vai se erguendo. Aqui eu falo da imensa catedral da cultura, esse monumento que haverá de mudar o mundo”, afirma Tenório.

Dori Carvalho disse que Parintins “é referência de arte para o Brasil” que aceitou participar do projeto do Impin porque conta, de antemão, com “essa sinergia que pulsante na cultura parintinense”. Dori compôs o staff dos recitais do 1.º do Festival Literário Internacional da Floresta (Flifloresta), realizado em Manaus, em novembro, com a participação de poetas, escritores e atores de Angola, Brasil, Brasil, Cuba,Uruguai e Venezuela.

A Oficina de Poesia – Interpretação e Memória tem o apoio da Ufam, da Coordenadoria de Cultura da Prefeitura de Parintins, da Editora Valer, da Câmara Amazonense do Livro e Leitores (CALL), do senador João Pedro (PT/AM) e da Academia Parintinense de Letras.

Perfis

Tenório Telles

Professor de Literatura Brasileira, membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), presidente da Câmara Amazonense do Livro e Leitores (CALL) e editor-coordenador da Editora Valer. Publicou os livros: – Primeiros Fragmentos (poesia) – 1988 (edição independente); – Estudos de Literatura Brasileira e Amazonense (ensaio) – 1995; – Leituras Críticas (ensaio) – 1996; – O Amazonas em Sua Literatura (CD-ROM) – 1996; – Antologia do conto do Amazonas (em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger) – 2003; – Poesia e poetas do Amazonas Amazonas (em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger) – 2003; – O Anjo cético e o sentimento do mundo – 2003; – Introdução à literatura brasileira – 2003; – Textos que edificam (Antologia); – Estudos de literatura do Amazonas – 2004; – A Derrota do Mito – 2003. Montagem Teatral: – A Derrota do Mito – Montagem: Jiquitaia Produções. Direção Théo Corrêa. Em cartaz de 1997 a 1999 – No Centro de Artes da Universidade do Amazonas.

Dori Carvalho
Poeta e ator. Atuou nas peças “Elogio da preguiça”, de Márcio Souza, e “Aquela outra face da tribo”, de Aurélio Michiles. Nos anos de 1980, desempenhou importante trabalho de divulgação do livro, à frente da Livraria Maíra. É autor dos livros: Desencontro das águas – 1986; Paixão e fúria – 2004.

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segunda-feira, 6 de abril de 2009

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Os perigos do turismo às culturas locais


O sociólogo Claudino Ferreira, pesquisador da Universidade de Coimbra, enfatiza o papel da universidade e das ONGs na mediação entre o trade turístico internacional com as comunidades que se interessam pela atividade turística como geradora de renda e de inclusão social. Claudino esteve em Manaus, em outubro do ano passado, para participar do 2.º Seminário cultura popular, patrimônio imaterial e cidades, promovido pelo Departamento de Antropologia da Universidade do Amazonas (Ufam). Claudino dedica-se ao estudo das transformações das cidades, causadas pela invasão das culturas contemporâneas.

No momento, ele realiza estudos comparativos entre cidades européias e brasileiras, por meio de uma rede de pesquisadores de várias universidades. O sociólogo deixou suas impressões sobre Manaus (AM), sobre a Amazônia e expôs as suas preocupações com a condição econômica subalterna imposta às comunidades que não dominam os negócios do capitalismo global. “Se você sujeita isso [a expressão cultural] apenas a interesses econômicos, as comunidades deixam de ter, verdadeiramente, um objeto para se exprimir livremente”, disse Claudino. Confira a entrevista ao repórter Wilson Nogueira:

Qual a idéia que senhor tem de Manaus?
É uma idéia ainda muito precária. A primeira impressão ainda é muito frágil. Estive um dia na cidade, como você sabe. Como turista, achei uma cidade muito bonita, porque foi um pouco nessa perspectiva que eu a vi. Fiquei curioso em conhecer a cidade no lado mais social. Do ponto de vista da arquitetura a gente consegue reconhecer os traços da história dela, da historia colonial, da história mais recente também. É uma cidade bem diversa, mas preciso de um pouco mais de tempo. Tem, com certeza, um lado escondido dessa cidade que eu não consegui ver ainda. Não dá para entender se é uma cidade onde as pessoas vivem bem ou mal. Se tem gente mais pobre ou gente mais rica. Imagino que, como grande parte das cidades brasileiras, seja uma cidade bem desigual, com uma distribuição de renda muito desigual.

O que eu mais conheço de Manaus é da história da literatura, e, por isso, a minha visão da cidade fica um pouco limitada por essa nação de que é de uma cidade que foi colonial, mas que hoje é bem diferente, com certeza. Fiquei muito impressionado com o teatro [Teatro Amazonas]. O teatro parece quase um monumento anacrônico na cidade. Uma coisa de outro tempo que sobreviveu e que atualiza esse imaginário colonial que é estranho no Brasil de hoje.

Como o senhor analisa essa relação dos negócios da cultura com as culturais locais?
Acho que Manaus, desse ponto de vista, é um caso muito interessante. O turismo é uma coisa que funciona hoje em escala global. Tem muito lugar no Brasil que tem condições de entrar nesse circuito global de turismo. O turismo traz coisas boas, mas traz coisas más, como todo mundo sabe. Traz renda, é claro. Traz turista que consome, que deixa rendimentos, mas traz, também, transformações que nem sempre o povo que vive no lugar controla.

Acho que, para uma cidade como Manaus, e para toda a Amazônia, a questão fundamental é saber quem domina, quem controla o fluxo turístico? Quem tira proveito disso? Quem trata da apresentação daquilo que o turista vem ver? É uma responsabilidade grande que cabe às autoridades, ao poder público, mas cabe também à população em geral não deixar que sejam os grandes comitês da indústria, os grandes intermediários do turismo global que venham a fazer a venda turística do lugar. Portanto, que seja a própria população a tomar conta e a vender a sua imagem, porque é do vender que se trata um pouco

Não há que ter ilusão de que é um negócio que está em causa. Agora você tem que saber como vender. Você quer vender o seu lado da coisa, aquilo que é mais favorável ao seu interesse? A grande questão política é essa: encontrar uma forma de beneficiar mais o local, porque o turismo tem um risco enorme, sobretudo o turismo internacional. Todo turismo internacional se faz por fluxos e os fluxos hoje param aqui, e amanhã, pararam num lugar qualquer. Explora o que você tem que dar aqui e depois sai cruelmente, sem querer saber o que ficou com o povo do lado de cá.

Então, primeiro: acho importante não ser demasiado ambicioso, não querer ganhar tudo de uma vez. Pensar que pouco turismo pode ser melhor do que muito turismo. Muito turismo destrói. Segundo: é fundamental que a comunidade local saiba tomar conta do seu próprio espaço, da sua própria apresentação e não deixe transforma-se num folclore, que é criar coisas sem qualquer respeito à cultura local. Mas isso todo mundo acha. O difícil é fazer, não?

Quais os mecanismos de inclusão das populações nesse processo?
As experiências que há no mundo, pelo menos as que eu conheço, não são muito favoráveis. Não são muito de alimentar otimismo. Sempre o mercado tem força maior que as comunidades locais. Agora há muita experiência – um pouco por todo lado – de pessoas e comunidades que conseguiram fazer as coisas de acordo com os seus próprios interesses. Acho que a questão fundamental aí é a dos mediadores: as instituições, as universidades, antropólogos, organizações civis, associações, ONGs, que podem fazer esse trabalho de intermediação entre as pequenas comunidades que estão na floresta amazônica e o mercado turístico. Só não pode é deixar que seja o próprio mercador a chegar, invadir, montar hotel e instalar circuitos que você não controla. É preciso ter formas de organização.

As populações locais são, em geral, frágeis porque não conhecem o processo: não conhecem a burocracia, não têm acesso aos canais dos recursos globais, às mídias, aos fóruns de discussão; então, elas precisam de mediadores. Acho que a universidade, por exemplo, pode ter uma grande responsabilidade nisso, as mídias locais podem ter uma grande responsabilidade nisso. Por isso é importante criar as associações, as ONGs, para que elas façam essa intermediação, sobretudo para dar às comunidades locais a capacidade de entrar nesse mercado com os seus próprios meios, e não fazer o contrário, que é chamar os investidores e deixar todo o turismo livre para os investidores. Então, tem um problema de organização. Agora eu não sou muito otimista com isso.

Por quê?
Porque os mediadores sempre têm agenda própria. Por muito bem intencionados que sejam, têm sempre agenda própria, tem um plano de agenda própria, têm interesses próprios; e esses interesses se diferem na maneira de como fazem a ligação entre as comunidades e o mercado. Portanto, o ideal não é muito ideal. O ideal seria que as próprias comunidades tivessem capacidade de entender como funcionam esses mercados, e de não precisarem de mediadores para entrar neles.

Na sua opinião, a Internet facilita ou dificulta esse processo?
Olha, eu sou otimista em relação à Internet. Li muita coisa sobre Internet. Há análises muito otimistas e análises muito pessimistas. Acho que a Internet é só um meio como outro qualquer. Depois que você domina o instrumento, não tem nada de extraordinário. Dá uma possibilidade enorme de comunicar em escala planetária. Você pode se comunicar com qualquer pessoa do outro lado do mundo. Você pode chamar turista de outro lado do mundo. Pode conectar com organizações semelhantes a tua do outro lado do mundo. Há uma partilha enorme a se fazer por aí. Para isso, você precisa ter acesso ao instrumento e saber como utilizá-lo. Eu sou otimista. Uma vez mais tem a ver com os mediadores.

A Internet dá muita autonomia às pessoas. Mas é preciso saber dominá-la e saber por onde você entra para chegar aonde quer chegar. Por outro lado, a Internet cria muito a ilusão de que o mundo está aos seus pés, que você pode chegar onde quiser. É verdade, mas nem todos nós conseguimos circular na Internet com essa facilidade. Agora eu acho que é um canal importante e que a responsabilidade daqueles que tem mais facilidade de acessar é muito grande em ajudar aqueles que não puderam ainda ganhar acesso.

Como é que a Amazônia é vista na Europa, exatamente hoje?
Você tem todo esse imaginário do exótico. A Amazônia hoje é bem pouco conhecida. Eu próprio estou pela primeira vez aqui, não conheço nada. Conheci Manaus ontem, e tenho uma série de estereótipos na cabeça que tem a ver com o imaginário exótico, selvagem, de vida natural, de vida natural mesmo, que a gente sabe que não existe, porque natureza para nós é sempre natureza transformada pelas atividades humanas. A Europa, de onde eu venho, tem muito desse imaginário da Amazônia. É um imaginário que é muito positivo de um lado, que foi muito transmitido na nossa vida cotidiana, esse imaginário de natureza pura.

Há outro imaginário, bem mais pessimista, do pensamento de esquerda, que olha para a Amazônia com muita preocupação sobre o modo de como o capitalismo global está também a invadir e a destruir a floresta amazônica. Daí que eu acho, finalmente, que a Amazônia é de quem vive na Amazônia. Aquilo que gente como eu faz é aprender um pouco com a experiência de quem aqui vive, para ultrapassar esse estereótipo. Eu não conheço a Amazônia.

O senhor já conhecia o Brasil?
Conheci o Brasil há 15 anos. Eu tinha uma idéia muito errada do Brasil. Estereótipos. Carnaval! Futebol! Gente um pouco superficial! Todo o imaginário que se passa na Europa a cerca do Brasil. Depois da primeira vez que eu vim ao Brasil, mudei completamente a minha visão de Brasil. Basta você falar com cinco ou seis pessoas e você entende que a idéia que você tinha na cabeça estava errada. Não errada por ser errada, mas errada por conta de uma visão com pouca experiência da vida. Então, em relação à Amazônia eu tenho a mesma idéia. Tenho muitos estereótipos na cabeça. Mas nada melhor do que vir aqui e falar com você, com os meus amigos e com as pessoas que moram aqui, para eu contatar, e poder tirar todo esse imaginário que está na minha cabeça.

Como será a cultura no pós-crise? Ou melhor: a cultura pode ser um componente de combate à crise?
Há toda uma ilusão de como a cultura pode ser um novo motor da economia. Em cidades em crise, sobretudo, há a idéia de que há um novo setor a investir que é o setor da cultura. Bom. Tem toda uma discussão sobre quê cultura é essa? Você pode entender como um novo setor de investimento econômico, de movimento econômico. Eu acho que já não é bem a cultura que nós estamos a falar. É outra cultura, muito mercantilizada, sobretudo, onde a expressão cultural identitária esteja muito popular. Tem muito mais economia do que cultura na verdade. Isso não é problema nenhum. A relação entre cultura e economia já leva muito tempo. Não há como fugir do mercado. Agora depende da maneira de como você encara o papel da cultura no mundo contemporâneo.

Eu não acho que a cultura seja a salvação para a economia pós-crise, de maneira alguma. A cultura tem o papel a desempenhar e pode ajudar no crescimento da economia, mas não podemos atribuir muito um papel de responsabilidade econômica à cultura, senão estaremos a desvirtuar o papel da cultura. Se se faz uma festa, como essa aqui do boi-bumbá [festival folclórico de Parintins (AM)], pensando que vem do objetivo dessa festa conseguir rendimento para ajudar a resolver a crise da cidade, ora, isso é muito bom para a expressão cultural, vai ser bom para as pessoas que participam, porque elas se sentem valorizadas no mundo intelectual e material mais do que outra coisa qualquer.

Pô, mas depois você pensa: o que isso significa para aquele evento, para aquela manifestação popular? O objetivo já não é o mesmo, foi completamente pervertido. Aí, você perde o lado mais rico: o lado da expressão individual, da festa, da identificação com a comunidade. Tudo isso se perde em nome de um objetivo aparentemente maior, que é o de gerar investimento próprio.

Então, acho que é preciso um grande equilíbrio e muita cautela, para a cultura continuar a ser cultura. Cultura é basicamente é o modo como as comunidades se expressam. Comunidades maiores, com mais problemas, com intenções, com diferenças, mas é a maneira como o povo pode se exprimir. Se você sujeita isso, apenas interesses econômicos, as comunidades deixam de ter verdadeiramente um objeto para se exprimir livremente.

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domingo, 5 de abril de 2009


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sábado, 4 de abril de 2009


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“A minha resposta é uma só: como construção de história de memória, é tudo uma questão de poder”

domingo, 22 de março de 2009

A Professora Doutora Maria Lúcia Montes, antropóloga do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), dedica-se à pesquisa histórica por meio do resgate da memória. Os resultados de uma das suas pesquisas serão publicados pela Editora Valer (Manaus, Amazonas) em maio, com o título “Fragmentos de uma outra história: memória negra submersa na metrópole paulistana”. Trata-se de um estudo sobre a memória dos negros na cidade de São Paulo.

Em outubro do ano passado, ela fez conferência em Manaus, no 2.º Seminário Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Cidades (15, 16 e 17), promovido pelo Departamento de Antropologia da Ufam, sob a coordenação do Professor Doutor Sérgio Ivan Gil Braga. Maria Lúcia explica que a história não tem como recurso apenas documentos e que diversas sociedades, principalmente as tradicionais, se utilizam da memória, da dança e do canto para elaborar a sua história.

Nas sociedades ditas modernas, a prática de se transmitir a tradição por meio da oralidade fica mais difícil em razão da enxurrada de informações dos meios de comunicação. É nesse ambiente que, segundo ela, não só os brasileiros, mas o mundo, fica cada vez mais com a memória curta. Confira a entrevista que ela concedeu ao jornalista Wilson Nogueira.

Há diferença entre o conceito de memória e historia?
A noção de história tradicional que a gente tem (que eu questiono em função do meu campo de trabalho) lida com memória negra. Eu estava dizendo (ela se refere à palestra que ministrou) que o documento não é a única coisa que legitima a memória, porque o documento é o lado escrito. Ele é, como diz o africano, a fotografia da coisa; o saber é outra coisa. Isto é: estou falando em nome de uma concepção de história, que é tradicional na África: a história que é contada pelo criô. Quer dizer: são sociedades sem escrita, onde a memória é a história.

Portanto, você utiliza todos os recursos mnemônicos possíveis. Então, você conta a história do teu povo acompanhada de música, de dança. A história é quase como se você quisesse fazer um rememorar permanente da narrativa da história feita no contato face a face. Então o que está em jogo, realmente, é uma recuperação de um tempo passado, mas que te inscreve no presente como parte dele.

No fim das contas, o que eu estava tentando questionar era a nossa versão de história como um relato do tempo passado, que você tem métodos científicos para documentar, e aí você analisa em função de várias questões teóricas etc. Isso não é a experiência de história de outros povos. O que está presente nesse país é a liderança africana desse universo do qual eu estou trabalhando.

Portanto, eu estava dizendo: a construção dessa memória, o resgate deste patrimônio imaterial dessa memória é a construção de outra história, que é uma história subalterna, uma história invisível. Na maior metrópole brasileira, vou descobrir uma historia do negro que só posso alcançar através do estranhamento da memória.

Como trabalhar, metodologicamente, com a memória?
Acho que é o olhar. Não é a metodologia. É olhar com o qual você trabalha com qualquer que seja o suporte da memória. É isso que ocorre em Memória do Jongo (livro-CD de autoria dos pesquisadores Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco sobre as gravações históricas de Stanley J. Stein, feitas em Vassouras-MG, em 1949), que registrou cantos de jongo.

As pessoas achavam que haviam perdido esses registros, mas elas os recuperaram. Aí, uma série de pessoas foi estudar o que é o jongo como tradição de cultura africana nessa região do café, no Vale do Paraíba, em Minas Gerais e São Paulo, na região do Sudeste.
O que os professores Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco fizerem é uma coisa maluca, porque ele vai pegar referências das cosmologias da África Central; palavras que são usadas, elas têm fragmentos, coisinhas mínimas que você vai encontrar, sei lá, a grande palavra, a cumba; jongueiros são as grandes cumba.

O que é que é cumba? Ele vai inventariar nas culturas africanas as multiplicidades de referências a essa palavra, que vai ter a ver até com macumba. Quer dizer: você começa a falar o jongo, que vai dar numa forma de religiosidade que surgiu muito depois, que você diz que já foi misturado. Quer dizer: é o olhar dele que vai dizer onde tem essa memória. Ela tem fragmentos o tempo inteiro, ou então ela está na rítmica, por exemplo.

Por isso é que eu estava dizendo que tem uma história escrita no corpo desse universo africano. Você tem uma forma de preservação da memória no mundo onde memória está tudo junto, que é mnemônico. Isso é ritmo e é canto tudo junto. É palavra. É todo o resto. A questão como você identifica a memória? É o cuidado de você olhar cultura, em cima de qualquer coisa que você tenha na mão: seja o registro sonoro seja o documento escrito.

Quando trabalhei essas historinhas que uso os desenhos, peguei uma literatura de memorialistas. É o sujeito que está falando na primeira pessoa. Pra mim, não interessa se ele está romanciando ou não. O meu olhar está vendo lá dentro o que ele está me contanto sobre o ethos da cultura em que foi produzido esse relato. Do meu ponto de vista, é isso que me interessava especificamente quando eu estava lidando com essa coisa da memória.

Qual a sua posição nesse debate sobre a patrimonialização da memória?
A minha resposta é uma só: como construção de história de memória, é tudo uma questão de poder. Quando você é capaz de dar, via políticas públicas, instrumentos para os grupos subalternos disputarem melhor no campo simbólico de poder espaços que sejam próprios, eu digo: bendito seja Deus, tá! Veja o exemplo da Bahia: por que a Bahia é o grande Estado negro do Brasil? Porque simplesmente tem recursos de reconhecimento.

Não é o fato de o Ipham (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) ir lá tombar as coisas, tá certo? Mas se legitimou de tal modo essa imagem da Bahia Negra que os grupos negros têm hoje como exercer um papel, um lugar dentro da sociedade baiana que você não vê em outro lugar do Brasil. Ou seja: é a legitimação que abre espaço para a conquista de mais espaço. Sou, absolutamente, favorável nesse sentido, não no sentido de congelar o bem, o valor etc. Esse caminho é o caminho de poder... Aí se tem condição de jogar melhor.


"São Gabriel da Cachoeira (município do Amazonas) acabou de eleger um prefeito
indígena. Eu lá em São Paulo pulando de alegria, até que enfim, que maravilha!"

Como está o indígena nesse contexto da escavação da memória no Brasil?
Não sou etnóloga, mas acho que, na verdade, você tem um lado que está extremamente avançado e outro que está extremamente atrasado. Avançado no sentido do que você tem de pesquisa acadêmica seríssima, pesquisa de etnohistória.

A professora Manuela Carneiro da Cunha, por exemplo, estuda longamente toda essa região Norte, na história dos grupos indígenas daqui. O que eu acho importante é a capacidade dos próprios grupos indígenas estarem se organizando em função de uma história que é deles, da reivindicação de um lugar para a sua memória, para a sua cultura e para sua presença na vida social. Por esse lado, acho que está, aqui, muito bem obrigado. São Gabriel da Cachoeira (município do Amazonas) acabou de eleger um prefeito indígena. Eu lá em São Paulo pulando de alegria, até que enfim, que maravilha!

Agora, ao mesmo tempo, quando você pega uma questão como Raposa Serra do Sol, o Brasil não tem a menor noção, você tem os piores grupos de direita acusando índios de serem imperialistas, de ser um risco para a segurança nacional. É aquela coisa retrograda do discurso militar dos anos de 1970 que está na boca do presidente do Supremo Tribunal Federal. Isso aqui me dá pavor total.

Então, na verdade, acho que está muito bom no sentido de se ter uma matéria-prima de resgate de reafirmação de memória, de história, de lugar político, de reivindicação etc. Mas, meu Deus, tem que lutar com uma oligarquia local das piores possíveis! Para mim, Roraima é só um exemplo do que é isso. Rondônia é parecido, o Acre eu não conheço muito bem. Em termos locais já é duro.

Agora em termos nacionais é uma tragédia, porque aí você tem assim: a imprensa, a opinião pública formando a visão que vocês aqui não tem como inventar que índio é uma coisa totalmente estratosférica ou extraterrestre, porque ele está do outro lado da rua. Agora lá, em São Paulo, você chegar e dizer: escuta, os grupos indígenas do Brasil são uma riqueza absoluta do patrimônio cultural desse país, da diversidade cultural desse país.

Você diz isso e os caras olham como se você fosse louca. Porque, eu acho que tem isso: tem um lado que vai muito bem, o outro lado eu acho que é uma tragédia, porque esse país continua ignorando as existências dos povos indígenas e, no momento, se tem uma ofensiva de direita das mais danosas, que, se puder, ferra com Raposa Serra do Sol; e a partir daí vai começar a rever todos os processos de demarcação de terras indígenas. Vai criar problemas para as terras de quilombo.

O momento político é o dos mais dramáticos para a questão indígena, inclusive para a questão quilombola em termos de propriedade. Agora, em termos de organização, bendito seja São Gabriel da Cachoeira, onde uma população é capaz de estar lá dizendo: eu sou cidadão tempo integral, totalmente indígena brasileiro a ponto de eleger o meu prefeito! Isso é uma situação contraditória intensa.

A senhora coloca a imprensa também na sua relação de elite, de poder?
No momento, onde eu moro, há um jornalista polêmico, o Paulo Henrique Amorim, que chama todos os veículos de comunicação de PIG (Partido da Imprensa Golpista). Não acredite no PIG, leia blog, porque senão você está perdido. Quer dizer: você tem, no eixo Rio-São Paulo, um agente de tal conservadorismo que é um problema sério. Jornalista virou empregado do dono do jornal. E aí editorial e “jornalismo investigativo” são coisas feitas segundo os interesses econômicos e políticos.

Se você está naquele eixo Rio-São Paulo, você tem a imprensa mais absolutamente reacionária, por uma razão muito simples: esse país está mudando. Há uma política nacional em que hoje o Norte conta, o Nordeste conta, o Centro-Oeste não é terra de ninguém. São Paulo está perdendo loucamente o poder. Então vamos batalhar para 2010! O problema é a gente garantir que o Serra estará lá retomando o poder de São Paulo no governo central! A imprensa inteira funciona para isso. Criam-se crises institucionais.

Essa história do grampo no Gilmar é a coisa mais dantesca que eu já vi na minha vida: uma coisa criada pela Veja, repercutida pelos jornais. Uma baita crise institucional em favor de quem? Em favor de seis arrozeiros que vão ferrar com a Raposa Serra do Sol e, que vão abrir espaços para revisar todas as demarcações, todas as conquistas indígenas e quilombolas desse país.

Eu te diria: a imprensa hoje em dia não dá para você passar por perto. O único consolo é que, graças a Deus, cada vez mais a Internet está se tornando um meio alternativo de informação.

Agora quem pauta a cabeça pelo Jornal Nacional? Tem a situação dramática que estamos vivendo em São Paulo, onde a eleição para prefeito pode ser ganha pelo PFL, atualmente DEM. São Paulo é o único lugar onde o PFL conseguiu sobreviver. Ele foi varrido da Bahia, o neto do Antônio Carlos Magalhães nem para o segundo turno passou. Em São Paulo, ele (o DEM) conseguiu ser eleito. O Jornal da Globo, oh, o PIG, pode fazer a cabeça do eleitor, e eu vou ter que agüentar, aturar o DEM sendo prefeito da minha cidade, eu quero morrer, eu quero vir para Manaus, eu quero pedir asilo político para vocês aqui.

Por que se diz que o brasileiro tem memória curta?
Como todas as coisas do senso comum, isso tem um pedaço de verdade e um pedaço de mentira. O porquê do pedaço de mentira eu tentei mostrar na minha comunicação. Tem memória mais persistente para coisas essenciais do que essa memória negra que eu tentei escavar em São Paulo. Não é verdade que tem memória curta. Por outro lado, com os meios de informação que você dispõe, e com um globinho lá para ajudar.

Na verdade, eu acho que é assim: o mundo tem memória curta, tem uma quantidade de informação e uma hegemonização falsa, coisas irrelevante ao lado de coisas importantes, que tudo passa batido.

Nesse sentido tem memória curta porque aconteceu tal coisa; tá, mas o que isso tem a ver comigo? Se não tem uma educação formal, se você não tem consciência de cidadão, por que você haverá de achar que o diabo do Cassabe ser do DEM te importa? Porque o DEM acabou? O DEM foi algo que passou. Então você mudou o nome e já faz de conta que é outra coisa e não precisa mais lembrar.

Agora tem que ver assim: historicamente com essa coisa de barrar o acesso à educação e não se preocupar de jeito nenhum com a cidadania. Hoje, acho que de um modo geral, tudo, na verdade, foi feito para se ter uma informação de consumo rapidíssimo. Aí eu não acho que é só o brasileiro. O mundo tem memória curta hoje em dia. Mas se eu lembrar que tenho o vídeo, o livro e essa memória que eu tentei te mostrar, acho que ela está lá fincada na longa duração da história.

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