Durante décadas, um lago alpino italiano ganhou fama por trocar o azul por um vermelho intenso nos dias quentes de verão. O Lago de Tovel repetia a mudança por causa de uma floração de algas, até o fenômeno desaparecer após 1964. A alga continua ali, mas a história mudou quando os cientistas olharam para o que acontecia nas montanhas ao redor.

Por que o Lago de Tovel ficava vermelho no verão?

🏛️ 1864: Um viajante inglês descreve a floração vermelha durante o verão.

🌿 1964: O lago registra sua última floração vermelha intensa.

🚀 2002: O projeto SALTO começa a investigar por que o fenômeno desapareceu.

A responsável era a Tovellia sanguinea, um dinoflagelado capaz de produzir a coloração que tornou o lago famoso. Estudos do Museo delle Scienze de Trento (MUSE) mostram que a floração ocorria na chamada Baía Vermelha. Ela aparecia sobretudo nas horas centrais de dias quentes e calmos, entre julho e setembro. O fenômeno atingia principalmente o pequeno setor sudoeste do lago, com cerca de 4,5 metros de profundidade máxima.

O registro histórico mais citado vem do viajante inglês Douglas Freshfield, que descreveu a floração durante o verão de 1864. A Fondazione Edmund Mach informa que a última floração intensa aconteceu cem anos depois. A mudança não significou o desaparecimento da espécie. Hoje, o lago está a cerca de 1.178 metros de altitude e suas águas exibem principalmente tons azuis e verdes.

A alga desapareceu depois de 1964?

A alga permaneceu no lago, mas em menor abundância - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Não. A Tovellia sanguinea continua presente no Lago de Tovel, porém em concentrações menores. Essa diferença separa dois fatos frequentemente confundidos. O organismo permaneceu no ambiente, enquanto as grandes florações que tingiam a água deixaram de ocorrer. Essa permanência em baixa abundância foi registrada pelas pesquisas posteriores e ajuda a explicar por que o lago não perdeu sua biodiversidade. Portanto, dizer que a espécie sumiu simplifica um processo ecológico mais complexo. O desaparecimento foi da antiga explosão populacional capaz de alterar visualmente a água.

Pesquisas posteriores também corrigiram uma antiga confusão de identificação. O que pesquisadores chamavam de Glenodinium sanguineum reunia espécies diferentes, semelhantes na forma, mas distintas em cor e exigências ambientais. O MUSE aponta a Tovellia sanguinea como a espécie responsável pelos antigos episódios vermelhos. Os estudos identificaram outras espécies no mesmo conjunto, mostrando por que a classificação histórica precisava ser revista.

O que fez o lago parar de ficar vermelho?

A explicação mais sustentada pelas pesquisas envolve mudanças no uso da terra e na criação de animais acima do lago. Durante décadas, a atividade pastoril contribuía para levar nutrientes até a Baía Vermelha. Quando essa entrada de nutrientes diminuiu, a alga perdeu condições para atingir as antigas concentrações. O mecanismo ajuda a explicar por que uma espécie ainda presente deixou de produzir o mesmo efeito visual.

O Conselho Nacional de Pesquisa da Itália (CNR) resume essa conclusão a partir do projeto SALTO. O trabalho relacionou o fim das florações às mudanças na exploração do território e no fornecimento de nutrientes. Portanto, a causa não foi simplesmente uma mudança de temperatura. Nutrientes e manejo do território aparecem como peças centrais na explicação científica consolidada pelo projeto. As fontes oficiais consultadas também não estabelecem um limite de 26 °C para que a Tovellia sanguinea se multiplique.

O que os estudos revelaram sobre a antiga Baía Vermelha?

Elemento

O que a pesquisa mostrou

Alga

A Tovellia sanguinea permaneceu no lago, mas em menor abundância.

Nutrientes

Mudanças no manejo das pastagens reduziram a entrada de nutrientes associada às antigas florações.

A Baía Vermelha tinha condições diferentes das encontradas na parte principal do lago. Estudos do MUSE classificaram essa área como mais rica em nutrientes e mais favorável aos dinoflagelados. A composição atual do fitoplâncton continua parecida com a histórica, exceto pela forte redução da Tovellia sanguinea. A hidrologia e os eventos meteorológicos locais também influenciam o desenvolvimento sazonal do fitoplâncton.

Hoje, o Lago de Tovel integra uma rede de pesquisa ecológica de longa duração. A Fondazione Edmund Mach informa que existem mais de 300 publicações científicas e de divulgação sobre o local desde o fim do século XIX. O lago tem águas frias, claras e pobres em nutrientes, embora mantenha elevada diversidade de organismos planctônicos. Esse acompanhamento transformou um fenômeno visual incomum em referência para estudos de ecologia e mudanças ambientais.

Um lago vermelho que virou história científica

O caso do Lago de Tovel mostra como uma paisagem pode mudar sem perder o organismo ligado à sua antiga aparência. A floração vermelha desapareceu, mas deixou uma longa trilha de estudos sobre nutrientes, algas e uso do território. O mistério mudou de forma, porque a pergunta deixou de ser apenas qual alga tingia a água. Se você encontrar outra história sobre um lago de cor improvável, vale procurar o que mudou dentro e fora da água. Esse cuidado separa uma curiosidade bem documentada de detalhes atraentes que as fontes não conseguem sustentar.

Leia mais:

- Clarice Lispector: “Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever”, a anotação em que a dúvida vira parte do próprio ato de escrever

- A rua mais estreita do Brasil tem largura menor que um carro popular, dois moradores não passam de frente ao mesmo tempo

- A cidade do Sul onde uma ressaca faz o oceano atravessar a praia, invadir a avenida, alcançar casas e mobilizar máquinas contra troncos e vegetação