Demétrio Vecchioli

MP investiga R$ 3,5 milhões da prefeitura de SP a evento de Karina Gama
MP investiga R$ 3,5 milhões da prefeitura de SP a evento de Karina Gama · Imagem: Divulgação

Prefeitura de São Paulo bancou R$ 3,5 milhões em despesas de evento gospel de Karina Gama, como revelou a coluna

MP investiga R$ 3,5 milhões da prefeitura de SP a evento de Karina Gama
MP investiga R$ 3,5 milhões da prefeitura de SP a evento de Karina Gama · Imagem: Source: www.metropoles.com

Demétrio Vecchioli

10/09/2026 09:52

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O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu um novo inquérito civil para investigar pagamentos da prefeitura de São Paulo, que somam R$ 3,5 milhões, para custear despesas de uma feira de tecnologia gospel realizada em 2025 pela Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade de Karina Gama.

A ONG e a própria empresária, que também é produtora do filme Dark Horse, espécie de cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), são alvos de operação da Polícia Federal nesta quinta-feira (10/9).

Em maio, a coluna Demétrio Vecchioli revelou que o valor saiu da Secretaria Municipal de Turismo (SMTUR), então comandada pelo pastor e deputado estadual Rui Alves (Republicanos) e foi executado pela SPTuris sob gestão de Gustavo Pires, que foi exonerado depois de denúncias também da coluna.

Até abril, o pagamento de despesas do evento gospel era mantido sob total sigilo pela prefeitura e só nesta quarta-feira (9/9) a prefeitura de São Paulo tornou público, após pedido do Ministério Público, documento que mostra que foi Karina Gama quem enviou um pedido à gestão Ricardo Nunes (MDB) solicitando o apoio a sua “feira” (veja aqui).

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Trata-se de um modelo de contratação em que secretarias (no caso, a SMTUR) repassam dinheiro para a SPTuris bancar serviços para eventos escolhidos sem transparência e sem necessidade de solicitação formal. Os organizadores são beneficiados à medida que deixam de precisar pagar uma extensa lista de despesas, aumentando a margem de lucro de eventos privados. A Connect Faith 2025 cobrou ingressos para shows e palestras e vendeu cotas para patrocinadores e expositores.

Esse tipo de pagamento não é divulgado em Diário Oficial, nem é discutido em processo que possa, depois, ser objeto de pedido de Lei de Acesso à Informação. Como revelou a coluna, alguém faz pedido por “apoio” a um órgão da prefeitura e a SPTuris, em documentação também sigilosa, determina que fornecedores prestem o serviço.

Só existem registros de que isso aconteceu porque planilhas escondidas em processos da SPTuris mostram os pagamentos, de forma desordenada.

Questionada pelo MP, a prefeitura respondeu nesta quarta-feira confirmando que o apoio ao evento não foi submetido à Comissão de Monitoramento e Avaliação da SMTUR, incumbida de monitorar e avaliar as parcerias celebradas pela Secretaria Municipal de Turismo com as Organizações da Sociedade Civil, caso da ONG de Karina Gama.

Ao justificar o aporte de R$ 3,5 milhões no evento de Karina Gama, a SMTUR, controlada por bispos da Igreja Universal, disse que “O evento possui aderência às diretrizes de fomento ao turismo religioso, segmento reconhecido por sua relevância econômica, cultural e capacidade de mobilização de fluxos turísticos, em consonância com as diretrizes do Plano Nacional de Turismo, que reconhece o turismo religioso como importante vetor de desenvolvimento econômico, promoção de destinos e fortalecimento das atividades culturais e turísticas”.

“Além disso, a realização do evento gerou impacto positivo na movimentação turística da cidade de São Paulo, contribuindo para o incremento do fluxo de visitantes, da cadeia produtiva do turismo e da promoção institucional do Município, tendo como contrapartida institucional a exposição da marca da Prefeitura de São Paulo nos espaços do evento”, continuou a prefeitura, em parecer assinado por Marcelo Alves Ribeiro, coordenador de eventos da SMTUR.

A resposta ao MP não cita qualquer dado sobre o impacto na movimentação turística da cidade, nem sobre incremento no fluxo de visitantes.

“Ressalta-se, ainda, que a organização do evento conferiu ampla visibilidade à marca institucional da Prefeitura de São Paulo, mediante divulgação em materiais promocionais, comunicação visual e demais espaços de exposição

relacionados ao evento, conforme documentação comprobatória acostada aos autos”, continua. A “ampla visibilidade” é comprovada neste relatório.

A SMTUR não explica como decidiu o volume de contratações pagas pela municipalidade para o evento. A coluna mostrou que só a MM Quarter, pivô do escândalo na SPTuris, recebeu R$ 183,5 mil para fornecer produtores, recepcionistas e carregadores por seis diárias, ainda que o evento tenha durado quatro, de 12 a 15 de junho, no Expo Center Norte.

O “apoio” da prefeitura de São Paulo a eventos deveria estar em um degrau abaixo do “patrocínio”, com menos burocracia para resolver solicitações simples, como cessão de palco, som e iluminação para festas de bairro e eventos da própria prefeitura. Esta coluna tem denunciado que, nos últimos anos, passou a movimentar muito mais dinheiro do que os patrocínios da gestão municipal, sem cumprir os mesmos requisitos de transparência e controle.

Só em abril, após o Tribunal de Contas do Município (TCM) e o Ministério Público (MP) abrirem investigações sobre os contratos da SPTuris, a SMTUR deu transparência aos “solicitantes” de alguns eventos. No caso da Connect Faith, é citada a “Academia Nacional de Cultura”.

A planilha, que não foi integralmente preenchida. Não há qualquer explicação sobre quem solicitou que a prefeitura pagasse mais de R$ 5 milhões em despesas dos eventos “10º Aniversário do TDZ” e “TDZSP”, que vêm a ser edições do Tardezinha, do pagodeiro Thiaguinho.

Quando a coluna procurou a prefeitura a respeito da revelação do apoio de R$ 3,5 milhões ao evento, a prefeitura enviou a seguinte nota: “A Secretaria Municipal de Turismo informa que as contratações mencionadas respeitaram todos os trâmites previstos na legislação. O apoio do Município ao The Connect Faith foi concedido com base no Decreto Municipal nº 61.244/2022 e destinado à infraestrutura do evento, que teve público estimado em 60 mil pessoas entre os dias 12 e 15 de junho de 2025. Por fim, a administração repudia qualquer tentativa da imprensa de criar relações entre iniciativas do Município e a produção cinematográfica do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A Prefeitura de São Paulo reitera que a obra não recebeu recursos municipais.”