O calanguinho-listrado-da-serra ou lagartinho-listrado-da-serra (nome científico: Ameivula cipoensis) é uma espécie de lagarto da família dos teiídeos (Teiidae). É endêmica do Brasil e restrita à porção meridional da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Descrita em 2014, pertence ao gênero Ameivula e ao grupo A. ocellifera, distinguindo-se pelo corpo delgado, três escamas supraoculares, coloração castanho-escura com ocelos amarelo-esverdeados nos flancos e ausência de espinhos tibiotarsais nos machos. Habita campos rupestres e áreas abertas do Cerrado, entre 900 e 1 200 metros de altitude, sendo associada a ambientes arenosos da região da Serra do Cipó. É uma espécie diurna e heliotérmica, mais ativa no final da manhã, quando realiza a termorregulação sobre superfícies arenosas. Pouco se conhece sobre sua história natural, mas presume-se que seja ovípara, como os demais representantes do gênero. A distribuição conhecida compreende a Serra do Cipó e localidades próximas, como Belo Horizonte, Gouveia e Santana de Pirapama, totalizando uma extensão de ocorrência de apenas 543 quilômetros quadrados. A espécie parece ocorrer em baixas densidades e encontra-se ameaçada principalmente pelos incêndios que afetam os campos rupestres, além da mineração e dos potenciais efeitos das mudanças climáticas sobre os ambientes de altitude. Em razão da distribuição restrita e do declínio continuado da qualidade do habitat, foi classificada nacionalmente como em perigo (EN) em 2021, segundo os critérios B1ab(iii)+2ab(iii) da UICN.
Etimologia o nome popular calanguinho é o diminutivo de calango, que deriva do quimbundo kalanga com sentido de "lagarto". Foi registrado pela primeira vez em 1687. O termo lagarto deriva do latim vulgar *lacartus, forma que substituiu o latim clássico lacertus. No latim, lacertus designava tanto os répteis atualmente conhecidos como lagartos quanto, por extensão, os músculos do braço, especialmente o bíceps. A forma vulgar deu origem ao vocábulo português moderno, preservando apenas o sentido zoológico original. Foi registrado pela primeira vez no século XV. O epíteto específico cipoensis faz referência à localidade-tipo da espécie.
Taxonomia e sistemática O calanguinho-listrado-da-serra é uma espécie de lagarto da família dos teiídeos, pertencente ao gênero Ameivula, linhagem que reúne espécies anteriormente incluídas no grupo Cnemidophorus ocellifer. O gênero foi estabelecido em 2012, após estudos morfológicos e moleculares demonstrarem o caráter polifilético de Cnemidophorus, levando à divisão do grupo em quatro gêneros distintos. Ameivula compreende espécies distribuídas em áreas abertas cisandinas ao sul do rio Amazonas, geralmente associadas a ambientes quentes, abertos e de solos arenosos, como Caatinga, Cerrado, campos rupestres, restingas e formações chaquenhas. No contexto taxonômico do grupo, A. cipoensis é associada ao grupo A. ocellifera, ao lado de espécies como A. nigrigula, A. confusioniba e A. pyrrhogularis. Os representantes desse grupo distinguem-se por apresentar menos de vinte poros femorais, escamas temporais inferiores aumentadas posteriormente ao terceiro subocular, cinco escamas supraciliares, seis a oito fileiras longitudinais de escamas ventrais e cauda castanha. O táxon foi descrito formalmente em 2014 por Federico José Arias, Celso M. de Carvalho, Hussam Zaher e Miguel Trefaut Rodrigues, durante uma revisão taxonômica do grupo. A existência de uma população de Ameivula na Serra do Cipó já era conhecida a partir de espécimes preservados em coleções zoológicas brasileiras, mas sua identidade taxonômica permaneceu incerta até a obtenção de novo material e aos avanços recentes no conhecimento sistemático do gênero. O holótipo corresponde a um macho adulto coletado em 20 de novembro de 2010 no Parque Nacional da Serra do Cipó, em Minas Gerais, a cerca de 1 170 metros de altitude, sendo acompanhado por quinze parátipos coletados entre 19 e 22 de novembro do mesmo ano.
Descrição O calanguinho-listrado-da-serra é um lagarto de porte médio e corpo delgado, pertencente ao grupo A. ocellifera, caracterizado pela presença de menos de vinte poros femorais, escamas temporais inferiores aumentadas posteriormente ao terceiro subocular, cinco escamas supraciliares, oito fileiras longitudinais de escamas ventrais e cauda castanha. A língua apresenta margem posterior bifurcada, formando um contorno cordiforme, e não possui bainha lingual. A espécie atinge até 71,3 milímetros de comprimento rostro-cloacal nos machos e 68,8 milímetros nas fêmeas. Possui três escamas supraoculares — caráter excepcional dentro do gênero — e uma série incompleta de grânulos circumorbitais, permitindo o contato entre a frontoparietal e a terceira supraocular. O terceiro par de escudos mentais é o maior da região gular, diferindo do padrão observado na maioria das demais espécies do gênero. Os membros são relativamente curtos e os pés pequenos, apresentando em média 12,5 lamelas sob o quarto dedo da mão e 22,5 sob o quarto artelho. Os machos são geralmente maiores que as fêmeas e exibem ventre amarelado, enquanto nas fêmeas a região ventral tende ao branco-azulado. A espécie possui 17–20 poros femorais, 85–100 escamas ao redor do corpo, 25–29 escamas ao redor da cauda, 28–30 fileiras transversais de escamas ventrais e 202–225 escamas dorsais. O quinto artelho é reduzido, com a base da unha situada aproximadamente ao nível da pele entre o terceiro e o quarto artelhos. A coloração distingue-se pela garganta e região ventrolateral brancas e pela presença de ocelos amarelo-esverdeados brilhantes nos flancos inferiores, distribuídos entre os membros anteriores e posteriores em ambos os sexos. Os machos não apresentam espinhos tibiotarsais nem mudanças ontogenéticas de coloração. Em adultos, a face dorsal é castanho-escura, com faixas paravertebrais e dorsolaterais delimitadas por linhas claras e ornamentadas por manchas escuras irregulares, enquanto juvenis e subadultos apresentam uma linha vertebral castanho-clara ausente nos adultos. Em comparação com A. jalapensis, possui maior número de poros femorais, maior número de escamas ao redor da cauda e de fileiras ventrais, maior tamanho corporal e ocelos laterais ausentes naquela espécie. Distingue-se de A. mumbuca por apresentar menos lamelas sob o quarto artelho e por exibir ocelos em machos e fêmeas, enquanto nesta última os ocelos estão restritos aos machos. Difere de A. ocellifera pelo maior número de fileiras ventrais e de escamas dorsais, de A. confusioniba pelo menor número de lamelas sob o quarto artelho e pelos ocelos laterais mais numerosos e conspícuos, e de A. nigrigula pela ausência de espinhos tibiotarsais, garganta branca e ausência de mudanças ontogenéticas na coloração dos machos. A espécie também difere de A. abalosi pelo contato entre as escamas pós-nasal e pré-frontal e pela ausência de espinhos tibiotarsais, de A. nativa por apresentar reprodução sexuada e ausência de faixa dorsal mediana, e de A. pyrrhogularis pelo menor número de lamelas digitais, menor tamanho corporal e garganta branca nos machos. Em relação às espécies do grupo A. littoralis, distingue-se pelas escamas temporais inferiores aumentadas, três fileiras de escamas ampliadas na porção dorsal do braço, menor número de poros femorais, ausência de espinhos tibiotarsais e cauda castanha, além da ausência de faixa dorsal mediana e da presença de ocelos laterais bem desenvolvidos. A intensidade e a extensão desses ocelos variam entre os sexos, sendo geralmente contínuos entre os membros anteriores e posteriores nos machos e restritos à região próxima aos membros anteriores nas fêmeas, nas quais se reduzem a dois ou três ocelos. O hemipênis é bilobado, com sulco espermático largo que se divide no ápice, apresentando papilas marginais e três sacos em cada lobo; a região distal possui quatro a cinco lamelas laterais separadas por septos longitudinais, enquanto as regiões central e proximal são desprovidas de ornamentações.
Distribuição e habitat O calanguinho-listrado-da-serra é endêmico do Brasil e conhecido da região da Serra do Cipó, no setor sul do complexo da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. O Parque Nacional da Serra do Cipó integra uma cadeia montanhosa que se estende por cerca de 1 200 quilômetros a leste da drenagem do rio São Francisco, desde as proximidades de Ouro Preto até o norte da Bahia. A área do parque abrange aproximadamente 40 000 hectares e está situada em uma zona de contato entre o Cerrado, a oeste, e a Mata Atlântica, a leste. A espécie foi registrada entre 900 e 1 200 metros de altitude, tanto por busca ativa quanto por armadilhas de queda. Ocorre em ambientes típicos de Cerrado e em campos rupestres, formações abertas associadas a afloramentos quartzíticos, solos arenosos ou rochosos e elevada endemicidade vegetal. Na Serra do Cipó, os campos rupestres predominam acima de 800 metros, em paisagens com relevo acentuado, escarpas, vales fluviais e estreitas faixas de matas de galeria. O clima local apresenta estações seca e chuvosa bem definidas, com estação seca de abril a setembro e estação chuvosa de outubro a março. As temperaturas médias variam de 20 a 22 °C, com mínimas entre 0 e −4 °C e máximas de 34 a 36 °C; a precipitação anual é de cerca de 1 500 milímetros. Registros posteriores ampliaram a distribuição conhecida da espécie na porção meridional da Serra do Espinhaço. Além da localidade-tipo na Serra do Cipó, A. cipoensis é conhecida para os municípios de Belo Horizonte, Gouveia e Santana de Pirapama, este último representando um registro obtido em 2009 por meio da plataforma de ciência cidadã iNaturalist. Essa ocorrência preencheu uma lacuna de aproximadamente 70 quilômetros entre Gouveia e o Parque Nacional da Serra do Cipó. A espécie ocorre em baixas densidades, geralmente associada a moitas de vegetação e áreas de solo arenoso. A identificação do exemplar de Santana de Pirapama foi baseada no padrão de coloração característico da espécie, incluindo a ausência de linha vertebral e a presença de campos e linhas paravertebrais e dorsolaterais. Outros registros oriundos do iNaturalist correspondem a áreas onde sua ocorrência já era conhecida, como a Serra do Cipó e Belo Horizonte. Sua extensão de ocorrência (EOO), calculada a partir do menor polígono convexo formado pelos registros conhecidos, é de 543 quilômetros quadrados. A área de ocupação (AOO) foi estimada em 392 quilômetros quadrados, com base na soma dos quadrantes de 2 × 2 quilômetros contendo remanescentes de habitat natural em 2019 dentro da área de adequabilidade ambiental da espécie.
Ecologia Os indivíduos tornam-se ativos em dias ensolarados, geralmente após as 10 horas da manhã, quando a temperatura atinge cerca de 28 °C. Foram observados correndo entre moitas de vegetação e áreas de solo arenoso, mas não sobre superfícies rochosas. A espécie, portanto, parece associar sua atividade terrestre a micro-hábitats abertos com vegetação baixa ou substrato arenoso, dentro do mosaico de Cerrado e campo rupestre da Serra do Cipó. A. cipoensis é uma espécie diurna e heliotérmica, mais ativa no final do período matutino, quando realiza a termorregulação sobre superfícies arenosas. Trata-se de uma especialista em micro-hábitat, associada principalmente aos campos rupestres, sendo aparentemente dependente de ambientes primários e de áreas arenosas utilizadas para aquecimento corporal. Não há evidências de comportamento migratório ou de especialização alimentar. Pouco se conhece sobre sua história natural e não existem informações específicas sobre sua reprodução; entretanto, assim como os demais representantes do gênero Ameivula, presume-se que seja uma espécie ovípara.
Conservação O calanguinho-listrado-da-serra foi avaliado nacionalmente em 2021 como em perigo (EN), com base no critério B1ab(iii)+B2ab(iii), em razão de sua distribuição restrita e do declínio continuado da qualidade do habitat. Além do Parque Nacional da Serra do Cipó, a espécie tem ocorrência Área de Proteção Ambiental do Morro da Pedreira. Ela apresenta tendência populacional desconhecida e não existem estimativas sobre o tamanho de suas populações, embora seja considerada aparentemente pouco abundante. Sua extensão de ocorrência é reduzida e, considerando os incêndios como principal fator de fragmentação e degradação ambiental, foram reconhecidas três localizações para a espécie. Não existe qualquer uso conhecido do táxon. A principal ameaça identificada são os incêndios, que afetam diretamente os campos rupestres da Serra do Espinhaço. Além da destruição do habitat, as queimadas reduzem a disponibilidade de artrópodes que compõem a base alimentar da espécie e podem ser agravadas por alterações climáticas capazes de modificar os regimes de precipitação e favorecer novos eventos de fogo. Em 2020, incêndios consumiram quase dez mil hectares do Parque Nacional da Serra do Cipó, correspondente a cerca de um terço da área da unidade de conservação e localidade-tipo da espécie. Fora das áreas protegidas, a atividade mineradora representa uma ameaça adicional. Análises baseadas nos dados do Projeto MapBiomas indicaram uma redução de 8,8 quilômetros quadrados (3,4%) na área de habitat disponível dentro da extensão de ocorrência da espécie entre 2009 e 2019. Por ocupar ambientes montanos e de altitude, A. cipoensis também pode ser vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas globais.
Notas [a] ^ O critério B1ab(iii) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) é aplicado a táxons com extensão de ocorrência extremamente reduzida e que atendem a condições adicionais relacionadas à fragmentação ou ao número limitado de localidades conhecidas. O subcritério a indica que a espécie está severamente fragmentada ou ocorre em poucas localidades, enquanto o subcritério b(iii) aponta a existência de um declínio contínuo, observado, inferido ou projetado, na área, extensão ou qualidade do habitat. Em conjunto, esse critério reflete o elevado risco de extinção decorrente da distribuição geográfica restrita e da deterioração progressiva dos ambientes ocupados. O critério B2ab(iii) baseia-se na área de ocupação da espécie, em vez de sua extensão de ocorrência. Ele é aplicado quando a área efetivamente ocupada é muito pequena e a espécie também apresenta fragmentação acentuada ou número reduzido de localidades (subcritério a), associado a um declínio contínuo na área, extensão ou qualidade do habitat (subcritério b(iii)). Assim, o critério reconhece que espécies restritas a áreas diminutas e sujeitas à degradação ambiental possuem maior vulnerabilidade a eventos locais e, consequentemente, maior probabilidade de extinção.
Referências