11 set 2026 - 06h36

(atualizado às 07h47)

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- Por: Patrícia Vasconcellos

Resumo

Na convenção republicana, Donald Trump focou na mobilização eleitoral para novembro e prometeu repasses em dinheiro aos eleitores. O destaque, contudo, foi JD Vance, que adotou tom moderado e focado em temas econômicos e educação, projetando-se como herdeiro político para 2028. Vance suavizou a retórica migratória ao defender a cidadania por nascimento e atacou democratas. A cúpula republicana tentou desviar de polêmicas externas e focar no custo de vida para conter a desaprovação de Trump.

Vice-presidente de Estados Unidos, JD Vance, chamou os democratas de "partido do ódio", durante convenção do Partido Republicano em Dallas. (10/09/2026)

Foto: RFI

Patrícia Vasconcellos, de Dallas, especial para a RFI
Por dois dias, os principais nomes do Partido Republicano estiveram reunidos no Texas na primeira convenção nacional da legenda para as eleições de meio de mandato. Na noite de encerramento, os discursos do presidente Donald Trump e do vice JD Vance mostraram estratégias diferentes para tentar mobilizar o eleitorado antes da votação de novembro.
Trump subiu ao palco prometendo ser breve, depois de ter discursado por quase duas horas no dia anterior. Cumpriu a promessa: falou por menos de meia hora.
O presidente voltou a pedir para os eleitores votarem em novembro como se o nome dele estivesse nas cédulas e repetiu a promessa de pagar US$ 5 mil a cada adulto americano caso o Partido Republicano conquiste a maioria das cadeiras no Congresso. "Se os democratas dominarem, eles vão destruir tudo o que foi feito", afirmou.
Trump, no entanto, não explicou como seria feito o pagamento dos US$ 5 mil, nem de onde viriam os recursos. Também culpou os democratas pela inflação e o aumento da imigração ilegal nos Estados Unidos nos últimos anos.
Para Vance, democratas 'são o partido do ódio'
A imigração, carro-chefe da campanha presidencial republicana de 2024 e uma das principais bandeiras do atual governo, teve espaço muito menor no discurso de JD Vance.
O vice-presidente adotou um tom mais moderado do que Trump e outras autoridades que passaram pelo palco. Seguiu de perto o discurso preparado no teleprompter e mencionou a imigração ao afirmar que o governo havia revertido o fluxo de entrada ilegal de estrangeiros.
O tema voltou a aparecer quando um manifestante na plateia exibiu uma bandeira do México. Vance respondeu que ele deveria então ir para o país latino-americano, mas não prolongou o assunto.
Em outro momento, o vice-presidente fez uma declaração que soou como um reconhecimento de que existe descontentamento entre eleitores com algumas decisões do governo: "Não entreguem o país nas mãos de malucos porque vocês não concordam com uma política ou outra deste governo", disse.
Vance também tentou inverter a acusação de que o Partido Republicano promove um discurso de divisão. Segundo ele, são os democratas que representam o "partido do ódio", enquanto os republicanos querem proporcionar "uma vida melhor" aos americanos.
O vice-presidente concentrou boa parte da fala em temas como preços mais baixos, empregos e educação - uma combinação que reforçou a impressão de um discurso voltado não apenas para as eleições legislativas de novembro, mas também para uma possível candidatura presidencial em 2028.
Vice ganha espaço como possível herdeiro de Trump
O espaço dado a Vance na segunda noite também reforçou sua posição como possível herdeiro político de Trump. Oficialmente, o presidente disse estar cansado. Nos bastidores da convenção, porém, o desenho da agenda pareceu dar ao vice-presidente a oportunidade de se apresentar a um público nacional.
Vance falou em tom de presidenciável e citou a própria mulher, Usha Vance, filha de imigrantes indianos, ao retomar uma disputa com Abdul El-Sayed, político democrata e candidato ao Senado por Michigan. A controvérsia começou depois que El-Sayed insinuou que o avô de Vance poderia ter problemas em conhecer Usha por causa de sua origem familiar. Na convenção, o vice-presidente negou a premissa e classificou a insinuação como uma demonstração do que chamou de "ódio" dos democratas.
JD Vance, ao fundo, se posiciona como herdeiro político de Trump para as próximas eleições americanas, em 2028. (17/10/2025)
Foto: RFI
O contraste com Trump também apareceu na discussão sobre cidadania. Na quarta-feira (9), o presidente havia falado em assinar uma ordem executiva para proteger os Estados Unidos de uma "invasão estrangeira". Vance não retomou essa retórica e fez uma declaração sobre identidade americana.
"Toda criança nasce com o direito de ser americana, não pela forma como ela aparenta ou de onde seus antepassados vieram, mas porque ela é americana", afirmou.
A declaração chama atenção diante da política defendida por Trump de restringir a cidadania automática por nascimento para filhos de determinados imigrantes que estejam nos Estados Unidos sem autorização ou com status migratório temporário.
Irã fica fora da última noite
A guerra contra o Irã, que se estende há meses e pressiona os preços dos combustíveis, praticamente desapareceu do encerramento da convenção. Trump havia tratado do assunto no primeiro dia, quando afirmou que não negociaria com "lunáticos" e voltou a dizer que não permitiria que o Irã tivesse armas nucleares.
Na última noite em Dallas, porém, o conflito no Oriente Médio não ganhou destaque. Trump preferiu falar da Venezuela, afirmando que os Estados Unidos "tomaram o petróleo" do país latino-americano, e insistiu repetidamente na necessidade de os republicanos comparecerem às urnas em novembro.
Depois dos dois dias de convenção, ficou evidente a tentativa da liderança republicana de concentrar a mensagem eleitoral em economia, custo de vida, empregos e mobilização da base.
Temas mais controversos da administração, como a guerra contra o Irã, as prisões e deportações em massa de imigrantes e as declarações de Trump sobre territórios estrangeiros, entre eles a Groenlândia e o Canadá, podem representar um problema principalmente entre republicanos mais moderados e eleitores independentes.
Convenção deve ter efeito limitado nas pesquisas
Apesar da dimensão do evento em Dallas, é improvável que a convenção, sozinha, provoque uma mudança significativa nos índices nacionais de aprovação de Trump. O público presente era majoritariamente formado por eleitores e ativistas fortemente identificados com o movimento MAGA - Make America Great Again ("Faça a América Grande Novamente").
Nas eleições de novembro, o desempenho republicano deverá depender também das disputas locais e das campanhas individuais para a Câmara e o Senado. Trump chega a essa etapa da campanha enfrentando forte desaprovação, em um cenário no qual inflação e custo de vida permanecem entre as principais preocupações dos eleitores.
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