O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 desenhou um cenário inequívoco de colapso para o Cidadania. O partido, que carrega em suas raízes a histórica tradição da esquerda democrática do antigo “Partidão” de 1922 e a transição programática do PPS de 1992, sucumbiu ao maior desastre eleitoral de sua trajetória. Contudo, reduzir esse fiasco a uma mera fatalidade das urnas ou à volatilidade da conjuntura é ignorar o processo interno de desestruturação que pavimentou esse caminho.O desastre, simbolizado pela derrota de Alex Manente — que sucedeu ao ex-deputado federal Roberto Freire e por ele foi apoiado —, é o desfecho lógico de uma estratégia centralizadora. Sob o pretexto de controle da legenda, promoveu-se um verdadeiro expurgo político que afastou lideranças históricas, sufocou o debate interno e substituiu a militância orgânica por meros arranjos de conveniência. O poder concentrou-se; o partido esvaziou-se.O diagnóstico técnico-financeiro expõe a gravidade dessa asfixia institucional. Com expressivos R$ 33,1 milhões do Fundo Eleitoral, o partido foi incapaz de eleger um único deputado federal. O custo médio por voto atingiu a impressionante marca de R$ 56,01, mas as maiores distorções repousam na distribuição seletiva e ineficiente desses recursos.Casos como o de Juliet Neves Matos — que, munida de R$ 1,55 milhão, conquistou apenas 361 votos, gerando um custo absurdo de R$ 4.293,63 por voto — deixam de ser falhas gerenciais para se tornarem aberrações políticas. Enquanto repasses milionários evaporavam em campanhas sem viabilidade ou capilaridade, o único deputado estadual eleito pela legenda, o GCM Romário Barbosa Policarpo, em Goiás, conquistou seus 55.337 votos sem receber um único centavo do fundo partidário.O contraste é pedagógico: onde houve burocracia e favorecimento financeiro, colheu-se o vácuo; onde houve conexão real com o eleitorado, colheu-se o voto. Embora tenha recebido diretamente R$ 769,8 mil e obtido 102.716 votos, Manente não conquistou a reeleição. O próprio Freire tornou-se símbolo do fracasso: recebeu R$ 850 mil para disputar uma cadeira na Câmara pelo Distrito Federal e obteve apenas 1.156 votos.As urnas de 2026 não apenas puniram os dirigentes do Cidadania; elas colocaram uma interrogação sobre a própria sobrevivência da legenda como organização autônoma no Brasil. Diante da cláusula de barreira e do isolamento político, o partido se vê diante do espelho da história, restando-lhe decidir se aceitará a liquidação final ou se iniciará uma profunda e urgente autocrítica.RESUMO EXECUTIVO E DIAGNÓSTICO POLÍTICOO resultado obtido pelo partido Cidadania no primeiro turno das eleições de 2026 configura um quadro de extrema fragilidade institucional e ineficiência alocativa de recursos públicos:Deputados federais eleitos: nenhum.Deputados estaduais eleitos: apenas no estado de Goiás.Montante total do Fundo Eleitoral distribuído entre os candidatos: R$ 33.116.355,30.Votação total acumulada: 591.274 votos em todo o território nacional.Custo médio nacional por voto: R$ 56,01 por voto.ANÁLISE TÉCNICO-FINANCEIRAExistem casos flagrantes de ineficiência financeira, nos quais repasses milionários ou expressivos do Fundo Eleitoral resultaram em votações inexpressivas, gerando custos absurdos por cada voto conquistado:Juliet Neves Matos (Deputada Federal): recebeu R$ 1.550.000,00 e obteve apenas 361 votos, resultando em um custo de R$ 4.293,63 por voto. É o voto com maior desproporção verificada entre o Fundo Eleitoral e os votos recebidos. Uma aberração política e financeira.Janaína Castro (SP – Deputada Federal): recebeu R$ 634.681,26 para conquistar 306 votos (R$ 2.074,12 por voto).Amanda Cristina (BA – Deputada Estadual): recebeu R$ 102.648,46 para conquistar apenas 67 votos (R$ 1.532,07 por voto).Adriana Damasceno (BA – Deputada Federal): recebeu R$ 333.898,46 para obter 226 votos (R$ 1.477,43 por voto).Enfermeira Claudete (SP – Deputada Federal): recebeu R$ 574.681,26 e só conseguiu 416 votos (R$ 1.381,45 por voto).Mari Cereia (PR – Deputada Federal): recebeu R$ 100.000,00 e atraiu somente 75 votos (R$ 1.333,33 por voto).Da Glória (RJ – Deputado Estadual): recebeu R$ 40.923,30 para atrair 37 votos (R$ 1.106,04 por voto).Dedé da Folha (SP – Deputado Estadual): recebeu R$ 1.206.894,26 em troca de 1.384 votos (R$ 872,03 por voto).Roberto Freire (DF – Deputado Federal): ex-presidente nacional do Cidadania, recebeu R$ 850.000,00 e colheu 1.156 votos (R$ 735,29 por voto).Acesse todas as colunas do Blog do Noblat no Metrópoles











